Federação aponta alternativa para ranitidina, remédio de úlcera gástrica que foi recolhido

Rafael Garcia

SÃO PAULO - A retirada de mercado da ranitidina não deve afetar o tratamento de pacientes de úlcera gástrica que utilizam o medicamento, afirmou hoje a Federação Brasileira de Gastroenterologia.

Segundo o médico Décio Chinzon, presidente da entidade, "não há motivo para alarmismo", mas clínicos podem substituir a droga por uma outra classe de fármacos com o mesmo fim. Chamados de "inibidores de bomba de prótons", esses medicamentos têm o omeprazol como produto mais conhecido, e têm o mesmo efeito de controlar a acidez do trato gastrointestinal.

A ranitidina começou a ser recolhida ontem pelos laboratórios Medley e Aché por suspeita de contaminação com uma substância que tem efeito cancerígeno no longo prazo, a N-nitrosodimetilamina (NDMA).

Como a ingestão da substância na dosagem encontrada não provoca efeito agudo, a Anvisa, que determinou o recolhimento de vários lotes da produção da droga, afirmou que quem já está em tratamento não deve interromper.

Para Chinzon, interromper o tratamento com a ranitidina sem acompanhamento médico não é recomendável, porque o risco apresentado pelas doenças gástricas é mais premente. Em sendo possível, porém, o ideal seria que clínicos maximizem a cautela, afirma.

— O melhor seria efetivamente o indivíduo suspender a ranitidina e trocar por outro remédio, até que esses novos lotes se normalizem.

Segundo o médico, a ranitidina é muito receitada porque a cultura médica que se formou em torno dela é muito forte, mas os medicamentos da classe do omeprazol têm sido receitados por uma boa parte dos clínicos, apresentado resultados até melhores.

— A ranitidina é um medicamento antigo e tradicional, foi introduzido na década de 1970 e ainda é muito usado. Tem distribuição gratuita pelo SUS e existe também em farmácias — conta o médico. — É muito receitado para processos inflamatórios, como gastrite, esofagite e úlcera, e foi revolucionário quando lançaram, porque na época muitos pacientes ainda acabavam indo parar na cirurgia por causa de úlcera. Ele oferecia um tratamento clínico.

Com o tempo, porém, os medicamentos inibidores de bombas de prótons, criados na década de 1980, passaram a conquistar uma fatia de mercado da ranitidina, porque em geral tinham efeito mais potente e duradouro, e também costumam ter preço acessível

Chinzon afirma que o incidente com a Medley e o Aché, que possivelmente importaram insumos contaminados da indústria fármaco-química indiana, deve causar uma migração temporária do receituário médico para a classe do omeprazol.

— Pode ocorrer uma segunda onda, com os indivíduos que preferem usar a ranitidina migrando agora para os inibidores de bomba de prótons. Mas depois que normalizar o fornecimento pode ser que eles retornem. É difícil prever — afirma.