Felipe Santana conta como é ser correspondente da Globo nos EUA em ano de eleição e pandemia

Gabriela Germano

Desde dezembro passado, Felipe Santana, de 34 anos, correspondente da Globo em Nova York, já se preparava para cobrir as eleições nos Estados Unidos este ano. Para a equipe do escritório da emissora em Manhattan, seria “A” cobertura de 2020. Tudo começou a mudar em março. Era Felipe que acompanhava a comitiva do presidente Jair Bolsonaro com Donald Trump, na Flórida, quando surgiu um primeiro caso positivo de Covid-19 em meio aos profissionais que trabalhavam na viagem. A partir daí, veio a quarentena (ele não se contaminou), a cobertura da pandemia feita em home office, os protestos antirracismo após a morte de George Floyd... Nesta entrevista, o jornalista que saiu da ilha catarinense de Florianópolis para viver na ilha mais frenética do mundo, onde trabalha desde 2016, conta como tem sido seu dia a dia num momento de incontáveis acontecimentos e de tantas limitações ocasionadas pelo vírus.

A pandemia da Covid-19 alterou a vida de todo mundo. Como ela influenciou sua rotina profissional em Nova York?

Eu estava acompanhando a comitiva de Jair Bolsonaro, em Miami, na primeira semana de março. Houve aquele jantar com o presidente americano, Donald Trump, em que foi registrado um primeiro caso da doença. Três pessoas da comitiva acabaram contaminadas depois, e ficamos todos juntos num lugar fechado o tempo inteiro. A gente ainda não sabia muito o que estava acontecendo, mas eu entrei em quarentena uma ou duas semanas antes de a cidade fechar. No começo, não trabalhei. Depois, passei a entrar no ar no programa “Combate ao coronavírus’’, que a Globo exibia, com um celular, direto de casa. A gente teve que ir aprendendo, melhorando as técnicas. Até que recebemos equipamento em casa e comecei a trabalhar com o cinegrafista Lucas Louis, que é meu vizinho.

Em meio à pandemia, começaram os protestos antirracismo, após a morte de George Floyd. No Twitter, você refletiu sobre o racismo estrutural, dizendo que ele pode ter ligação com a origem das pessoas, e contando que, quando se mudou para o Brooklyn, ganhou uma camisa onde estava escrito “latino-americano’’. Como você vê essas manifestações?

Meus amigos me deram essa camisa como uma brincadeira. O Brooklyn é o lugar onde sempre quis morar, onde as coisas acontecem culturalmente, é um caldeirão cultural. E ser latino-americano no Brooklyn é bom, porque é como se você desse uma contribuição para a diversidade. Seu sotaque é bem-visto. A gente se ajuda, há mais sensação de comunidade, o que se perdeu em Manhattan. No momento das manifestações, eu dei sorte porque resolvemos que, para evitar o excesso de exposição, cada profissional cobriria as passeatas perto de suas casas. Como o Brooklyn tem um histórico de movimentos sociais nessa luta pela igualdade, eu pude introduzir isso nas minhas matérias. Foi emocionante, porque vimos todo tipo de gente indo às ruas pela causa.

Mas como foi fazer essa cobertura sendo um homem branco, que ocupa um lugar privilegiado?

Complicado, porque você tem que medir cada passo, cada palavra dita , já que o racismo estrutural está escondido em todo lugar, nas menores das nossas ações. Por exemplo, no fato de eu estar dando essa entrevista falando sobre isso. Por que sou eu falando desse assunto? Por que eu é que estava lá cobrindo? Será que se eu fosse negro, eu estaria lá? Essas perguntas me vêm à cabeça. O que tenho feito muito é ouvir meus amigos negros. Outro dia, uma amiga me falou para prestar atenção no bar em que estávamos. Quantos negros tinham no lugar? Quantos deles estavam sentados e quantos estavam atrás do balcão, trabalhando? Tenho tentado olhar pra isso para poder dar voz a essas pessoas.

