Feiras livres do Rio a cada 15 dias: especialista dá dicas para feirantes e fregueses se protegerem do coronavírus

Leticia Lopes e Rafael Nascimento de Souza
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Movimentação na feira da rua Moraes e Silva, na Tijuca, Zona Norte do Rio, quinta-feira (19)

RIO — Com o crescimento dos casos do novo coronavírus na cidade do Rio, o prefeito Marcelo Crivella anunciou novas medidas para evitar a propagação do vírus. Entre as ações, estão o fechamento de quiosques da orla, boates e casas noturnas. As 162 feiras livres que acontecem em diversos pontos da cidade, no entanto, vão mudar os dias de funcionamento, passando a acontecer a cada 15 dias.

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De acordo com o prefeito, até esta quinta-feira (19), já são 55 casos confirmados de Covid-19 na capital fluminense. Ao todo, a cidade do Rio tem 185 casos suspeitos e 103 casos descartados.

O médico Paulo Santos, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), alerta para o fato de que, diferentemente dos supermercados, as feiras livres têm a vantagem de acontecerem em locais abertos, mas o cuidado de feirantes e clientes com a higiene também deve ser reforçado assim como em outros locais e durante todo o tempo.

—O cuidado tem que ser o mesmo de todo mundo: evitar tocar olhos, nariz e boca, porque estamos sempre manipulando objetos que outras pessoas mexem, como a maçaneta do banheiro, as teclas do caixa eletrônico etc. Sempre lavar as mãos com frequência, não mexer no rosto, e usar álcool em gel, se ele estiver disponível.

Mudar horários e ampliar duração

O médico lembra que, além da atenção reforçada na limpeza das mãos, as aglomerações numa feira livre devem ser evitadas. Ele acredita que uma saída seria que a duração fosse estendida, garantindo assim que os clientes pudessem comprar seus alimentos de maneira menos concentrada e em horários alternativos.

— Às vezes, as pessoas vão sempre num mesmo período do dia. Então, tentar ir num horário diferente, com menos movimento, é uma opção. A ampliação do tempo da feira, que normalmente acaba cedo, poderia acontecer — acredita o infectologista.

Idosos em casa

Quando a então epidemia de coronavírus atingiu 72.314 casos na China, o Centro de Controle de Doença (CDC) do país publicou um estudo mostrando que 2,4% dos pacientes acabaram morrendo. Quando considerados pacientes de 70 a 79 anos, a taxa de letalidade sobe para 8%, e entre os pacientes com mais de 80 anos, 14,8% dos casos resultaram em morte.

Lembrando do risco da doença para pessoas mais velhas, Santos alerta que é melhor que se evite que os idosos frequentem as feiras, ainda que sejam em locais abertos, e que apenas uma pessoa da família vá ao local comprar os alimentos, evitando assim uma exposição excessiva de todos os familiares.

— É interessante evitar que os idosos façam a feira. No lugar deles, é melhor nesse momento que os mais jovens frequentem esses locais. Sabemos que o risco é maior para quem é mais velho. Como nos mercados, também é mais interessante que apenas um membro da família vá comprar os itens necessários, sempre procurando horários de menor movimento.

Na feira da Rua Morais e Silva, na Tijuca, era possível ver muitos idosos comprando frutas e verduras na manhã desta quinta-feira (19) — mesmo com as orientações de não sair de casa, já que fazem parte do grupo de risco.

— Venho a feira há 50 anos e, mesmo com essa doença, não vou deixar de comprar as minhas frutas, verduras e legumes. Estou usando a máscara e passo o gel com frequência — diz a aposentada Liegê Coutinho, de 83 anos. — Quando chego em casa tiro a roupa usada aqui e tomo banho.

Terezinha Bento da Costa, de 81 anos, só não faz questão de ir à feira, como escolhe cada produto que vai levar para casa. A aposentada desobedece as ordens dos três filhos e bate pernas pela feira religiosamente toda semana. Nesta quinta não foi diferente. Saiu de casa acompanhada da cuidadora e passou de barraca em barraca olhando e escolhendo o que iria levar para casa.

— Vou a feira desde os meus 8 anos de idade. Agora, vou deixar de frequentar? Não. Venho e depois quando chego em casa me higienizo — diz dona Terezinha.

Quanto menos manipulação, melhor

Outra dica dada pelo infectologista é ter o máximo de objetividade possível ao escolher os alimentos, evitando manipulação desnecessária e possível contaminação.

— É importante tentar ser objetivo no que vai pegar e manipular pouco os seus produtos, e, claro, respeitar as recomendações de higiene em casa, antes do consumo — diz.

Quanto aos feirantes, Paulo Santos recomenda que se posicionem preferencialmente atrás da barraca, ou numa posição de distância do freguês "para evitar o contato íntimo respiratório".

— Mas para além do seu ambiente de trabalho, o feirante precisa se precaver como todos para evitar uma possível contaminação. Todos precisam se cuidar

Higienizar a maquinha de cartão? Boa ideia

O dinheiro sempre foi temido como um dos itens mais sujos do nosso dia a dia, mas a maquinha dos cartões de débito e crédito acaba recebendo pouca atenção. Com a pandemia do coronavírus, o equipamento presente nos mais diferentes estabelecimentos, inclusive nas barracas das feiras, e também nos táxis e carros de aplicativo, passaram a ser lembradas como um dos o objetos que mais passam de mão em mão por aí, e que podem ajudar na propagação do vírus (e de outros micro-organismos).

O infectologista Paulo Santos defende que estabelecimentos devem sempre pensar em rotinas de higienização para os equipamentos.

— O dinheiro pode estar contaminado? Sim, mas o cuidado deve ser o mesmo de sempre. Evitar tocar o rosto e higienizar as mãos com frequência. O pagamento com cartão deve receber a mesma preocupação, que deve se estender a todos os estabelecimentos. Ainda que o vendedor não toque no seu cartão, quando você mesmo o coloca na máquina, muitas pessoas digitam a senha, o que acaba contaminando o equipamento — explica.

Com COVID-19, feirantes já sentem mudanças

O vendedor Carlos André Ferreira, de 29 anos, diz que desde o anúncio da doença no estado viu o número de fregueses fugirem do local. Sem citar valores, o feirante conta já amargar um prejuízo de 50% com tudo o que comprou para vender neste mês, e se diz preocupado com o que vem pela frente.

— Se fecharem as feiras, como vou ter dinheiro? Emprego três funcionários e dependemos daqui para pagar as nossas contas. Infelizmente, estou apreensivo — conta o vendedor, enquanto chamava a clientela.

Já o um outro vendedor da feira da Rua Morais e Silva afirma que o novo coronavírus afetará e muito, principalmente, a economia informal.

— São poucas as pessoas que estão vindo a feira. Desde a semana passada, acredito que o movimento já deve ter caído 30%. A nossa preocupação é com as contas. Somos uma economia informal e dependemos isso.