Favelas do Rio têm mais mortes do que 14 estados do Brasil

David Barbosa e Diego Amorim
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Faixa em frente à Clínica da Família da Avenida Itaoca, no alemão, pede à população que permaneça em casa

Até a última quinta-feira, 176 moradores de favelas do Rio haviam morrido de Covid-19, segundo dados reunidos pelo portal Voz das Comunidades. Em comparação com dados do Ministério da Saúde, o número de óbitos pela doença nas comunidades cariocas é maior que os registrados em 14 estados brasileiros. Ao todo, 13 favelas do Rio registraram mortes por Covid-19, e os piores cenários são na Rocinha, com 49, e no Complexo da Maré, com 23.

De acordo com o Censo de 2010, 369 mil pessoas moram nessas comunidades com óbitos pelo coronavírus. Dos 14 estados com menos mortes que as favelas cariocas, apenas três têm população inferior a um milhão de habitantes, segundo estimativa de 2019 feita pelo IBGE.

Para a técnica de enfermagem Amanda Silva, moradora da Vila Kennedy, na Zona Oeste, os números ganharam um significado ainda mais triste no dia 19 de abril, quando seu tio, Jorge Luis Silva, de 49 anos, morreu com Covid-19 no Hospital Albert Schweitzer, em Realengo. Mais conhecido na favela como Lula, Jorge trabalhava na Ceasa e, aos fins de semana, era a alegria das festas com seus serviços de churrasqueiro. Para Amanda, o tio era como um pai: foi quem ajudou a criá-la, chegando a levar a sobrinha para morar em sua própria casa durante cinco anos.

No almoço de Páscoa, Lula se queixou que não sentia o gosto da comida feito por sua mulher, com quem vivia há 30 anos. Na UPA, foi medicado, e voltou para casa. Depois de quatro dias, começou a sentir falta de ar e procurou novo atendimento. Morreu um dia após ser intubado, a duas semanas de seu aniversário de 50 anos, deixando dois filhos, de 22 e 10 anos.

— É muito difícil lidar com a perda. Ele foi o primeiro namorado da minha tia. Eles se conheceram quando ela ainda era adolescente. Outro dia, estávamos tomando café na casa deles e meu primo disse: “Poxa, só está faltando meu pai aqui”. A comunidade toda o conhecia — lamenta Amanda.

De acordo com a prefeitura, a Vila Kennedy tinha 21 casos confirmados de Covid-19 ontem. Mas desde o início da semana, a prefeitura não exibe os dados referentes aos óbitos nos bairros. Segundo o levantamento do Voz das Comunidades, a comunidade soma nove mortos pelo novo coronavírus.

No Alemão, cinco vezes mais casos

De acordo com o Voz das Comunidades, o número de casos de Covid-19 registrados no Complexo do Alemão é cinco vezes maior do que o contabilizado pela prefeitura. Até ontem, dados coletados pelo portal junto a clínicas da família apontam 35 casos da doença, com 14 óbitos. Já a prefeitura contabilizava só sete. Líderes comunitários e ativistas acreditam que vítimas de algumas comunidades estariam registradas como residentes de bairros vizinhos.

— Muitas pessoas estão com todos os sintomas e não foram testadas. O registro de óbitos cresceu muito, principalmente de mortes em casa. O número de casos é maior do que vem sendo divulgado, muitos não entram nas estatísiticas oficiais. A chance de alguém contrair a doença no Alemão e entrar como Bonsucesso ou Ramos, por exemplo, é muito grande — diz Renê Silva, fundador do portal.

Ele explica que o levantamento usa dados da prefeitura, do governo estadual e de várias unidades de saúde que atendem moradores dessas comunidades do Rio, como as clínicas da família do Alemão, do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo e da Rocinha, além do Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, em Manguinhos.

— Nós atualizamos os números com as unidades de saúde locais, que nos passam as confirmações. Esses dados vão todos para o aplicativo Voz das Comunidades, que surgiu para combater a desinformação sobre a Covid-19. É um projeto construído em parceria com o Consulado dos Estados Unidos, que tinha orçamento e buscava uma ferramenta assim — explica o líder comunitário.

Segundo o levantamento, são 650 confirmações de Covid-19 nas favelas do Rio. A ferramenta também contabiliza os recuperados, que chegam a 389 nas comunidades.

A situação também é grave na Rocinha, com 142 confirmações e 46 óbitos em decorrência do coronavírus. O mobilizador social William de Oliveira acredita que esse número pode triplicar nas próximas semanas.

— Temos uma relação de muitas mortes suspeitas de Covid-19, mas que não foram feitos exames, ficaram subnotificadas — afirma.