Feira investe em gadgets infantis em meio ao temor do vício em tecnologia

Por Julie CHARPENTRAT
Firma francesa Kolibree apresenta no salão CES escova de dentes de realidade aumentada para crianças, em 11 de janeiro de 2018 em Las Vegas

Tablets, escovas de dentes de realidade aumentada, jogos educativos: os artigos para crianças tomam os corredores do salão eletrônico de Las Vegas, apesar das preocupações com os riscos de vício à tecnologia.

No CES, os mais jovens têm sua própria seção com produtos que, segundo os organizadores, são destinados a "permitir que as crianças do século XXI aprendam e joguem de forma mais inteligente".

Com seus tablets, a startup chinesa Dragon Touch mira nas crianças de "3 a 6 anos", explica o CEO Lei Guo. Com um desenho colorido, um lápis touch lúdico e aplicativos educativos, o dispositivo também tem uma interface para controle parental.

"Os pais podem limitar o tempo que seus filhos passam no tablet, por exemplo, 30 minutos por dia", disse o jovem empresário, que assegura que essa "é a preocupação número um dos pais".

"Não quero que meus filhos passem muito tempo na Internet, mas se proíbo o tablet eles choram, e não quero partir o coração deles", acrescentou, rindo.

Os fabricantes em geral têm um discurso muito bem amarrado. Sobram estudos sobre possíveis problemas do vício das crianças em redes sociais, tablets e smartphones, alertando sobre os riscos de que sofram ansiedade, depressão, obesidade, ou distúrbios do sono.

O debate ressurgiu no começo dessa semana com a carta de dois grandes acionistas da Apple, preocupados com os efeitos sobre a saúde mental do uso excessivo do iPhone, pedindo ao grupo um estudo sobre o vício dos mais jovens em seus smartphones.

- Exposição benéfica -

Em resposta, a Apple afirmou que sempre esteve "atenta às crianças" e que "tem trabalhado duro para criar produtos (...) que entretenham e eduquem as crianças enquanto ajudam os pais a protegê-las on-line" através de ferramentas de controle parental, entre outras.

A diretora de marketing da startup americana Pai Technology, Amy Braun, é pragmática frente a esses temores: "A tecnologia está aqui por enquanto e é importante expor nossos filhos à tecnologia, mas de maneira benéfica".

Com os "Pai Storybooks", por exemplo, um aplicativo permite transformar livros de contos infantis em universo de realidade virtual na tela de um tablet. "Trata-se de transformar o tempo que se passa em uma tela em tempo de leitura" por meio da tecnologia, diz.

"A pergunta não é 'tela ou não tela'", acrescenta.

Nos Estados Unidos, "41% das famílias tinham um dispositivo móvel em casa em 2011" frente a "95% atual", segundo a organização especializada Common Sense Media.

Com a Magik, a colorida escova de dentes para crianças de entre 6 e 12 anos da francesa Kolibree, a criança se vê na tela do smartphone enquanto escova os dentes.

"Graças à análise de imagens, o aplicativo detecta os movimentos de escovação", explica sua criadora Léonie Williamson.

A escovação se transforma em um jogo que utiliza a realidade aumentada: para ganhar pontos, a criança deve eliminar pequenos monstros na imagem e, à medida que faz isso, prova que está usando a escova corretamente.

A pergunta é se isso não leva as crianças a passarem ainda mais tempo em frente às telas.

"É preciso encontrar um equilíbrio", disse Ahren Hoffmann, chefe de "educação" da American Specialty Toy Retailing Association, uma associação de lojas de brinquedos independentes.

É importante "que as crianças saiam para se divertir, brinquem com os brinquedos tradicionais, jogos de tabuleiro, mas que também usem seus tablets e seus jogos tecnológicos, aprendam a administrar os códigos (de informática) e todas essas coisas que estão ao nosso redor hoje em dia", estima.