FBI admite erro sobre acusado de ataque na Flórida; EUA vão rever protocolo

Por Bernie Woodall e Zachary Fagenson
Nikolas Cruz durante audiência em Fort Lauderdale 15/2/2018 REUTERS/Susan Stocker/Divulgação

Por Bernie Woodall e Zachary Fagenson

PARKLAND, Estados Unidos (Reuters) - O FBI reconheceu nesta sexta-feira que lidou de forma incorreta com uma denúncia em janeiro de que o rapaz de 19 anos acusado de matar 17 pessoas em uma escola na Flórida possuía armas e o desejo de matar, o que levou o Departamento de Justiça a determinar uma revisão sobre a resposta a alertas de violência.

Uma pessoa próxima do acusado pelo ataque, Nikolas Cruz, ligou para o FBI em um disque-denúncia em 5 de janeiro para alertar que ele possuía armas, havia feito publicações perturbadoras nas redes sociais e possuía o potencial para realizar um ataque a tiros contra uma escola, mas os protocolos do FBI não foram seguidos, informou o FBI em comunicado.

A denúncia aparenta não ser relacionada ao comentário no YouTube relatado anteriormente, no qual uma pessoa que se identificava como Nikolas Cruz disse “Eu vou ser um atirador profissional de escola”. O FBI reconheceu que recebeu esta denúncia, mas falhou em relacioná-la ao atirador acusado.

    “Sob protocolos estabelecidos, a informação fornecida pela pessoa que ligou deveria ter sido avaliada como uma possível ameaça à vida”, informou o FBI em comunicado nesta sexta-feira. “A informação então deveria ter sido encaminhada ao escritório do FBI na área de Miami, onde etapas investigativas apropriadas seriam tomadas. Nós determinamos que estes protocolos não foram seguidos.”

O secretário de Justiça dos EUA, Jeff Sessions, anunciou nesta sexta que ordenou uma revisão imediata de como o Departamento de Justiça e o FBI respondem a alertas sobre potenciais violências.

"Isso inclui mais do que apenas uma revisão de erro, mas também uma revisão de como respondemos", disse Sessions em um comunicado. "Isso incluirá possíveis consultas com membros da família, autoridades de saúde mental, funcionários escolares e autoridades policiais locais."

O segundo ataque a tiros mais mortal em uma escola pública na história dos Estados Unidos também levantou preocupações sobre possíveis falhas na segurança de escolas e agitou um debate em andamento nos EUA sobre direitos de armas, que são protegidos pela Segunda Emenda da Constituição dos EUA.

    "Nós ainda estamos investigando os fatos”, disse o diretor do FBI, Christopher Wray, em comunicado. “Nós conversamos com vítimas e familiares, e lamentamos profundamente a dor que isto causa para todos os afetados por esta tragédia horrível”.

    O governador da Flórida, Rick Scott, disse que o diretor do FBI deveria pedir demissão. "O fracasso do FBI em agir contra este assassino é inaceitável", afirmou Scott em um comunicado.

Líderes, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ligaram doenças mentais à violência de quarta-feira, sugerindo que era responsabilidade pública alertar autoridades de tais perigos.

    “Tantos sinais que o atirador da Flórida era mentalmente perturbado, até mesmo expulso da escola por comportamento ruim e instável”, tuitou Trump na quinta-feira. “Vizinhos e colegas de classe sabiam que ele era um grande problema. É preciso sempre relatar tais instâncias a autoridades, de novo e de novo!”.

    Cruz, que havia sido expulso da escola onde protagonizou seu ataque por razões disciplinares não informadas, fez uma pequena aparição em tribunal na quinta-feira e recebeu ordem para ser detido sem fiança.

    “Ele é um ser humano fragmentado”, disse sua advogada, a defensora pública Melissa McNeill, a repórteres. “Ele está triste, ele está em luto, ele está arrependido”.

    O ataque de quarta-feira é a maior perda de vidas em uma violência com armas em uma escola desde o ataque em 2012 na escola Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, que deixou 20 alunos e seis educadores mortos.

Notícias sobre a forma com que o FBI lidou com a denúncia no mês passado sobre Cruz acontecem conforme famílias das 17 vítimas começam a enterrar os mortos. Os dois primeiros funerais foram de Alyssa Alhadeff, de 14 anos, e Meadow Pollack, uma veterana de 18 anos que iria para a Universidade Lynn, em Boca Raton, na Flórida.

    Brian Gately, um amigo da família Alhadeff, disse ter ido ao funeral de Alyssa e que a sinagoga estava tão cheia que teve que ficar no fundo.

    “Havia realmente muita tristeza lá”, disse Gately, um assessor financeiro de 51 anos que mora em Parkland. O sepultamento foi mais emotivo, ele acrescentou, dizendo que “pessoas estavam gritando ‘não, não’. Crianças estavam gritando ‘não, não’”.

(Reportagem adicional de Brendan O'Brien, em Milwaukee, e Mark Hosenball, Steve Holland e Roberta Rampton, em Washington)