Felipão está perto de encerrar carreira de técnico como um dos maiores da História

Há vezes em que a frieza dos números fala por si. É o caso de Luiz Felipe Scolari, que está próximo de se despedir da beira do campo ao fim da temporada com o vice-campeonato da Libertadores e após quatro décadas de carreira e 27 títulos — ele ainda não definiu se vai se aposentar 100% do futebol ou seguirá em outra função. Independentemente do gosto por seu estilo e afeição à sua personalidade, é indiscutível que o treinador de 73 anos está no panteão dos maiores técnicos da história do futebol mundial.

Aos tricolores gaúchos e aos palmeirenses, não há dúvidas de que seu nome está entre os maiores. Ainda que tenha, de certa forma, participado de rebaixamentos dos clubes — Grêmio em 2021 e Palmeiras em 2012 —, as conquistas em si e as trajetórias dos títulos estão totalmente entrelaçadas ao seu nome. Assim como o jogo vigoroso e a exigência por disciplina.

Só nos dois clubes foram 13 troféus, praticamente metade de todas as glórias. No Grêmio, viveu seu auge nos anos 1990, quando teve a carreira catapultada nacionalmente, com os títulos da Copa do Brasil (1994), Libertadores (1995) e Brasileiro (1996), e fez uma geração vincular seu nome e seu estilo de jogo ao tricolor gaúcho.

No Palmeiras, a origem italiana levou à identificação imediata com o clube. A conquista inédita da Libertadores de 1999, décadas antes da atual pujança econômica e da hegemonia no país e no continente, já seria suficiente para a idolatria de Felipão no Palestra Itália.

Mas ambos ainda teriam um reencontro num momento que conciliou a retomada da carreira vitoriosa de Felipão no Brasil, após a Copa de 2014, e o retorno do Palmeiras ao topo. O fruto disso foi o título brasileiro de 2018, o decacampeonato nacional da equipe paulista.

Conquista bem à moda Felipão dos últimos tempos, acostumado a ser chamado a apagar incêndios e, de quebra, recuperar time rumo aos títulos. Chegou na 17ª rodada, com a equipe em sexto lugar. Confirmou a conquista com uma rodada de antecedência.

Roteiro semelhante ao desta Libertadores. A aposta em Fabio Carille não deu certo. O técnico foi demitido após a goleada de 5 a 0 sofrida para o The Strongest (BOL). Lá veio Felipão arrumar a casa. Tirou o time da lanterna do Grupo B, classificou às oitavas de final e foi derrubando favoritos, como o então campeão Palmeiras. E colocou o Athletico novamente numa final continental depois de 17 anos.

No entanto, são as vitórias a nível mundial que elevam ainda mais o nome de Felipão na história. Não as passagens por Arábia Saudita, Uzbequistão, Kwait e China — ainda que sua presença nesses países tenha sido fundamental para o desenvolvimento do futebol local. Mas feitos como o de Portugal, em 2004 e 2006.

A seleção portuguesa aprendeu rapidamente a falar a língua de Scolari, que promoveu a estreia do jovem Cristiano Ronaldo, de 18 anos. Na época, os astros eram outros, como Rui Costa, Deco e Figo. Os títulos não vieram. Mas o vice da Euro 2004 e o quarto lugar na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, marcaram o nome do treinador brasileiro, que ganhou uma chance na Premier League, com o Chelsea, onde durou apenas sete meses.

A passagem pela Europa, é claro, foi pavimentada por aquele que, indubitavelmente, é o título número 1 dos 28 da carreira de Felipão. Se 2014 está cravada nas costas do técnico, 2002 é o troféu da fé num grupo que se transformou na "Família Scolari".

Devoto de Nossa Senhora do Caravaggio, imagem que carrega consigo desde 2001, Felipão se agarrou as suas crenças. Bancou a lista final sem Romário e com Ronaldo longe da melhor forma. Ainda pairava sobre a seleção o trauma da derrota de 1998 para a França.

Com o trio Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, a seleção trouxe o pentacampeonato, de uma forma até tranquila quando se olha em retrospectiva, e, na metade carreira do técnico, fincou seu nome entre os grandes. Também não se discute que 40 anos de carreira não se faz apenas com sucessos.

Há derrotas sofridas. E Felipão carrega, talvez, a maior de todas elas. A marca do 7 a 1 para Alemanha, em casa, em 2014, é indelével. Entrou para o vocabulário brasileiro como expressão de fracasso retumbante.

Apagão ou não no Mineirão, estará sempre em sua biografia. Resta saber se será um asterisco com peso tão grande quanto todos os demais feitos. A resposta definitiva ficará a cargo do tempo. Ou talvez vai depender de quem responder.

Agora, ele vai atrás de outras glórias. Como acompanhar o crescimento dos quatro netos, um deles ainda por vir, e não se preocupar mais com disciplina.

Grêmio