Fascínio e mistério no premiado 'Memória'; leia crítica

Jessica não dorme. Escocesa, ela está na Colômbia para visitar a irmã doente, acometida de alguma desordem de memória, talvez Alzheimer. Um dia, ouve um barulho seco, como algum objeto pesado caindo. A primeira reação é imaginar que ele vem do exterior, mas, à medida que vai se repetindo, ela se dá conta de que é um som que vem de dentro. O sentimento de desconexão com a realidade se instaura, e ele é o centro de “Memória” (Prêmio do Júri em Cannes 2021), primeiro longa de Apichatpong Weerasethakul realizado fora da Tailândia, seu país natal. E é também sua primeira experiência dirigindo atores profissionais, Tilda Swinton à frente. Novo país, novas condições de produção, e no entanto o universo do cineasta é facilmente perceptível, com algumas de suas figuras recorrentes (os hospitais, o sono), os ritmos de plano e enquadramentos que fazem o espaço físico respirar, e acima de tudo o maravilhamento com o que há de misterioso e evocativo no mundo —tanto o mundo material quanto o que pode estar além dele.

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Assim como “Mal dos trópicos”, sua obra-prima, “Memória” começa com o estabelecimento de um cotidiano e aos poucos vai assumindo ares fantásticos. Como “Cemitério do esplendor”, esse fantástico é mais sugerido do que encarnado em figuras mágicas que vão do animismo ao espiritual — o macaco fantasma de olhos vermelhos em “Tio Boonmee”, o mico falante e o espírito de tigre de “Mal dos trópicos”. Em “Memória”, o estranhamento que provoca fascinação vem do barulho interno da protagonista e de sua busca para descobrir a razão. Nesse trajeto, ela encontra dois homens chamados Herman: um é engenheiro de som e tenta com ela reconstruir o barulho com um software de áudio; o outro é um homem encontrado à beira de um rio descamando peixes, mas que não parece pertencer a este planeta. O nome da personagem principal é Jessica Holland, uma flagrante homenagem a “A morta-viva” (“I walked with a Zombie”, 1943), de Jacques Tourneur, em que uma mulher é como que hipnotizada pelos tambores de rituais do Haiti. Tilda não interpreta exatamente uma zumbi, mas sua atuação é pura contenção de gestos para construir um corpo absorto, que mostra ter curiosidade diante das coisas do mundo (ossos de uma escavação, flores, fungos) mas parece ter perdido um laço mais firme com a realidade. Num momento, Jessica confessa à amiga (Jeanne Balibar): “Acho que estou enlouquecendo.” Ao que a outra responde: “Está sim. E eu também.”

O barulho que desencadeia a narrativa do filme tem uma inspiração real, vivida pelo próprio Weerasethakul, que sofreu de síndrome da cabeça explosiva por algum tempo. Mas a exploração do tema em “Memória” não tem nada de objetiva: é uma indagação mais abstrata e filosófica sobre os laços entre consciência e a realidade externa, das ilusões auditivas à perda da memória, e o anseio pela harmonia entre interior e exterior.

Curiosamente, um filme que tem origem num barulho é um dos mais silenciosos do cinema. Assim como já havia feito em “Cemitério do esplendor”, Weerasethakul dosa cuidadosamente todos os sons, moldando em minúcia os tempos entre os diálogos, deixando o som ambiente, geralmente ameno, ter toda uma predominância, quase uma partitura ou uma obra de field recording, tanto os barulhos urbanos quanto os da natureza.

Ainda que o filme tenha como tema a desconexão da realidade, esse sentimento é só uma espécie de subterfúgio para abrir-se ao mundo: é uma vigorosa entrega à beleza das coisas, à serenidade dos sons e ao poder encantatório dos espaços. Mais uma vez, Apichatpong Weerasethakul realiza uma obra misteriosa com seu olhar panteísta e com seu absoluto domínio do ritmo, um ritmo que permite à ficção viver e conviver com as coordenadas do mundo real e se imbricar junto dele. Que a jornada comece.

Onde: Espaço Itaú, Reserva Cultural, Estação NET

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