Felipe Neto no NYT: o que explica o chilique bolsonarista com o vídeo?

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
Reportagem do NYT com Felipe Neto. Foto: Reprodução/New York Times
Reportagem do NYT com Felipe Neto. Foto: Reprodução/New York Times

Muitos brasileiros minimamente bem informados (logo, indignados) poderiam contar, no maior e mais tradicional veículo de comunicação dos EUA, como tem sido viver no país de Jair Bolsonaro durante a pandemia do coronavírus.

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Mas ninguém conseguiria resumir tanta coisa num vídeo de seis minutos, em inglês fluente, como fez Felipe Neto em seu artigo audiovisual feito sob encomenda para o New York Times.

O efeito foi imediato. Não teve quem não riu do desenho para gringo ver. Riu de nervoso.

Numa espécie de melhores (ou piores) lances da rodada, o youtuber fez com até os brasileiros já devidamente indignados com o desgoverno bolsonarista olhassem em perspectiva, a perspectiva do estrangeiro, o nonsense de atravessar uma pandemia liderada por um presidente que promoveu não uma, mas diversas aglomerações, fez pouco caso da doença e acaba de completar dois meses sem ministro da Saúde titular. Sim perto dele Donald Trump virou o Patch Adams.

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Para quem ainda se surpreende, fez bem o influencer em lembrar que Jair Bolsonaro pode ser tudo, menos estelionatário: como deputado, ele dizia ser homofóbico com orgulho, prometia metralhar adversários na campanha e já mostrava ser incapaz de nutrir qualquer sentimento que não raiva por qualquer pessoa que não fosse ele.

Quem diria que o sujeito que passou 30 anos no Congresso sem elaborar uma única ideia de país se tornaria a pior liderança política no maior desafio humanitário deste século, não é mesmo?

O efeito-rebote foi a chiadeira que atravessou a madrugada após a publicação do vídeo.

A ativista pelego-cristã que foi presa por portar armas e ameaçar ministro do Supremo colocou o novo inimigo do bolsonarismo como filósofo entre aspas ao lado de Anitta e Valesca Popozuda. Talvez pensasse que isso fosse ofensivo.

Um velho conhecido do conservadorismo mais tacanho, aquele que achava de mau tom chamar pessoas mortas por covid de pessoas mortas por covid -- já que elas provavelmente deveriam sofrer de outros males -- chamou o vídeo de peça-publicitária pró-Joe Biden promovida pelo “Peter Pan do debate político”.

A deputada da tropa de choque bolsonarista apelou para a conversa da moral e dos bons costumes ao resgatar um vídeo dos tempos em que o youtuber não cansava de passar vergonha em seus canais com palavrões e postura homofóbica, dos quais ele mesmo se arrepende e nunca mais repetiu. “Alguém com esse tipo de postura pode ser influenciador de nossos filhos?”, escreveu.

Pois é. Boa influência é o cosplay de presidente suspeito de interferir na PF para proteger os filhos e os amigos, de usar dinheiro público para bancar o ódio, que pergunta “e daí” diante dos mortos numa pandemia e incita papai e mamãe armados a contestar à bala ordens de prefeitos e governadores para conter o vírus.

Os apoiadores do governo até suportam as críticas feitas em solo doméstico. Pelo método olavista de discussão, respondem tentando desmoralizar ou botar em desconfiança a intenção dos críticos pelo campo moral -- “reclamam porque perderam a boquinha”, “não querem aceitar que o Brasil mudou”, “obedecem aos comandos comunistas”, etc.

Tudo muda quando este filme que eles mesmos ajudaram a produzir é apresentado ao público estrangeiro, sobretudo o público do país que eles veneram.

Eles sabem que não havia nenhuma mentira no vídeo. Ele seria endossado inclusive pelo ídolo da turma, Donald Trump, segundo quem os EUA teriam mais de um milhão de mortos por coronavírus se tivessem seguido o exemplo do Brasil.

A chiadeira bolsonarista vem da mesma linhagem dos que não suportam debater racismo no Brasil porque esse tipo de debate só serve para desunir e criar uma falsa distinção entre iguais. Para eles, tudo bem se essa distinção se revelar entre quem serve e quem é servido, entre quem tem acesso aos postos de comando e os que são barrados na porta de entrada, entre os que podem e os que não podem circular pela cidade sem serem abordados, achincalhados e desaparecidos; problema mesmo é discutir e expor aos vizinhos tudo isso.

Para eles a única foto que interessa aparecer é a de um país unido e sem feridas abertas. Nem que para isso seja preciso espancar os dissidentes.

Felipe Neto é, provavelmente, o maior e mais articulado comunicador brasileiro da era digital. Tomou lado da disputa contra o rolo compressor bolsonarista.

No mesmo dia, enquanto 75 mil mortes por coronavírus eram confirmadas no Brasil, Bolsonaro tentou faturar politicamente uma vitória de Pirro com a audiência da emissora aliada que transmitiu a final do Campeonato Carioca após a pressão do atual campeão brasileiro para voltar a campo antes da hora, morra quem morrer.

Quem sabe assim, distraídos, esqueçamos os mortos e voltemos a nos concentrar no que realmente não importa, como uma final de estadual.

Para isso, Bolsonaro se aliou a outro grande comunicador brasileiro. Talvez o maior. Mas do século passado.