Favorito para ser melhor ator em Veneza, Toni Servillo pensa nos palcos: ‘Não vejo teatro como sala de espera do cinema’

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Ele é o rosto mais conhecido do atual cinema italiano, mas começou a carreira no teatro, ainda nos anos 1970, de onde, aliás, nunca saiu. Em décadas recentes, ganhou fama internacional dando voz e corpo a todo tipo de personagem, de intelectuais (“A grande beleza”, 2013) a políticos (“Loro”, 2018), passando por figuras mafiosas (“Gomorra”, 2008). Mas só agora, com “Qui rido io” (“Aqui rio eu”, em tradução livre), Toni Servillo teve a oportunidade de explorar, em filme, suas raízes teatrais.

No longa-metragem de Mario Martone, exibido na competição do Festival de Veneza, que se encerra hoje, ele encarna Eduardo Scarpetta (1853-1925), grande ator cômico do teatro napolitano da virada do século XX. Servillo está ainda em cartaz na mostra italiana em duas outras produções: “È stata la mano de Dio”, de Paolo Sorrentino, também em competição, e “Ariaferma”, de Leonardo di Costanzo, em sessão hors concours. Mas é como Scarpetta que ele surgiu como virtual ganhador da Copa Volpi de melhor interpretação masculina.

— “Qui rido io” é o filme que eu e Mario (Martone), com quem fundei o Teatri Uniti, nos anos 1980, queríamos fazer desde que nos conhecemos, há mais de 40 anos. Descreve um momento muito particular de Nápoles, nossa cidade natal, em que ela era reconhecida só como a capital da cultura da Itália, mas da Europa. E Scarpetta era tido como um herói da cidade naquele tempo — explica o veterano ator de 62 anos. — Mais do que o rei da bilheteria de sua época, Scarpetta foi um comediante que inspirava alegria e entusiasmo.

De origem humilde, Scarpetta fez fortuna no palco e constituiu uma família grande e muita peculiar, que se estendia a esposas ilegítimas e filhos nunca reconhecidos, como o célebre dramaturgo Eduardo De Filippo (1900-1984) — o título do filme de Martone remete à frase estampada à porta de entrada da vila do clã. Conheceu o declínio quando foi acusado de plágio pelo poeta e dramaturgo Gabriele D’Annunzio (1863-1938), em julgamento que é tido como o primeiro processo envolvendo direitos autorais na Itália.

— Vejo Scarpetta como um ator que celebrou a vida — diz Servillo, quatro vezes vencedor do Donatello, o maior prêmio do cinema italiano. — Ele era como um animal predador, com uma vontade ilimitada de viver, e que punha as mãos em tudo à sua volta, as mulheres, o teatro, as peças. Por isso mesmo, conheceu um pouco de tudo, o sucesso, o fracasso, a inveja. É como se ele fosse um prisma que absorve e reflete as diferentes luzes de uma vida inteira. Poder interpretar com o corpo alguém assim é fantástico.

A disputa judicial entre Scarpetta e D’Annunzio também ajuda a entender o ambiente artístico da Nápoles da Belle Époque. Ao acusar o ator de parodiar “La figlia de Iorio” (1904), uma de suas mais conhecidas tragédias, o dramaturgo estimulou o debate sobre os conceitos de alta e baixa cultura, confrontou o teatro popular com o teatro burguês produzidos à época, opôs comédia e drama, além de discutir os limites do humor, que pode ser transposto para os dias de hoje.

— Acho que a possibilidade de fazer piada de tudo também pode representar um perigo em termos educacionais — entende o ator, que estreou no cinema com “Morte de um matemático napolitano” (1992), drama dirigido por Martone. — Dizem também que, teoricamente, a gente pode rir de tudo, mas não acho correto. Porque existem áreas da vida em que isso torna-se problemático, então devemos aceitar a ideia de conviver com alguns limites.

Nápoles também é o cenário de “È stata la mano de Dio”, de Sorrentino, drama de inspiração autobiográfica do autor de “A grande beleza”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. Aqui, Servillo interpreta o pai do jovem protagonista, um rapaz que terá seu destino moldado por uma tragédia em família e pela passagem do jogador Diego Maradona pela cidade, nos anos 1980. Servillo e Sorrentino trabalham juntos desde “L’umo in più” (2001), primeiro longa do premiado diretor.

Já “Ariaferma” se passa em um presídio de uma região isolada da Sardenha, que está sendo desativada. Aqui, Servillo interpreta Gaetano, um dos guardas da instalação, que espera, junto com poucos presos que ainda restam, o momento de serem transferidos para outra instituição. Enquanto aguardam a transferência, que parece nunca vir, começam a construir novas regras de convívio interno.

— Gaetano é um funcionário do Estado que acredita em gestos que possam evitar que a violência fora da prisão se repita dentro. Ele carrega um conflito muito forte entre o exercício da responsabilidade e a compaixão — descreve o ator, que não vê a hora de voltar ao palco. — Não sou desses atores que veem o teatro como uma sala de espera do cinema. Assim que a pandemia permitir, voltarei ao teatro.

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