Fast-food é 'última refeição' frequente em núcleo paliativista da Unicamp

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Comer lanche do McDonald's é um desejo comum a pacientes de oncologia e hematologia internados em estado grave e submetidos a tratamento paliativo no Hospital das Clínicas da Unicamp, em Campinas, no interior de São Paulo. Os pedidos são frequentes, segundo a enfermeira Ellen Recco, que há sete anos cuida de pessoas com diagnóstico de linfoma e leucemia.

Os enfermeiros, junto ao núcleo de cuidados paliativos do hospital público, alertam familiares dos pacientes para a realização de desejos que envolvem alimentação especial e diferente da comida hospitalar.

"Percebo que quando vão chegando nessa fase [mais crítica do tratamento] eles querem alguma coisa, como um grand finale para o processo da vida", afirma Ellen.

Sem estatísticas oficiais sobre quais são os principais pedidos, a servidora pública da saúde diz que pacientes com menos de 50 anos são os que mais solicitam fast-food. Segundo a enfermeira, eles frequentemente optam por hambúrguer, batata frita e refrigerante.

"Nessa faixa etária eles focam em comida e solicitar McDonald's é muito frequente. Há casos em que assim que acabam de comer o lanche, [os pacientes mais debilitados] já entram naquela fase final. Então, essa acaba sendo a última refeição de muita gente", diz.

Mas um paciente de 28 anos diagnosticado com leucemia linfoide aguda, sob cuidados paliativos no setor onde Ellen trabalha, foi na contramão e pediu pizza, que seria servida na noite da última sexta-feira (22), segundo a enfermeira.

Ellen relata que já se deparou com pacientes que levavam uma vida saudável antes de adoecerem, mas que ao entrarem nas semanas finais de vida, optaram pelo mesmo pedido.

"Nesses casos, nunca pedem um suco de laranja, por exemplo. É sempre refrigerante e fast-food. Parece que é uma coisa que eles sabem que faz mal, mas como estão no fim da vida, não têm mais essa preocupação", diz a enfermeira.

Psicóloga hospitalar paliativa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Karen Bisconcini explica que esse raciocínio faz sentido. Para ela, essas pessoas que não consumiam determinados alimentos por fazerem mal ao longo da vida mudam o pensamento quando percebem que a saúde está afetada irreversivelmente.

"Acredito que nesses casos exista uma pressa, uma urgência de fazer aquilo que não foi feito antes", diz Karen.

No caso de pacientes mais velhos, é comum que optem por uma alimentação mais caseira e que remeta a lembranças de família.

"Um ou outro até pede um lanche, mas vejo que preferem a comida de casa ou então nem se importam com a parte alimentar. Eles querem ver pessoas, tanto que alguns até param de comer", diz Ellen.

Roberta Antoneli Fonseca, enfermeira do núcleo de cuidados paliativos da Unicamp e membro da ANCP (Academia Nacional de Cuidados Paliativos), afirma que parte dos pacientes com doenças graves, sem chances de cura, não costuma sentir fome.

"Quando pedem alguma refeição diferente, como lanche, nem sempre conseguem comer por inteiro. Às vezes é só uma mordidinha, mas fazemos o desejo dele. Já tive paciente que pediu para tomar uma cerveja e outro que pediu um último cigarro", conta.

Roberta afirma que também é comum no final da vida o paciente sentir a boca seca. Por essa razão, ela diz que pedidos por sorvetes ou sacolés costumam acontecer com frequência.

Na Unicamp, as nutricionistas providenciam, por conta própria, geladinhos para oferecer aos pacientes que não podem comprar.

No caso da alimentação especial, na Unicamp, quem fornece os pedidos dos pacientes costuma ser a família após ser notificada do estado do ente pelo grupo de cuidados paliativos do hospital. Quando não podem pagar ou não são presentes, os próprios funcionários do hospital se unem para realizar esses desejos.

"Sempre alguém da enfermagem compra uma coisa ou outra. Uma vez, uma equipe médica pediu um delivery para um paciente e ele morreu antes que o pedido chegasse", diz a enfermeira Ellen.

Para a nutricionista e especialista em cuidados paliativos Tamyris Gonçalves, os pedidos dos pacientes estão muito relacionados ao modo de vida e hábitos destas pessoas. Por isso é comum, segundo ela, ver jovens pedindo por comidas como fast-food.

"Não fazem questão da presença do nutriente em si, mas sim da lembrança que aquele alimento traz. Já atendi pacientes do Amazonas que pediram açaí porque é um hábito daquela região", diz Tamyris.

Algumas técnicas de nutrição também foram desenvolvidas para facilitar o acesso do paciente com mais restrições, como os que usam sondas, à comida desejada.

"Muitas vezes eles só querem sentir o sabor do alimento, então facilitamos a deglutição. Outros preferem colocar a comida na boca só para sentirem o gosto e logo após cospem. Às vezes, isso já é o suficiente", afirma Tamyris.

A psicóloga Karen reforça que a alimentação do paciente nessa fase da vida, por mais que ele não tenha fome, está relacionada à ideia de afeto.

"É uma forma de mostrar que a pessoa está sendo bem cuidada. Algumas famílias insistem em alimentar o paciente com alguma comida que ele goste, mesmo sem ele pedir. É a tentativa de demonstrar que está tudo indo do melhor jeito possível", afirma Karen.

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