Feitos e superação entusiasmam professora vegana na paraescalada por Paralimpíada

Marina Dias durante etapa da Copa do Mundo de paraescalada em 2022 (Foto: IFSC)
Marina Dias durante etapa da Copa do Mundo de paraescalada em 2022 (Foto: IFSC)

No início do ano, a escalada, o surfe e o skate foram incluídos para a disputa dos Jogos Olímpicos de 2028 em Los Angeles. No entanto, a paraescalada ainda não consta do programa de esporte paraolímpico. O cenário está aos poucos mudando graças à movimentação de entidades e comitês. Isto pôde ser constatado ano passado na cidade californiana que receberá os Jogos daqui a seis anos: aconteceu nova edição da Copa do Mundo da modalidade. Algo comemorado pelo IFSC (Federação Internacional de Escalada Esportiva). Mario Scolaris, presidente da entidade, afirmou: "A confirmação do evento em Los Angeles é cereja no bolo de incrível temporada da paraescalada”. A cidade também já sediou os Jogos Pan-americanos em 2020. E Mundiais acontecem regularmente a cada dois anos, caso de Moscou ano passado.

Neste contexto se insere uma histórica participação de uma paratleta nacional. A professora paulista de Taubaté Marina Dias, de 39 anos. Conquistou feito inédito: a medalha de ouro na segunda edição da Copa do Mundo disputada em maio na cidade de Salt Lake City (Utah, nos EUA). Ela leciona no Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus São José dos Campos. Foi a única mulher latino-americana na prova. Superou forte concorrência de holandesa e alemã.

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É a primeira brasileira com este resultado excepcional. Após ser bicampeã nacional (2020-2021), viu sua chance de estar na disputa também graças à obtenção de parte dos recursos que custearam as despesas de viagem através do Programa de Amparo ao Desporto Amador de Taubaté (FADAT). O fato ganhou notoriedade tendo em vista que o resultado deste porte supera o obtido em 2012 (medalha de prata) com Raphael Nishimura (atual presidente do ABEE - Associação Brasileira de Escalada Esportiva). Aliás, a entidade apoiou Marina fazendo inscrição e licença da atleta. A Copa teve 90 competidores, 19 países em 13 classes esportivas no ginásio The Front. Já em Innsbruck (Áustria) garantiu em junho bronze em nova etapa da Copa do Mundo.

Coordenadora, doutora, Marina tem rotina de trabalho de workaholic: dá aulas de engenharia, sustentabilidade e de quebra é pesquisadora na área de biocombustíveis. Ela foi diagnosticada com esclerose múltipla em 2009. Tem comprometimento no lado esquerdo do corpo (braço e perna). Foi escolhida pela ABEEE para disputa da categoria RP3 (atletas com comprometimento leve da força ou alcance em pelo menos um dos membros, A doença neurológica é crônica, autoimune e as células de defesa do organismo atacam o próprio sistema nervoso central, provocando lesões cerebrais e medulares).

Antes de se dedicar à paraescalada, Dias praticou por cinco anos outro esporte. Matinha o Grupo de Corridas (ICT) com estudantes e servidores. Após sentir dores nas corridas foi buscar outra alternativa: a escalada. E na sequência a paraescalada. Treina com rigor após expedientes na modalidade que foi paixão à primeira vista. Já que o amor de Dias é o técnico Andrew Oliveira. O namorado é grande incentivador e desde 2018 formam parceria perfeita no esporte, pois ambos também praticam o esporte.

Trabalhando remotamente, a professora é mais que atleta: coloca-se como defensora de conceito. Vegana há dez anos, evita consumir produtos de origem animal, não usa couro. Não vai ao zoológico E segundo ela, “respeita o direito à vida dos animais, os seres mais oprimidos do planeta”. Além do mais ajuda na prática do esporte e saúde, “acrescenta baseada em estudos que a carne e o leite são inflamatórios e prejudiciais a quem tem esclerose múltipla.”

Divisão em classes

Os competidores são separados por classes ao competir de acordo com as limitações na paraescalada. Todos passam por avaliação médica que depois registra quatro classes e subdivisões, de acordo com o grau maior ou menor da limitação. Na classe B (limitação visual); AL (amputação ou limitação forte dos membros inferiores; AU (amputação ou limitação maior nos membros superiores) e RP (comprometimento de força ou alcance de sejam quais forem os membros.).

A atleta bateu um papo sobre a trajetória e curiosidades

Yahoo Esportes – Você tem história sofrida até chegar ao diagnóstico da esclerose múltipla (EM), pode descrever?

Marina Dias – Em 2007 tive um sintoma chamado de Sinal de Lhermite. Uma sensação de choque ao abaixar a cabeça. O neurologista com que me consultei passou vitaminas e achei que não era nada, fui tocar a vida. Um ano e meio após este fato, tive outro surto, perdendo forças dos membros do lado esquerdo. Especificamente na prática de yoga. Passei por outro especialista indicando-me exame para outras coisas menos esclerose múltipla (EM). Mas em 2009, em um assalto na loja da família, meu pai e irmão levaram tiros. Meu irmão na cabeça. Minha mãe comentou com o médico que atendeu a família e este me indicou ao exame certo. A ressonância magnética detectou lesões no cérebro e medula característica de EM. Sem tratamentos disponíveis no Brasil, usei a medicação interferon injetável. Injeções três vezes ao dia com efeitos colaterais. Em 2013, abandonei este tratamento pelos efeitos. Aí comecei a praticar corrida de rua. Meu irmão ficou tetraplégico e não podia ficar mal, pois tinha dois filhos. Precisava ajudar a família e ainda cursava o doutorado.

Como você chegou à escalada?

Primeiro veio a corrida de rua, e peguei até pódio. Depois encontrei em 2018 a Escalada no ginásio em Taubaté. Dois anos depois vi um anúncio do ABEE sobre o campeonato brasileiro de escalada que tinha a paraescalada. Competi em 2020 e 2021. E participei na classe boulder {competição da escalada em rocha ou paredes artificiais sem uso de equipamentos de segurança convencionais, casos de cordas e mosquetões} e dificuldade. Como ainda tudo é incipiente no país na paraescalada só eu participo da categoria RP3. E fui bicampeã.

Como é o trabalho que você tem com o treinador especial?

Andrew Oliveira é treinador e também meu namorado. A participação dele começou depois de ter me dado curso básico de escalada na rocha e poucos meses depois disto veio o namoro. Ele trabalha com crianças e tem treinamento voltado à base do esporte. É meu parceiro e tive a oportunidade de conhecer várias montanhas com ele. Ajudou com meu repertório de escalada, nos treinos no ginásio, o que faz total diferença também É quem me apoia além de minha família.

Descreva a sensação do feito histórico da medalha de ouro? E se sonha em participar de Jogos Paralímpicos caso tenha oportunidade?

Até hoje não acredito. Primeira medalha de ouro da Escalada brasileira em uma Copa do Mundo. Sobre participar, acho que já estou ficando velha (risos). Mas o fato de ter contribuído para a viabilização da inserção da paraescalada nos Jogos Paralímpicos de Los Angeles, já que a representatividade de países é um requisito importante para inclusão. E se conseguisse uma vaga eu acho que iria claro.

Você citou que faz yoga, tem algum mantra?

Não sei, mas faço a meditação 21 dias de abundância repetidamente. A técnica 21 dias criando abundância foi desenvolvida pelo médico indiano Deepak Chopra. Vai além da riqueza e envolve até a paz de espírito. São atividades diárias de reconhecimento e meditação que acalmam e aliviam a mente.