Felizes e gordinhos para sempre: casais que vivem juntos por mais de 1 ano dobram o risco de engordar, mostra estudo

Viver em casal traz muitas alegrias. Lucia, que define seu estado civil como um 'feliz reencontro', sabe bem disso. Ela leva uma vida tranquila, saindo aos fins de semana, jantando mais em casa e comendo duas vezes mais sushi do em relação aos tempos de solteira. Ela não reclama, mas espera o momento ideal para começar uma dieta ou pelo menos retomar alguns de seus hábitos de solteira. Lucia ganhou alguns quilos e aumentou o tamanho das roupas, mas prefere não colocar um número na balança.

— Eu não engordo — ele afirma.

Se as coisas vão bem, a vida a dois é como uma pizza: você engorda, não importa a hora que coma. Alguns estudos até indicam que a felicidade significa mais ganho de peso. Se as coisas derem errado, parece que podemos perder aqueles quilos extras na expectativa de "voltar ao mercado".

Especialistas alertam que estudar o ganho de peso dos casais é um assunto particularmente difícil. Por um lado, geralmente há dados insuficientes sobre o consumo de alimentos a dois -- nos ensaios apenas um de seus membros costuma participar a finco. Também não é fácil para os pesquisadores coletar informações sobre os hábitos que cada um tinha antes do relacionamento. Por fim, com a convivência costumam vir outros eventos vitais, como uma mudança de bairro, um novo emprego, outros amigos ou uma vida mais sedentária. Difícil calcular qual deles pode ser decisivo no ganho de peso.

Mas é possível chegar bem perto. Um dos primeiros estudo que associou a vida de casal ao ganho de peso foi publicado na revista Obesity. De acordo com os resultados, quanto mais tempo uma mulher passa em um relacionamento estável, mais quilos ela ganha. Para os homens, esse risco disparou nos dois primeiros anos de convivência e depois se estabilizou, mas as mulheres, alguns anos após começarem a viver juntos como casal, já dobravam o risco de obesidade em comparação com aquelas que ainda eram solteiras ou namoravam alguém.

A endocrinologista Ana de Hollanda, coordenadora da área de Obesidade da Sociedade Espanhola de Endocrinologia e Nutrição (GOSEEN), dá sua opinião sobre esse trabalho.

— O estudo mostrou que casais que começaram um relacionamento tinham tendência a ganhar peso, especialmente se a coabitação durou mais de um ano. É provável que uma situação mais estável facilite o ganho de peso, pois não estão procurando um parceiro. Provavelmente, o aumento da responsabilidade nos compromissos conjugais atrelado ao aumento da carga de trabalho, sedentarismo e estresse também podem explicar essas mudanças no peso.

Para os autores era impossível apontar um único culpado. Em vez disso, eles indicaram uma série de mudanças na vida: horários e logística mais complicados que impossibilitavam dedicar tempo aos esportes ou a um estilo de vida mais ativo, mais refeições em restaurantes com amigos e mais tempo no sofá assistindo TV. Acima de todos esses fatores paira uma característica do ser humano: comer em boa companhia nos deixa eufóricos, então se estamos com alguém que come mais do que nós, provavelmente nos servimos porções maiores do que quando estamos sozinhos.

— Casal pede mais delivery para comer em casa — confirma a nutricionista especialista em transtornos do comportamento alimentar e obesidade, Azahara Nieto — E costumam pedir coisas que não são feitas em casa: pizza, hambúrguer, comida chinesa, sushi... tudo muito calórico — acrescenta.

O nutricionista Pablo Zumaquero, que acabou d epublicar o livro 'Na segunda-feira já começo a dieta' explica o porquê morar junto do companheiro é capaz de modificar os hábitos de alimentação.

— Diga-me com quem você mora e eu lhe direi como você come — ele resume— O Junk food é mais agradável e se há um no casal que quer se cuidar e o outro não, o mais comum é que os maus hábitos vençam. Por outro lado, quando as pessoas vão morar juntas, as preocupações estéticas diminuem. Todo o peixe já está vendido.

Para o especialista, o descontrole começa pelo lanche.

— Pegue um vinho com batatas fritas como aperitivo ou assista a um filme da Netflix com sorvete e alguns biscoitos.

Em 2016, outro teste mostrou que quanto mais feliz um casal era, mais gordos ficavam. Quem estava chateado ou prestes a sair de um relacionamento começou a lutar contra o excesso de peso, antes mesmo de pronunciar o clássico “precisamos conversar”. A pesquisa confirmou que casais que viviam juntos há mais de quatro anos dobravam o risco de excesso de peso em comparação com aqueles que não se sentiam muito à vontade com o relacionamento. Ao longo de quatro anos, os felizes ganharam em média quatro quilos.

— É um indicador de que as pessoas estão confortáveis ​​e priorizam o bem-estar sobre questões estéticas e físicas. Os menos felizes já estão motivados a sair no mercado e querem atrair um novo parceiro em potencial, então investem novamente na academia e cuidam mais da alimentação — explica a professora de Psicologia da Hofstra University, e um dos coautores do estudo, Sarah Novak.

Em casais é comum haver boicote. É assim que os nutricionistas entrevistados para esta reportagem chamam alguém que vai ao supermercado e compra tudo o que o outro não quer comer, ou alguém que insiste que faça duas refeições, porque não gosta de verduras, por exemplo.

— Na minha experiência, os boicotadores geralmente são homens, as mulheres são mais empáticas e facilitadoras, e estão mais acostumadas a cuidar da alimentação; é mais difícil para eles se adaptarem — diz Azahara Nieto.

Em suas consultas, Pablo Zumaquero vê um padrão se repetir. Homens que comem mal e são ativos e mulheres que comem melhor, mas são sedentárias.

— Elas estão acostumadas a fechar a boca e a estar sempre de dieta. Os homens acreditam que não tem problema ir as vezes à academia.

Zumaquero tem o hábito de iniciar suas consultas com uma pergunta: O que seu parceiro acha de você vir aqui? Segundo ele, as mudanças devem ser acordadas entre os três — médico e o casal.

— Sim, porque as mudanças têm que ser acordadas entre os três, eles e eu, e tenho que saber se estou pisando em terreno hostil. É muito difícil um casal fazer dieta — diz a nutricionista, que prefere não recomendar mudanças muito radicais para evitar a rejeição.

A endocrinologista e nutricionista do Hospital Clínic de Barcelona, Ana de Hollanda, afirma que quando uma família faz dieta e emagrece, há um "contágio" para os demais que não foram submetidos a nenhuma dieta.

— Há dados espanhóis que comprovam isso. Se temos amigos que praticam esportes ou são obesos, é mais provável que também pratiquemos esportes ou sejamos obesos. Por isso, as intervenções para todo o grupo familiar podem ter um alcance maior do que as individuais.

— O bom e o ruim se espalham e os hábitos são reeducados — resume Nieto e alerta que nada será alcançado se as mudanças no estilo de vida não forem mantidas por mais de seis meses ou um ano. Outra questão é se os casais felizes querem deixar de ser felizes por perder alguns quilos.