Fed torna a elevar juro e diz que não cederá em batalha contra inflação

Por Howard Schneider e Ann Saphir

WASHINGTON (Reuters) - O Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) elevou sua taxa básica de juros de um dia em 0,75 ponto percentual nesta quarta-feira, em um esforço para pôr fim ao mais intenso surto de inflação desde a década de 1980, e o chair Jerome Powell disse que outro aumento "excepcionalmente grande" pode ser apropriado em sua próxima reunião em setembro se as pressões sobre os preços não tiverem diminuído suficientemente.

"A inflação continua elevada, refletindo desequilíbrios de oferta e demanda relacionados à pandemia, preços mais altos de alimentos e energia e pressões mais amplas de preços", disse o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), que, de forma unânime, colocou os juros em uma faixa entre 2,25% e 2,50%.

O Fomc acrescentou que continua "altamente atento" aos riscos de inflação, ponto que Powell enfatizou em comentários feitos em coletiva de imprensa após a reunião, considerando "essencial" reduzir a inflação.

Autoridades do Fed estão "extremamente cientes" das dificuldades que a inflação impõe às famílias norte-americanas, particularmente para aquelas com recursos limitados, disse Powell, e não vão ceder em seus esforços até que sejam apresentadas "evidências convincentes" de que os custos estão caindo.

A inflação acelerou neste ano para os maiores níveis em quatro décadas e, quando medida pelo indicador preferido do Fed, está em mais de três vezes a meta de 2% do banco central.

"Restaurar a estabilidade de preços é apenas algo que temos de fazer", disse Powell. "Não há uma opção para deixar de fazer isso."

Embora a geração de empregos tenha permanecido "robusta", as autoridades observaram no comunicado de política monetária que "os indicadores recentes de gastos e produção suavizaram", um aceno para o fato de que os aumentos agressivos de juros implementados desde março estão começando a pesar.

Ainda assim, Powell insistiu que a economia ostenta força subjacente.

"Não acho que os EUA estejam atualmente em recessão", disse ele, citando o desemprego ainda próximo de uma mínima em cerca de meio século, sólido crescimento salarial e abertura de postos de trabalho. "Não faz sentido que os EUA estejam em recessão."

Ainda assim, reduzir a inflação para a meta "provavelmente envolverá um período de crescimento econômico abaixo da tendência e algum abrandamento das condições do mercado de trabalho, mas esses resultados são provavelmente necessários para restaurar a estabilidade de preços e preparar o cenário para alcançar pleno emprego e estabilidade preços a longo prazo".

A DEPENDER DOS DADOS

Vindo de um aumento de 75 pontos-base no mês passado e movimentos menores em maio e março, o Fed elevou sua taxa básica em um total de 225 pontos-base neste ano, enquanto luta contra uma inflação digna de década de 1980 com uma política monetária à la década de 1980.

A taxa de juros está agora no nível que a maioria das autoridades do Fed considera ter impacto econômico neutro, marcando na prática o fim dos esforços da era da pandemia para incentivar gastos de famílias e empresas com dinheiro barato.

A taxa também corresponde ao ponto alto do ciclo de aperto anterior do banco central --ocorrido do fim de 2015 ao fim de 2018--, nível alcançado desta vez no período de apenas quatro meses.

O comunicado de política monetária deu pouca orientação explícita sobre quais passos o Fed pode tomar a seguir, decisão que dependerá muito se os próximos dados mostrarem que a inflação está começando a desacelerar.

Com os indicadores mais recentes mostrando os preços ao consumidor em alta superior a 9% em taxa anual, investidores esperam que o banco central dos EUA eleve a taxa básica de juros em pelo menos 0,50 ponto percentual em sua próxima reunião, de 20 a 21 de setembro.

"Embora outro aumento excepcionalmente grande possa ser apropriado em nossa próxima reunião, essa é uma decisão que dependerá dos dados que obtivermos até lá", disse Powell. "Continuaremos a tomar nossas decisões reunião por reunião e comunicaremos nosso pensamento da forma mais clara possível".

Os mercados futuros voltaram a apostas um pouco mais moderadas para aumento de juros na próxima reunião, conforme Powell falava.

"A partir daqui, é possível que o Fed diminua seu ritmo de aperto, tranquilizado pelo provável pico da inflação e pela retração das expectativas de inflação à medida que os preços do petróleo caíram", disse em nota Seema Shah, estrategista-chefe global da Principal Global Investors.

"No entanto, com o mercado de trabalho ainda pintando um quadro de força, o crescimento salarial ainda desconfortavelmente alto e o núcleo da inflação caindo em um ritmo de movimento de geleira de tão lento, o Fed certamente não pode parar de apertar (a política monetária), nem pode reduzir demais as marchas."

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