Fatores socioeconômicos explicam quase 70% da média das notas do Enem em um município, aponta estudo

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RIO — A importância do contexto socioeconômico para o desempenho de alunos no Enem é uma certeza já conhecida. Agora, porém, uma pesquisa, publicada nesta quarta na revista de Administração Pública da FGV-SP, conseguiu mensurar esses impactos e identificou que variáveis como renda familiar, acesso a bolsas, raça e nível de educação das mães conseguem refletir até 68% da média das notas de um município, no caso da prova objetiva do exame. Ao cruzarem os microdados do Enem, do Censo Escolar e do IBGE, de 2018, os pesquisadores chegaram a estatísticas que podem servir para embasar políticas públicas de mitigação da desigualdade social presente no ensino brasileiro, defendem.

O artigo, nomeado "Impacto das variáveis socioeconômicas no desempenho do Enem: uma análise espacial e sociológica", é de autoria do engenheiro e pós graduado em big data Rafael Oliveira Melo, da bióloga e doutoranda em educação Anne Caroline de Freitas, e seus orientadores, Eduardo de Rezende Francisco, da faculdade de administração da FGV-SP, e Marcelo Tadeu Motokane, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP - Ribeirão Preto.

Ao cruzarem os microdados, os pesquisadores chegaram a uma base de 79 variáveis, que, filtrados por relevância, resultaram nos 10 fatores que mais impactam no resultado do Enem.
Em ordem, os fatores de maior impacto são: percentual de estudantes com bolsa em escola privada, em primeiro; municípios com maior percentual de famílias com renda alta; perfil instrucional da mãe (maiores índices de escolaridade e especialização); percentual de famílias com renda média; percentual de estudantes de raça branca; perfil instrucional da mãe de média especialização; percentual de escolas com refeitórios; percentual de escolas com aulas de espanhol no 3º ano; percentual de escolas com laboratórios de informática; proporção de pobres no município.

Ou seja, os fatores de impacto passam por dados econômicos, sociais, e de infraestrutura das escolas. A depender dos indicadores do município, os fatores vão representar aumento ou diminuição na média do resultado dos alunos frente à média nacional, que, em 2018, foi de 507,7 na prova objetiva. Assim, segundo o resultado da pesquisa, é como se fosse possível prever 68% da média das notas de um município no Enem, considerando seus indicadores. Já no caso da prova da redação, esses mesmos fatores são menos relevantes, e explicam até 37% das notas. Para os pesquisadores, essa diferença pode estar no caráter mais subjetivo da redação, tanto na elaboração pelos alunos quanto na correção.

— Sabíamos que fatores socioeconômicos influenciavam no desempenho, mas não em qual grau. É muito importante ter esses dados a nível municipal. Claro que há fatores econômicos que não estão na alçada da secretaria municipal de educação, mas só de saber os impactos já ajuda a gestão pública — explica Rafael, que pretende atualizar os dados dos anos mais recentes, e fornecer uma base de visualização com as estatísticas de cada cidade. — Com essa ferramenta, é possível repensar as estruturas e condições de um exame mais justo, além de projetar políticas públicas que possam ajudar a reduzir as desigualdades escolares.

Além dos indicadores econômicos, os pesquisadores encontraram impactos meramente geográficos. No caso da prova de redação, por exemplo, a localização impactou em até 14% o desempenho. Estudantes do Norte e do Nordeste tiveram, em média, desempenho abaixo dos alunos do Sul e Sudeste.

— A pluralidade linguística acaba não sendo tão valorizada. A escrita reflete muito a oralidade, e o repertório linguístico está bastante associado ao capital cultural da pessoa. Se não tenho bagagem cultural que me permite a escrita dentro do padrão exigido, você está valorizando a cultura dominante e reproduzindo uma exclusão. — explicou Anne Carolina de Freitas, em relação à influência geográfica na redação. — A gente precisa pensar em estratégias no ensino básico e de acesso ao ensino superior e torná-los mais justos. Como, por exemplo, facilitar acesso ao capital linguístico e cultural e ser menos tecnicista. Além de defender a política de cotas.

Apesar de defenderem aperfeiçoamentos no Enem, a fim de torná-lo mais justo, os pesquisadores destacam que o exame nacional é a principal ferramenta que existe hoje para acesso universitário no Brasil e que ele deve ser valorizado. E a desigualdade social no ensino, frisam, deverá se tornar mais acentuada nos próximos anos, em função dos prejuízos no ensino com a pandemia, o que demanda ainda mais atenção.

— A pandemia deflagrou muita coisa, que talvez fôssemos perceber a longo prazo, como a falta de internet. O importante é atualizar esses dados e permitir que o estudo seja sempre revisitado a fim de fornecer ferramentas ao poder público — afirmou Eduardo de Rezende.

Coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Andressa Pellanda explica que a pandemia "explicitou desigualdades que já existiam e as aprofundou", ao comentar o artigo:

— O último Enem já esteve marcado pelos reflexos da pandemia e de sua má gestão, pelo tamanho da abstenção no exame e as próximas vão também ser consequência das desigualdades e dos vários tipos de exclusão que estudantes empobrecidos, negros, periféricos sofrem.



Para ilustrar um caso concreto de influência dos fatores econômicos na média de uma cidade, o artigo selecionou o caso de Itapipoca, município de 130 mil habitantes no interior do Ceará, e que, em 2018, teve média de 417,8 na redação e de 481,9 na prova objetiva, enquanto a média nacional foi de 507,7. O principal indicador que pesou para que a cidade ficasse abaixo da média foi a alta proporção de pobres na população. Já as únicas variáveis que influenciaram positivamente, porque apresentaram boa porcentagem local, foi a proporção de escolas com laboratório de informática e de turma de espanhol no 3º ano.

Professora e historiadora de Itapipoca, Ninivia Campos, hoje coordenadora do Centro de Referência e Atendimento à Mulher de Itapipoca, explica que, apesar de avanços recentes no acesso à educação, a população local ainda é muito impactada pelos fatores socioeconômicos, em termos de desempenho escolar e universitário.

— Itapipoca tem muitos distritos, mas nem todos possuem escolas. Essa distância, então, já é um primeiro obstáculo. Na periferia, onde há muitos negros, indígenas e quilombolas, há evasão grande, e com a pandemia ficou ainda mais difícil. Se na capital foi difícil, imagina no interior — explica ela, que foi a primeira mulher da sua família a se formar na universidade, e agora vê os dois filhos no ensino superior. — Aqui era muito comum ver o jovem trilhar a profissão dos pais, na agricultura. Depois do Enem e de programas como Pronatec e da política de cotas, essa realidade mudou. Temos comunidades indígenas e quilombolas que conseguiram se inserir na faculdade, mas mesmo com esse rompimento de barreira, as oportunidades ainda não são grandes.

O jovem Kauan Sousa, de 17 anos, fará o Enem neste domingo, com intenção de, posteriormente, cursar psicologia. Nos últimos anos, avaliou algumas opções de carreira, como jornalismo, veterinária e teatro, arte que tem como paixão, e que inclusive lhe rendeu o sobrenome artístico "Velmont", em homenagem ao personagem da novela Fina Estampa. Mas, percebeu que a oferta de graduações de artes cênicas se concentra no Sul e Sudeste e, então, preferiu escolher uma carreira que lhe possibilite entrada mais fácil no mercado de trabalho.

Em Itapipoca, a única universidade pública — Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará — oferece poucos cursos de agronomia, ciências sociais, biologia e pedagogia, e outras opções seriam faculdades privadas. Uma de suas ideias, então, é migrar para Fortaleza. Apesar de ter seis irmãos, todos por parte de mãe, ele mora somente com os avós, aposentados, e o pai, hoje desempregado. Mesmo com as dificuldades, diz que teve condições de cursar toda a escola e de estudar remotamente durante a pandemia, mas viu colegas largando os estudos.

— No Ensino Fundamental, a condição era mais precária, e muita gente largava no 9º ano. Já no Ensino Médio, entrei para uma escola estadual, e a estrutura melhorou, tinha refeitório novo, laboratório e ar condicionado. Mas na pandemia vi gente passando necessidade e outros que precisaram largar os estudos — contou Kauan. — Hoje em dia nem tem tanta gente que segue na agricultura, mas boa parte dos jovens trabalha na fábrica de sapato da cidade, ou no comércio local. Outros montam próprio negócio ou migram para Fortaleza, São Paulo ou Rio.

Além das dificuldades financeiras na pandemia, a evasão escolar no Ceará também se associa com acirramento recente da violência no estado, explica Marina Araújo, da coordenadoria do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) do Ceará, e membra da Campanha Nacional Pelo Direito à Educação.

— Um estudo da Unicef trouxe que em 2020 o estado do Ceará registrou mais de 135 mil crianças e adolescentes fora da escola, um aumento de 170% em relação a 2019, então já é um impacto da pandemia. E, ao mesmo tempo, tivemos crescimento de mortes de crianças e adolescentes. Foram 535 em 2020, o dobro do ano anterior, quando 70% das vítimas não estavam na escola há mais de seis meses. Então a escola é claramente um fator de proteção, mas a violência tem influenciado muito no abandono escolar — afirmou Araújo.

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