'Fazer a mulher ficar bêbada era o coração das comédias', diz diretora indicada ao Oscar

Ana Maria Bahiana
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Pela primeira vez na história do Oscar, duas mulheres estão indicadas à disputada categoria de melhor direção: a britânica Emerald Fennell, por “Bela vingança”, que ainda recebeu indicações para melhor roteiro (também de Fennell), melhor montagem, melhor atriz (para Carey Mulligan), e melhor filme; e a chinesa residente nos Estados Unidos Chloé Zhao, por “Nomadland”, concorrendo igualmente para melhor roteiro adaptado e melhor montagem (também para Zhao), além de melhor fotografia, melhor atriz (para Frances McDormand) e melhor filme.

Fennell, de 34 anos, começou como atriz (“Anna Karenina”, “A garota dinamarquesa”, “The Crown”) e rapidamente fez carreira como roteirista (“Killing Eve”). “Bela vingança” é seu primeiro filme como realizadora. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, ela conta que "quis abordar a cultura da sedução com ironia pesada".

De onde veio a inspiração para “Bela vingança”?

Como uma mulher crescendo nos anos 90, tudo o que abordo no filme era tido como normal e permitido. Nos filmes de Hollywood e nas séries de TV, isso era visto como uma comédia: fazer a mulher ficar bêbada numa festa, num bar, fazer com que ela fique “à vontade” (ela faz o sinal de aspas), para depois ela acordar sem saber onde estava e o que aconteceu, e fazer a “caminhada da vergonha” de volta para casa. Isso era o coração das comédias. Era para fazer as pessoas na plateia rirem, como se fosse a coisa mais normal. É sinistro e insidioso, porque pessoas que se consideram boas acham que nada disso é ruim, que os corpos das mulheres estão aí para isso mesmo. Me interesso por esse processo, essa questão, os modos como a sociedade normaliza esse tipo de coisa.

Seu filme deu esse recado integralmente, como você queria?

Eu queria que meu filme fosse verdadeiro para mim,e honesto no modo como ele confronta o trauma que vem da cultura na qual eu cresci. Eu quis abordar a chamada cultura da “sedução” (faz o sinal de aspas) com uma ironia pesada. Algo extremamente violento e cruel que é levado como uma brincadeira, e quis que pessoas que se acham boas e corretas pudessem considerar os danos profundos que isso traz.

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