Fernanda Montenegro é eleita para ABL, que agora se torna mais pop

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RIO — A nova ocupante da cadeira nº 17 da Academia Brasileira de Letras dispensa apresentações. Vencedora dos mais importantes prêmios nacionais e internacionais como atriz, vencedora no Festival de Berlim e única brasileira indicada ao Oscar (por "Central do Brasil"), Fernanda Montenegro foi eleita na tarde desta quinta-feira (4), por 32 votos, em cerimônia no Petit Trianon. A votação acabou sendo uma mera formalidade, já que a Grande Dama do Teatro era a única candidata para a vaga — ninguém ousou enfrentá-la. Aos 92 anos de idade e 76 de profissão, ela assume o assento que tem como patrono Hipólito da Costa e que teve como último ocupante o diplomata e escritor Affonso Arinos de Mello Franco, morto em março de 2020.

— Lembro que cruzei com Affonso Arinos algumas vezes, uma figura referecial. Ele me parava e dizia: "Fernanda, escreva um livro e entre na Academia" — diz a nova imortal, em entrevista ao GLOBO. — Eu respondia: "Mas eu? Eu sou só uma atriz!" Agora veja esse milagre: a Academia me aceita e ele me antecede. Vai explicar um fenômeno desses.

Aguardada desde agosto, quando a atriz oficializou sua candidatura, a eleição colocou a ABL no centro dos holofotes. A figura de Fernanda ultrapassa o mundo da literatura, é conhecida e admirada por um público amplo, do olimpo teatral à cultura de massas das telenovelas. Não há dúvidas de que a instituição cujo próprio fundador Machado de Assis um dia chamou de “torre de marfim” se tornou um tantinho mais pop com a presença luminosa da artista.

E deverá ficar ainda mais no próximo dia 11, com o provável ingresso de outro ícone da cultura popular entre o quadro de imortais. Gilberto Gil é favoritíssimo à cadeira nº 12, a qual disputa com o poeta Salgado Maranhão. Como ministro da cultura entre 2003 e 2008, o cantor e compositor trouxe seu star power para o cargo e atraiu para pasta uma atenção maior do que a usual — quer campanha internacional melhor do que Gil cantando “Toda menina baiana” na ONU?

— Acho que tanto o Gil como a Fernanda serão capazes de dar à Academia a visibilidade que ela merece, e que andou diminuindo com o tempo — diz o escritor e acadêmico Paulo Coelho, outra figura pop da casa. — Não é só uma questão de visibilidade, mas de competência. Ambos são expoentes em suas áreas, com um longo trabalho, baseado em coerencia e qualidade.

Paulo Coelho: ingresso de Fernanda e Gil é 'sopro de vida'

Coelho é o autor brasileiro mais vendido no planeta, com 210 milhões de exemplares, e traduzido para mais de 70 línguas em 150 países. Sua eleição em 2012, porém, foi muito mais contestada do que a de Fernanda, inclusive dentro da própria academia — o "mago" venceu o sociólogo Hélio Jaguaribe por 22 votos a 15. Sinal de que os tempos mudaram? Em todo caso, o ocupante da cadeira nº 21 acredita que essa abertura da casa para a cultura popular acontece em boa hora.

— Em um momento em que a cultura vem sendo atacada, ignorada por um governo que não faz nada além de tentar diminuir sua importância, onde a secretaria de cultura se transformou em um órgão manipulador, felizmente sem nenhum apoio da sociedade, é um sopro de vida ver Gil e Fernanda tendo mais uma vez o reconhecimento merecido.

Amigo próximo dos acadêmicos e conhecedor dos bastidores da casa, o editor José Mario Pereira, da Topbooks, vê a chegada de Fernanda como um “gol de placa” da ABL.

— Vai reforçar o status cultural da casa e ampliar o interesse do público leigo pela casa — diz Pereira.

Entre os acadêmicos, o discurso é outro. A busca por nomes como os de Fernanda e Gil não representaria, necessariamente, um desejo expresso de atender uma demanda popular por parte da ABL. Seus ingressos —o de Gil ainda não garantido, vale lembrar — se dão pelo valor simbólico em suas áreas, e só. O fato de uma ser atriz e o outro compositor também tampouco representa uma ruptura com o histórico da casa — afinal, o estatuto deixa claro que reserva vagas para personalidades de prestígio em suas áreas, não só na literatura. Entre os principais favoritos para as outras três vagas disponíveis, vale lembrar, estão um médico (Paulo Niemeyer) e um jurista (José Paulo Cavalcanti).

— Não é de hoje que a ABL recebe nomes famosos, já tivemos de presidente da república (Getúlio Vargas, José Sarney e Fernando Henrique Cardoso) ao (cirurgião plástico) Ivo Pitanguy — lembra o acadêmico Antonio Torres. — Calhou agora de termos personalidades muito conhecidas disputando, mas o critério é a produção. Pop ou não, todos serão bem-vindos.

De letras, mas não só

Logo na fundação da casa, os primeiros membros da Academia Brasileira de Letras se dividiram entre aqueles que defendiam o ingresso apenas de escritores e aqueles que prefeririam seguir os critérios da Academia Francesa, aberta também a grandes nomes da ciência, da cultura, da igreja, da política e das Forças Armadas.

Como lembra o historiador Diogo Arruda Carneiro da Cunha, professor adjunto de teoria política e pensamento político brasileiro na Universidade Federal de Pernambuco e autor de estudos sobre as relações da ABL com a ditadura militar brasileira, preveleceu o ingresso exclusivo de figuras literárias até as primeiras décadas do século XX. Mas, a partir de 1930, a instituição passou a atrair personalidades de renome de outras áreas — o que chegou a angariar algumas críticas.

— Foi instituído, então, que o critério era ter ao menos uma obra publicada — diz Cunha. — Houve casos, inclusive, em que candidatos foram orientados a lançar algum livro para que pudessem pleitear uma vaga.

Outra mudança significativa ocorrida no século XX foi a relação da ABL com os meros mortais. Antes da presidência de Austregésilo de Athayde, que esteve à frente da casa entre 1959 e 1993, o Petit Trianon era visto como um lugar escurto e fechado, que só podia ser frequentado por seus membros, conta Cunha. Coube a Athayde dar a ABL a cara que tem hoje, de uma instituição com as portas abertas para o público, com cursos e palestras gratuítos.

Embora nunca tenha falado publicamente como imortal antes da eleição, Fernanda Montenegro teria revelado, em conversas informais com acadêmicos, alguns projetos neste sentido. Fala-se que a atriz gostaria de revitalizar o teatro da ABL e promover encontros com jovens atores e dramaturgos.

O imortal Antonio Carlos Secchin concorda que, com nomes como Fernanda e Gil, a ABL deverá ter mais exposição.

— Tanto para elogios quanto para críticas — brinca o poeta. — A "torre de Marfim" de que Machado falou está receptiva à interlocução com o mundo há décadas. Basta conferir nosso ciclos de palestras.

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