Nas acusações de estupro envolvendo Felipe Prior o que faltou foi empatia com as vítimas

Felipe Prior (Foto: Instagram)

Dias depois de deixar o 'Big Brother Brasil 20', Felipe Prior virou protagonista mais uma vez. A história, no entanto, está longe de ser entretenimento: ele é acusado de estupro por duas mulheres e de tentativa de estupro por uma terceira. A notícia foi divulgada pela revista 'Marie Claire'. 

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O caso levantou muitas reações do público, já que até então ele havia virado um "vilão da Disney", como disse Manu Gavassi no 'BBB'. De inimigo para parceiro de Babu Santana, um dos queridinhos do programa, ele parecia ter refeito a sua imagem no confinamento. No entanto, a reação que mais chamou a nossa atenção na história foi a da falta de empatia. 

Ler as respostas à matéria postada no Twitter da versão brasileira da revista deixa claro o porquê. Mais uma vez, quando uma acusação séria desse tipo (e recheada de provas, diga-se de passagem) acontece, as vítimas não são recebidas com acolhimento, mas são vistas como "aproveitadoras". 

Comentários que insinuam um suposto interesse dessas mulheres pelo dinheiro que Prior ganhou com a sua participação no reality show da Globo foram muitos e só reforçam a forma como as mulheres são vistas na sociedade: esse é um caso clássico de descrédito do discurso feminino. 

A pergunta levantada no Twitter gera uma reflexão: quantas mulheres, de fato, ficaram famosas ou ricas porque acusaram homens de assédio ou estupro?

Na realidade o mais comum é contrário: essas mulheres, culpabilizadas pelo o que aconteceu com elas, acabam sendo excluídas e têm a sua carreira e reputação manchadas pelo o que passaram - o que, inclusive, dificulta o seu processo de cura de um trauma tão grande. 

Lembramos aqui, por exemplo, do caso envolvendo MC Biel. Em 2016, ele foi acusado por uma jornalista de assédio e a principal repercussão foi que ela perdeu o emprego. 

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Segundo a ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 52% dos casos de violência não são denunciados pelas vítimas. Vendo as respostas às acusações de Prior, entende-se facilmente o porquê. 

Historicamente, a palavra de um homem têm mais peso do que a de uma mulher. Tanto que os casos de impunidade relacionados à acusações de estupro e de agressão contra mulheres são comuns. Em um caso famoso, o juiz que julgava um jovem universitário norte-americano que estuprou uma jovem desacordada disse que condená-lo seria ruim para o seu futuro e que a menina deveria ter vergonha do que fez. 

Podemos resgatar também o caso envolvendo o ator José Mayer, da Globo. A figurinista Su Tonani comentou que não fez uma denúncia formal porque foi inibida por um delegado - que chegou a mandar policiais à sua casa para intimá-la a não fazer a denúncia formal. 

O medo, aliás, é apenas um dos motivos que levam as mulheres a não denunciarem a violência de sofrem. Medo esse tanto de serem julgadas pela sociedade, quanto de terem as suas vidas prejudicadas econômica ou socialmente por conta dos casos. 

Mas vai além: como a violência contra a mulher é normalizada, muitas vezes essas mulheres não identificam que foram violentadas de alguma forma. É por isso que existem tantos comentários no estilo "homem é assim" ou "isso faz parte", a violência não é vista como violência e é preciso um entendimento mais amplo para que a vítima entenda pelo o que passou. 

Fora isso, vale lembrar que, muitas vezes, a violência contra a mulher acaba em feminicídio. O Brasil possui alguns dos mais altos índices de assassinato de mulheres, na maior parte das vezes executados por ex-maridos ou namorados.  O medo de uma revanche por parte do acusado nasce aí. 

A própria impunidade, a falta de acolhimento, a vergonha, e a possibilidade de ser vista como culpada pela violência que sofreu são outros fatores que, somados aos já citados, fazem com que as mulheres optem por não denunciarem os seus casos.

No fim das contas, a briga não deve ser entre quem está certo ou quem está errado. Mas a Justiça deve fazer o papel que lhe cabe e as mulheres precisam se sentir livres e seguras para falarem sobre o que passam sem correrem o risco de serem crucificadas em praça pública e chamadas de “interesseiras".

O que faltou, em toda essa história, foi empatia com as vítimas, que levaram anos para se recuperarem de traumas para verem o agressor ser enaltecido na televisão e na internet diariamente. Ouvir, e não julgar, acreditar nas provas, e não culpar as vítimas, são lições que a sociedade demonstra que ainda precisa aprender.