Feito à mão: conheça profissionais que resistem ao tempo

Quem não é visto não é lembrado”. Ter esta frase como mantra é o segredo de Roberto Lima da Silva, de 54 anos, para se manter como artesão há 43 e há 16 no mesmo ponto, entre as ruas Lopes Quintas e Jardim Botânico, no bairro homônimo. É no meio da calçada mesmo que o profissional mostra toda a sua habilidade com empalhamento de cadeira e o que preciso for, como ele faz questão de frisar. Poltrona, sofá, cestos de junco, madeira, ferro, tudo ao gosto da freguesia. Com as grandes lojas e mais recentemente a popularização do e-commerce, esta e outras profissões, assim como alfaiate e ourives, antes muito comuns, são cada vez mais raras. Contudo, ainda contam com seus bravos e resistentes representantes na Zona Sul.

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Entre eles, destaque também para o português Fausto Marques, de 88 anos, que só na região trabalha como alfaiate há quase 70 anos ininterruptos. O ourives Horley Assis, mais conhecido como Tricolor, abre as portas da sua loja, a Vezinha Joias, há quatro décadas, na mesma galeria, localizada no número 329 da Rua Voluntários da Pátria, em Botafogo.

Silva, o empalhador de cadeiras, relata que nos tempos áureos da profissão era disputado por lojas e chegou a tirar um lucro de cinco salários mínimos mensais. Hoje, num mês razoável, ganha no máximo a metade disso. Ainda assim, considera-se bem-sucedido.

— Sou agradecido a Deus porque tenho tudo de que preciso. Muitos dos meus amigos, infelizmente, não conseguiram continuar. Também sou formado em elétrica; se apertar muito, tenho essa segunda opção. Mas gosto mesmo de estar aqui na rua, perto dos clientes, vivendo de artesanato. Muita gente passa, me vê trabalhando e aí lembra que tem uma cadeira em casa guardada — diz.

Silva, que aprendeu o ofício no orfanato onde foi criado, conta que, além de trabalhar na rua, sua vitrine, outro diferencial que o ajuda a resistir às crises é oferecer um serviço completo e de qualidade.

— Faço restauração e também crio do zero o que o cliente quiser, de qualquer material. Mas só trabalho com matéria-prima de qualidade. Ele pode achar um modelo sintético barato na internet, daqueles que são feitos para acabar logo e estimular o consumo, e eu explico que prefiro não fazer a comprometer o meu trabalho. Eu dou garantia do meu serviço, e em todo esse tempo nunca ninguém voltou para reclamar — garante.

Assim como Silva, foi aos 11 anos que Fausto Marques se iniciou na profissão que segue até hoje, 77 anos depois. A trajetória como alfaiate começou por necessidade, seguindo os passos de um tio, ainda em Portugal. Aos 19, já no Brasil, começou a fazer sucesso no ofício e não demorou muito para abrir seu próprio ateliê, na Gávea, o qual resistiu até a pandemia, quando fechou as portas.

Marques revela que a última década foi quase toda lutando para seguir com a loja, até que o isolamento social decretou o fim de vez do ateliê. Prestes a completar 89 anos, ele, porém, segue na ativa e sem pensar em aposentadoria. Montou uma pequena oficina em sua própria casa, na Rua João Afonso 60, no Humaitá. E ainda atende em domicílio.

— Precisei enxugar ao máximo o número de funcionários e as despesas. Costumava ter dez ternos encomendados num mês, atualmente tenho um. Hoje em dia, as pessoas querem facilidade, e mandar fazer uma roupa exige tempo e disponibilidade. Mas a qualidade de ter uma peça feita sob medida não se compara com os modelos já prontos de confecções. E ainda tem gente que valoriza isso — afirma.

Ao longo das quase sete décadas como alfaiate na Zona Sul, Fausto Marques recorda-se de ter atendido centenas de personalidades. E revela que a troca com os clientes é o que o motiva a não querer parar nunca.

— Passar um tempo com o outro, ouvir e contar histórias são coisas maravilhosas. Infelizmente, não vemos mais novos alfaiates. As pessoas não querem perder tempo — avalia.

Uniformizado, literalmente da cabeça aos pés, com as cores do Fluminense, o ourives Horley Assis viu a galeria e os arredores de onde está localizada a sua loja, em Botafogo, passarem por muitas transformações ao longo dos últimos 40 anos.

— Tudo muda, menos a minha roupa do Fluminense. Só blusa, tenho umas 40 — brinca Assis, cujo apelido é Tricolor.

Ele conta que viu sua clientela diminuir e que para manter o ponto aberto precisou se adaptar, abrindo o leque dos negócios e comercializando não só ouro, mas também prata e o que mais o cliente pedir.

— Antes, a procura era enorme. Mas ainda hoje eu tenho uma fila de serviços. Até porque também diminuiu o número de profissionais que fazem esse trabalho de acordo com o gosto do cliente, e eu tenho muitos que são fiéis e que passam para outras gerações esse hábito de mandar fazer um anel de ouro, por exemplo — pondera Assis.