Feminista por instinto, Marília nos mostrou como o óbvio precisa ser dito (e cantado)

·4 min de leitura
Marília Mendonça nas redes sociais
Marília Mendonça nas redes sociais. Foto: Reprodução/Instagram

Resumo da notícia:

  • Marília Mendonça morreu aos 26 anos como símbolo de representatividade feminina na música

  • Goiana se tornou um dos principais nomes do sertanejo ainda aos 20 anos de idade

  • Sua irreverência nas composições quebrou padrões no gênero dominado por homens

Marilia Mendonça nos deixou no auge. Parece até clichê dizer assim, mas o auge da goiana de 26 anos representa muito mais do que as canções de sucesso. Ela colocou as mulheres no protagonismo das músicas sertanejas e mostrou que o óbvio ainda precisa ser dito e cantado. E qual o óbvio? Mulher sofre, bebe, chora, se apoia, vive sua independência e bebe de novo - ela nunca escondeu que amava uma cachaça —, também é mãe, profissional, filha e tantas outras facetas. Falava de amor, da vontade amar.

A cantora veio para quebrar o paradigma do universo tomado por homens de calça apertada e machismo nas composições. Com o posto de Rainha da Sofrência e uma das percussoras do feminejo, Marília mudou o rumo da música brasileira aos precoce 20 anos de idade, quando fez o Brasil inteiro sentir na alma a letra de "Infiel". E nos ganhou ainda mais no carisma, já que sempre se apresentou como uma personalidade tão próxima dos meros mortais encantados por suas composições.

Leia também:

Carreira meteórica é o nome dado para o furacão que passou pela indústria musical de 2015 para cá. Mas ela mostrou além do talento como artista, compositora das grandes. Dona de uma voz inconfundível, Marília parecia ter um pouco de cada mulher existente em si. Nunca se colocou num pedestal com alguma pose de "vida perfeita". Ela levava o mais próximo da realidade para as suas músicas e atitudes. Nos despertava a vontade de um dia sentar numa mesa de bar, na voz e violão e muita conversa ao seu lado. Quem nunca passou noites ao lado de amigas cantando Marília? Ou vendo sua vida em cada verso?

"Todo mundo vai sofrer" com sua partida porque "você virou saudade aqui dentro de casa"

Ela era verdade e mostrava isso ao público. Brigas com o peso, baixa autoestima, mãe aos 20 e poucos anos, idas e vindas com o pai de seu filho só nos mostravam o quanto a artista era um ser humano como nós. Olhar Marília no palco passou a ser um acalento para as mulheres com dificuldade de se amar, se aceitar e de reconhecer seu valor. Que, convenhamos, são inseguranças quase unânimes em uma sociedade extremamente tóxica e voltada para o ego masculino. 

E não foi só no Brasil que sua irreverência fez barulho, ou melhor, fez música aos ouvidos. Ela ganhou o mundo com números estrondosos no Youtube e chegou a se tornar a artista brasileira mais ouvida da plataforma em 2017, além de conquistar o 13º lugar no ranking mundial. Já em 2019, garantiu o prêmio de "Melhor Álbum de Música Sertaneja" do Grammy Latino.

Além disso, ocupou as manchetes do The New York Times, The Washington Post, Billboard e BBC News, alguns dos maiores portais de notícia do planeta. Infelizmente, por causa de sua morte, mas ser notícia em jornais tão renomados mostra a força de sua representatividade. Inclusive, Marilia fez a palavra "feminejo" ser usada pela primeira vez em um texto do NYT. O estilo de música empoderada feito por mulheres e para mulheres. 

Ela levou o gênero para o patamar de reconhecimento internacional e deixa as portas abertas para novos talentos que venham a surgir. É um fato que a goiana desbravou territórios predominantemente masculinos e foi além do universo sertanejo, que antes parecia um nicho tão quadrado.

Vale lembrar que Marília foi a única mulher da área a se posicionar contra a candidatura (e em seguida eleição) de Jair Bolsonaro para presidência. Ela fez questão de se pronunciar nas redes sociais nas conflituosas eleições de 2018 sem medo de críticas ou perda de seguidores. 

Em recente coletiva de imprensa, o empresário da cantora ainda relembrou que a sertaneja foi uma das primeiras artistas dele a cancelar shows em março de 2020, quando a pandemia de coronavírus foi oficializada. Além de ter feito uma das maiores lives musicais desse período, em abril do mesmo ano. Ela colocou o Brasil para cantar suas modas no auge da aflição de uma crise sanitária com uma singela apresentação de dentro de sua casa para confortar o coração de seus fãs.

"Todo mundo vai sofrer" com sua partida porque "você virou saudade aqui dentro de casa". Que seu legado seja eternizado com suas letras, posicionamentos, carisma e humanidade. Existe a mulher antes e depois da existência de Marilia Mendonça. Seu impacto na música e na sociedade jamais será esquecido.

Velório

O público de Marília Mendonça poderá dar o último adeus à cantora neste sábado (6), no Ginásio Goiânia Arena. Segundo a assessoria da artista, o velório da cantora será aberto ao público das 13h às 16h. A expectativa, de acordo com o governador Ronaldo Caiado (DEM), é de que mais de 100 mil pessoas compareçam ao local.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos