Feminista, lésbica e a única mulher diretora da Era de Ouro de Hollywood: conheça Dorothy Arzner

Leda Antunes
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Dorothy Arzner inovou ao trazer para as telas protagonistas femininas fortes e independentes

RIO - Já é 2020 e nenhuma mulher foi indicada ao Oscar de melhor direção. Se ainda hoje Hollywood demonstra seu machismo, cem anos atrás o cenário era bem mais complexo para as mulheres. Uma delas, porém, conseguiu prosperar numa época em que a indústria cinematográfica era ainda mais dominada por homens. Pioneira, a americana Dorothy Arzner foi a única mulher a dirigir filmes na Era de Ouro do sistema de estúdios de Hollywood, da década de 1920 até o início dos anos 1940. Lésbica e feminista, Arzner inovou ao trazer para as telas protagonistas femininas fortes e independentes.

Ela foi a primeira diretora a fazer parte do Directors Guild of America — e por décadas permaneceu como a única cineasta mulher na associação —, foi também a primeira a dirigir um filme sonoro e a única diretora a fazer com sucesso a transição do cinema mudo para o cinema falado.

Uma parte de sua obra, que ainda está preservada, está sendo exibida em mostra inédita na Caixa Cultural, desde terça-feira, 14, até o dia 26 de janeiro. A programação de "Uma pioneira em Hollywood", que chegou a ser cancelada no ano passado, levantando suspeitas de censura, inclui 13 dos 16 longa-metragens dirigidos por Arzner. Os filmes raros voltam ao Brasil pela primeira vez desde a sua estreia.

Nascida no final do século XIX, Arzner cresceu em Los Angeles, nos Estados Unidos, onde o pai tinha um restaurante que era frequentado pelos figurões de Hollywood. Pelas conexões que a família tinha com os irmãos DeMille, diretores influentes da época, ela iniciou sua carreira da indústria do cinema em 1919, como datilógrafa de roteiros no estúdio Famous Players-Lasky, que logo se transformaria na Paramount Pictures.

— Ela tinha status, era uma mulher branca e rica. Mas queria ser independente e conseguiu galgar um caminho nessa indústria. Ela mesma falava que era uma péssima datilógrafa, então durou três meses na posição. Depois se tornou supervisora de roteiros, mas logo foi para sala de montagem e virou uma excelente montadora. Ela conheceu muito bem a linguagem do cinema pelos seus pilares fundamentais, o roteiro e a montagem — conta Marcella Jacques, produtora e curadora da mostra, ao lado de Victor Guimarães.

Com o passar do tempo, Arzner ganhou influência e prestígio no estúdio, trabalhando ao lado de diretores como William Wellman. Com seu sucesso como montadora, ameaçou ir para a rival Columbia Pictures, a menos que lhe dessem o cargo de direção nos próximos projetos. Em 1927, ela dirige "Fashions for Women", seu primeiro longa ainda na era do cinema mudo. Após outros três filmes silenciosos de sucesso, ela dirigiu o primeiro filme sonoro da Paramount — "Garotas na Farra" (The Wild Party, 1929), estrelado por Clara Bow.

Histórias de mulheres fortes

Usando a linguagem clássica da Era de Ouro de Hollywood, Arzner inovou ao trazer para o centro da narrativa a perspectiva feminina, mesmo em dramas protagonizados por homens — um deslocamento radical em relação ao cinema feito no período. Nos seus longas, dirigiu algumas das maiores divas da história do cinema – como Clara Bow, Joan Crawford, Claudette Colbert e Katharine Hepburn.

— As mulheres nos filmes dela são fortes, diferente da maioria dos filmes da época, em que as personagens femininas eram frágeis e indefesas. Ela contava a história de mulheres independentes, trabalhadoras, mulheres ambiciosas afirma Jacques — Quando uma mulher vai para trás das câmeras, é evidente o quanto as personagens femininas crescem em força e diversidade. Nos 13 filmes que a gente vai mostrar, não existe um padrão. São vários tipos de mulheres retratadas — completa.

Entre os destaques da mostra está o longa "Assim Amam as Mulheres" (Christopher Strong, 1933) que, embora carregue no título original o nome de um homem e inicialmente pareça ter o personagem-título como protagonista, desvia seu foco para a trajetória de uma mulher independente, ousada e desobediente — interpretada por Katharine Hepburn em uma de suas primeiras aparições no cinema — que decide seguir seu sonho de ser pilota de avião, renunciando ao casamento e às vontades do amante.

Em "A Vida é uma Dança" (Dance, Girl, Dance, 1940), estrelado por Maureen O’Hara e Lucille Ball, que também será exibido na mostra, Arzner traz uma visão inovadora sobre o espetáculo burlesco, contrapondo as convenções do olhar masculino sobre o corpo feminino. Em uma cena marcante, a dançarina interpretada por O'Hara para em frente a plateia e faz um discurso abertamente feminista contra a cultura de objetificação dos corpos das mulheres.

Trajetória apagada

Lésbica e sem performar a feminilidade esperada para uma mulher na época, Arzner teve uma trajetória marcada pela quebra de tabus, mas também por silenciamentos. Alvo de fofocas e de brincadeiras — como costumava usar ternos e trajes masculinos, era chamada de "filho" do diretor William C. DeMille, com quem trabalhou como assistente — a diretora era reclusa quanto aos seus relacionamentos, inclusive sobre o que viveu por 40 anos com a dançarina Marion Morgan.

Embora fosse discreta quanto a sua homossexualidade e não tratasse abertamente do assunto nos seus roteiros, a crítica ao amor romântico heterossexual eram uma constante em seus filmes, explica a curadora Marcella Jacques.

Mesmo com uma carreira prolífica, Arzner teve parte de sua história apagada e é pouco conhecida, mesmo nos Estados Unidos, afirma a curadora.

— A ela é atribuída a invenção do microfone boom, que ela criou quando fazia o longa 'Garotas na Farra', em 1929, para que a atriz que vinha do cinema mudo conseguisse fazer a cena. Ela foi uma das principais diretoras da transição do cinema mudo para o cinema falado, mas a sociedade patriarcal apaga histórias femininas e Dorothy é um exemplo disso — diz.

Arzner parou de dirigir longas em 1943, quando passou a dirigir comerciais e filmes de instrução para o Exército e, posteriormente, se tornou professora de roteiro e montagem na UCLA, a Universidade da Califórnia em Los Angeles, onde deu aulas para futuros grandes nomes do cinema, como Francis Ford Coppola.

"Não é maravilhoso que você teve uma carreira tão incrível, quando nem tinha o direito de ter uma carreira?", escreveu Katharine Hepburn, em telegrama enviado à Arzner em 1975. A cineasta morreu em 1979, aos 82 anos.

Mostra "Uma pioneira em Hollywood"

De

Qua, às 17h, “Segura o que é teu (EU, 1927), 14 anos. Às 19h, “Honra de Amantes", (EUA, 1931). Qui, às 15h, “Working Girls” (EUA, 1931). Às 17h, “Sarah e seu filho" (EUA, 1930). Às 19h, “A vida é uma dança" (EUA, 1940). Sessão comentada.

Caixa Cultural: Cinema 1. Av. Almirante Barroso 25, Centro — 3980-3815.

Ter a dom, a partir das 17h. R$ 6.

Não recomendado para menores de 14 anos.

Confira a programação completa em: