Fazenda Três Marias, no Sana (RJ), vira reduto de famosos que querem desconectar da vida na cidade

Roberta Malta
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A noite é de lua cheia. Sobre a grama, cadeiras de praia e espreguiçadeiras estão posicionadas em frente à grande tela imaginária na parede lateral de uma das casas. Tem vinho, cerveja, drinques com kombucha da casa, pipoca. Quem apresenta a sessão são as crianças, que divertem-se recitando versinhos, tocando piano e improvisando outros números artísticos. Pouco antes de começar o filme, a atriz Dira Paes assume o comando e faz as honras da casa. Não, você não está em nenhum festival de cinema internacional. Mas na Fazenda Três Marias, espaço de aluguel de casas no Sana, na Serra da Macaé, a duas horinhas do Rio.

O desejo de transformar em hospedaria a propriedade que está desde a década de 1960 na família da diretora de arte Lou Bittencourt é antigo, mas ganhou o empurrãozinho que faltava durante este período de pandemia. “A coisa aconteceu meio que naturalmente. Um amigo indicou para outro, que chamou mais um... Quando me dei conta, já tinha quase uma nova família”, conta Lou. Entre as casas alugadas, algumas estão ocupadas pelo mesmo grupo há mais de seis meses.

A interação tem sido tão profunda — e o lugar, tão inspirador — que os inquilinos fixos, antes completamente desconhecidos uns dos outros, uniram talentos e montaram a exposição “Quarentenados Três Marias”. Instalada no curral desativado, entre estruturas de madeira vazadas e picos de vegetação selvagem, a mostra retrata as famílias que escolheram o local para viver durante este período de isolamento social.

São fotos do craque Peter Wery, diretor de fotografia holandês que tem na bagagem dois prêmios Emmy e um Bafta, e pinturas em tábuas garimpadas por ali assinadas pelo designer Emilio Rangel, sócio da 6D Estúdio. Tudo emoldurado por cordões de lâmpadas e preso em fios de náilon.

Fazem parte também do grupo outros quarentenados que não se mudaram oficialmente, mas estão sempre na área. É o caso de Dira. De junho para cá, a atriz já passou cinco temporadas por lá, com o marido, o diretor de fotografia Pablo Baião, e os dois filhos, Inácio e Martin, de 12 e 5 anos. Dira achou o lugar tão encantador que filmou “Pasárgada”, seu primeiro filme como diretora e autora, na fazenda. No longa, ela divide o protagonismo com Humberto Carrão, que voltou para o réveillon com a namorada, a também atriz Chandelly Braz. Dira precisou bem pouco para se apaixonar. “A Fazenda Três Marias é aquele lugar que abraça, acolhe, nina você”, diz. “Fica em uma região belíssima do Rio e tem uma estrutura de acolhimento, que traz você ao encontro de si mesmo. Tem amor naquele ar”, completa. A fala em tom poético faz parte da transformação que acontece com dez entre dez hóspedes. “Numa pandemia, trocar um apartamento fechado, com duas crianças, por uma fazenda, com muito verde e natureza plena, por si só já seria recompensador. Agora, viver essa experiência na Três Marias triplicou o prazer”, conta o ator Bruno Mazzeo. A identificação com o espaço foi tanta que ele adiou sua volta à cidade o quanto pôde. “Quando partimos, já queríamos voltar.”

Dividido entre cinco casas de dois ou três quartos, com cozinha, sala e banheiro, o terreno da Três Marias tem rio, cachoeiras e uma piscina de pedra de tirar o fôlego, distribuídos entre os 100 alqueires de área. Com altitudes que variam entre 300 e 500 metros, a região tem clima ameno durante o ano todo e temperaturas que, mesmo no verão, dificilmente ultrapassam os 24ºC. Completamente em sintonia com o entorno, as acomodações têm décor rústico assinado pela própria Lou. Dependendo da escolha, o imóvel pode vir com ofurô, chuveiro externo e varanda.

Apesar de não ter serviço de hotelaria, volta e meia, a cozinha é invadida por chefs que oferecem sua gastronomia aos hóspedes, em uma grande mesa coletiva de frente ao fogão a lenha da casa-sede. Já passaram por lá nomes como Emerson Pedrosa (ex-Kalango) e Tati Lundi (.Org Bistrô). Habitué da fazenda, Ricardo Lapeyre recentemente testou cerca de 90% dos pratos que vai servir em seu Escama, restaurante com inauguração prevista para este mês, no Rio, com a turma que estava por lá na ocasião. “Passei 60 dias isolado lá, mergulhado nesse cardápio”, diz. Durante esse período, descia a serra de dez em dez dias para comprar peixes e outros insumos, e voltava imediatamente. “A calma daquele lugar me ajudou muito em meu processo de criação”, conta ele, que convidou ainda seu subchefe, Hugo Devaux, para trabalhar junto na cozinha com janela para o verde e ao lado de uma nascente. Isso sem falar nos legumes e verduras que pegava na horta para experimentar nas receitas. As frutas são colidas do pé. Gostou tanto que incluiu no menu da casa nova um purê de banana batizado com o nome da fazenda. “Vai ser feito só com bananas de lá”, conta.

Quem quiser tirar uns dias no mais absoluto sossego, interrompido apenas por mugidos, cacarejos e outros sons que, diriam os mais urbanos, parecem tirados de aplicativos de meditação, no entanto, precisa de indicação. A Fazenda Três Marias só hospeda amigos de amigos. Se você ainda não é um deles, porém, não precisa desistir. Nessa turma, o difícil é haver desentendimento. Ficar amigo do pessoal é moleza.