Fechamento do Espaço Net Rio é mais uma cena do contínuo desaparecimento dos cinemas de rua do Rio; confira a lista

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Sede do Espaço Net Rio, o imóvel situado na Rua Voluntários da Pátria 35, que há 77 anos não tem nenhum outro uso a não ser o de exibir filmes cinematográficos e agora pode ganhar uma nova finalidade, não está sozinho. Estudos apontam que, nos anos 1950, o total de cinemas de rua — salas de exibição cinematográfica localizadas em calçadas de vias públicas — eram aproximadamente 170 na cidade. Hoje, no entanto, o Rio tem apenas sete cines.

Um reflexo dos tempos que varreram os cinemas de rua da cidade do Rio, antes abundante na oferta de estabelecimentos dedicados apenas a projetar os longas recém-lançados, sem o apelo das lojas de roupa e das praças de alimentação que cercam as salas de cinema dos shoppings, hoje maioria entre os espaços de exibição cinematográfica do município.

Desde meados do século passado, o número de cines na cidade caiu ano após ano, e de maneira mais acentuada durante a pandemia, quando, segundo o Sindicato de Exibidores do Estado do Rio, o município perdeu pelo menos oito cinemas de rua, dos quais quatro definitivamente, e o restante ainda sem previsão de reabertura.

Um deles foi o Cine Roxy, em Copacabana, um dos mais tradicionais do Rio. Administrado pelo Grupo Severiano Ribeiro, da rede Kinoplex, ele foi fechado definitivamente em junho deste ano, depois de ter sido incluído pela prefeitura no Cadastro de Negócios Tradicionais e Notáveis da cidade — o que permite que a instalação troque de dono, mas não de ramo. O Grupo Severiano Ribeiro argumentou que o Roxy já estava se tornando financeiramente insustentável, mas ainda não esclareceu qual será o destino do prédio do cine, que tem algumas de suas características arquitetônicas tombadas pelo patrimônio histórico da cidade desde 2003.

Um desfecho semelhante se desenha para o Estação Net Rio, um dos remanescentes do circuito de exibição de Botafogo. Com seus três cines, o bairro resiste como o último esteio dos cinemas de rua da cidade — que no século passado tiveram presença forte em diferentes regiões da cidade, inclusive no subúrbio.

Se a situação dos cines é complicada no Brasil e no mundo, cada vez mais habituado a consumir o cinema pelas plataformas de streaming, ela é ainda mais difícil para os cinemas de rua cariocas. Diferentemente dos cines de São Paulo, geridos em grande parte pelos próprios donos dos imóveis onde eles estão situados, os cinemas de rua do Rio de Janeiro, sobretudo os mais famosos, ficam em prédios alugados, o que eleva o custo do negócio.

É o caso do Espaço Net Rio, cujo possível fechamento, noticiado pelo GLOBO, poria fim a um longo imbróglio entre a empresa exibidora, o Grupo Estação, e a dona do espaço, o Grupo Severiano Ribeiro, sobre o preço do aluguel do imóvel — um desentendimento que se agravou durante a pandemia. O fechamento do Espaço Net Rio poderia encerrar inclusive a trajetória do próprio Grupo Estação, segundo sua diretora-executiva, Adriana Rattes.

— Nossas projeções sugerem um cenário muito difícil. Em 2019, 35% da receita do Grupo Estação veio do Espaço Net Rio. Podemos inclusive perder o patrocínio, porque aquele espaço é muito emblemático para a Net/Claro — diz Rattes, que luta na Justiça para evitar o despejo do Grupo Estação.

Uma mobilização em defesa do Espaço Net Rio se formou nos últimos dias. Nesta sexta-feira, apoiadores do grupo se reunirão num "abraçaço" ao cinema. A Prefeitura do Rio disse nesta quinta-feira que analisa a situação para ver se é possível alguma ação de proteção ao negócio.

Na contramão do Espaço Net Rio, sete cines tradicionais ainda permanecem, apesar das dificuldades. São eles: o Odeon, no Centro; o Cine Leblon, fechado temporariamente para obras; o Cine Santa Teresa; o Cine Nova Brasília, no Complexo do Alemão; e os três de Botafogo: Espaço Itaú, Estação Net Rio e Estação Rio.

O levantamento é do pesquisador Wilson Oliveira Filho, que estuda a história e a extinção dos cinemas de rua da cidade do Rio com sua mulher, a pesquisadora Márcia Bessa, há 15 anos. Ele destaca que a importância dos cines não se limita às salas de exibição, mas se estende a todas as atividades que se desenvolvem no entorno (e por causa) deles.

— Quando se vai ao cinema no shopping, o objetivo não é ver um filme, mas ir ao shopping. Isso não é o hábito cinema, como dizemos entre pesquisadores. Existem comunidades inteiras de adeptos que se formaram em torno dos cinemas de rua. Pessoas que combinam de ver um mesmo filme e se reúnem num bar próximo para discuti-lo, o que, no caso do Espaço Net Rio, pode impactar o perfil daquela região de Botafogo, que tem cinemas de rua e bares — pontua.

* estagiário sob supervisão de Leila Youssef

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