Você está nos Estados Unidos desde 2016, quando o país elegeu Trump. Nota muita mudança de lá para cá?

Vários temas que a gente achava que eram a base do nosso entendimento, vimos que não eram. A questão dos direitos humanos, do respeito à ciência, o movimento contra as mudanças climáticas... Tivemos que começar a fazer um outro tipo de trabalho. Quando Trump diz alguma coisa, a gente tem que checar para saber se é verdade, porque ele tem um histórico de dizer inverdades. Apesar de nossa função ser essa, checar, é desafiador porque Trump adora usar a imprensa e as notícias em função de sua agenda política. Temos que estar bem atentos, vendo quais são os objetivos políticos por trás das ações, pra não contarmos histórias que são não verdade.

Ainda em 2016, o Brasil sediou as Olimpíadas. Na época, você fez reportagens sobre o escândalo com o nadador americano Ryan Lochte (o atleta inventou um falso assalto no Rio) e mostrou que as pessoas nos EUA viam o Brasil com desconfiança. Nossa imagem, hoje, é ainda mais duvidosa?

Acho que não temos como tirar da gente a imagem que o Brasil passa para o mundo hoje. Já simbolizamos a modernidade, por exemplo, com a Bossa Nova. Ou a esperança, como na própria abertura dos Jogos Olímpicos, em que Fernando Meirelles mostrava como a resposta da natureza poderia ser uma resposta para o mundo. Mas, agora, com tantas crises e não só por causa da eleição de Bolsonaro, há um descrédito em relação ao Brasil.

Este ano tem nova eleição aí. Como está a expectativa?

Em 3 de fevereiro, eu fui pra Iowa, o primeiro estado onde acontecem as prévias. Estávamos nos preparando desde dezembro, pesquisei a vida de todos os candidatos. Achei que seria a maior cobertura do ano, mas aconteceu isso tudo. As convenções vão ser realizadas. Mas, em 2016, Hillary Clinton estava na frente e vimos o que aconteceu Ainda não há uma programação. Por enquanto, a ideia é nos deslocarmos para lugares muito importantes ficando só do lado de fora.

Você vê os Estados Unidos como vemos o Brasil atualmente, um país dividido?

Sim. E não vejo uma tentativa do governo de unir. A ideia é separar entre nós e eles sempre, de alguma forma, até na ação do governo em relação à pandemia. O presidente culpa os democratas por fazerem alarde em relação aos riscos do vírus, dizendo que eles desejam a economia fechada para prejudicar o Trump em ano de eleição. Um país dividido é um lugar político forte. É uma batalha. A gente não está conseguindo chegar num acordo.

Muita gente olha a rotina de um correspondente internacional só pelo lado glamouroso. Quais são os perrengues?

A gente não tem rotina, nem mesmo horário de entrada e saída do trabalho. Uma vez eu estava num show, era 1 hora da manhã, e Trump jogou bombas no Irã. Eu tive que sair correndo. A gente está sempre de prontidão. É como se estivéssemos constantemente de plantão.

Nesse período de cobertura internacional, quais os momentos mais marcantes?

Eu fiz a primeira entrevista com Ryan Lochte após o escândalo. Concorremos ao Emmy com essa reportagem. Depois que tudo aconteceu, ninguém sabia onde ele estava. Mas vi que Lochte tinha contratado um profissional para reverter sua imagem, e esse cara era o mesmo assessor do Justin Bieber, que foi uma das primeiras entrevistas que fiz para o “Fantástico’’. Liguei para esse rapaz argumentando que se o nadador queria reverter a imagem, precisava falar antes de tudo com os brasileiros. Consegui e foi ao ar no “Jornal Nacional’’. Também voltei com Eike Batista no mesmo avião, quando ele foi preso pela Polícia Federal. Nós o procuramos por seis dias nos Estados Unidos. Uma produtora descobriu o assento do voo que ele tinha comprado pra voltar ao Brasil e comprou o assento ao lado pra mim.

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