Fernanda Nobre vive relacionamento aberto, mas diz que se o parceiro engravidar outra seria traição

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Fernanda Nobre e o marido, José Roberto Jardim. (Foto: Reprodução: Instagram @fenobre
Fernanda Nobre e o marido, José Roberto Jardim. (Foto: Reprodução: Instagram @fenobre

Foi em 12 de junho do ano passado, um Dia dos Namorados, que Fernanda Nobre decidiu abrir a câmera do celular e a vida pessoal para dialogar com os seus seguidores no Instagram, em tempos de isolamento social. “Qual é o pacto da sua relação?”, questionou a atriz, completando: “Senti vontade de vir aqui conversar com vocês sobre meus pensamentos e estudos sobre possíveis pactos de relacionamento”. E revelou que ela, atualmente com 38 anos, e o companheiro, o diretor José Roberto Jardim, de 44, decidiram experimentar um casamento aberto.

 A reflexão sobre o significado de traição numa sociedade tradicionalmente monogâmica foi uma das várias levantadas pela artista numa sequência de vídeos publicados na rede social, desde então. Maternidade, ciúme, liberdade, solidão, culpa, responsabilidade emocional, autocrítica, sexo, padrão, aceitação, relação abusiva... Todos esses assuntos também tiveram lugar no debate virtual. Temas de interesse do público feminino, mas também dos homens “em desconstrução”, dispostos a repensar seus comportamentos.

 

 

Eis que, agora, a atriz surge no horário nobre da TV Globo, em “Um lugar ao sol”, no papel da ex-amante. Maria Fernanda, sua personagem, já surge pegando Renato/Christian (Cauã Reymond) de surpresa com a notícia de que ele tem um filho, fruto do caso que os dois tiveram em Paris. Ao exigir a presença paterna na vida do garoto, ela estremece o casamento do rapaz com Bárbara (Alinne Moraes), que acabara de dar à luz um bebê morto. A personagem sai de cena depois que Elenice (Ana Beatriz Nogueira) lhe apresenta o teste de DNA negativo. “A passagem de Maria Fernanda pela trama é rápida, mas marcante. Ela planta o questionamento: como Renato conseguiu engravidar Bárbara, se ele é estéril?”, enfatiza a atriz, que despiu-se para estas fotos e entrevista da Canal Extra: “Me desnudo em busca de liberdade, de diálogo, de mim própria. Estou entregue, como uma folha de papel em branco”.

 

 

É o reencontro, em cena, dos intérpretes de Bia e Maumau, quase 20 anos depois. Que recordações você tem da parceria com Cauã em “Malhação” e como foi nos estúdios de “Um lugar ao sol”?

Em 2003, eu já estava na (terceira temporada de) “Malhação”, quando Cauã chegou. Foi o primeiro trabalho dele na TV. Foi muito legal a gente se reencontrar em cena depois de tantos anos. O Cauã com que me deparei em “Um lugar ao sol” é muito coerente com quem era lá no início. Ele sempre foi um ator muito comprometido, estudioso, dedicado. Continua com essas mesmas características, com o adicional da experiência. Ele é um cara muito respeitador, que tem um amor enorme pelo set, pela equipe. É muito bom de trabalhar junto.

Maria Fernanda, a personagem, é quase uma homônima sua. O que ela tem da Fernanda e o que tem de Maria, no sentido mais simbólico deste nome?

O simbolismo de Maria está no fato de ela ser uma mãe muito afetuosa, em busca da felicidade do filho. Ao mesmo tempo, assim como Fernanda, ela é uma mulher livre, leve com a sexualidade dela e com o lugar dela no mundo. Tanto que tentou levar adiante a maternidade solo, não avisou sobre a gravidez, quis ter esse filho de uma forma independente.

 

Qual seria a sua reação se outra mulher chegasse dizendo que tem um filho do seu marido? Isso abalaria o seu casamento?

Totalmente! Não tem como não abalar. A primeira coisa que eu faria seria tirar satisfação com o homem: “Como você deixou isso acontecer?”. Porque a responsabilidade é dele, é ele que tem um acordo comigo, não ela. Seria uma rasteira, viu? Um baque na lealdade, na confiança no outro.

 Você vive um relacionamento aberto. Isso seria considerado traição?

Na minha concepção, engravidar outra mulher é inconcebível. É uma quebra grave do pacto de lealdade com meu companheiro. Cada casal tem o seu pacto, inclusive as pessoas que são monogâmicas. Mas a ideia que as pessoas tradicionalmente têm de traição costuma ser diferente da minha. O conceito de fidelidade é muito arraigado de moralidade. Eu prefiro falar em lealdade.

É a primeira vez que você experimenta uma relação assim? O que a motivou?

É a minha primeira vez, sim. Dele, também. Este ano, completamos nove anos juntos. A gente começou a abrir o relacionamento faz uns três anos, depois que ouvimos pessoas à nossa volta falando sobre isso, experimentando. Achamos curioso e interessante. Paralelamente, desde 2015, eu venho estudando sobre o feminismo. Entrei nesse assunto de uma maneira intensa e apaixonada. Pelo estudo histórico da evolução da mulher na humanidade, entendi que a monogamia foi algo construído para nos controlar.

Partiu de você a proposta de fazer diferente?

Eu levei pra ele esse conhecimento, apresentei a proposta, mas a gente foi construindo o conceito em conjunto. Primeiro, filosoficamente; depois, na prática. É um posicionamento político. É sobre não permitir hipocrisia a dois, buscar honestidade, entrega real, parceria verdadeira.

E melhorou muito a vida em casal?

Muito, muito! Por incrível que pareça, eu fiquei menos possessiva, muito menos ciumenta. A gente vive entre Rio e São Paulo, temos casa aqui e lá por causa dos nossos trabalhos. Nas vezes em que ficávamos longe um do outro, eu me sentia muito insegura. Agora, não mais. Porque a partir do momento que há outras possibilidades e escolhemos um ao outro, de maneira tão consciente, isso só nos fortalece. E eu tenho uma relação com o Zé de muito romance, muito apaixonada. A paixão e a conquista estão vivas. Fez muito bem não só para o casamento, mas para o nosso namoro.

 No combinado entre vocês, um conta ao outro dos relacionamentos extras?

A gente fala tudo. Eu prefiro não dar detalhes dos nossos acordos, porque é uma coisa que as pessoas ainda estão experimentando, inclusive eu. As regras vão mudando conforme mudam as experiências. A monogamia é um modelo de relação que a gente vem repetindo há centenas de anos sem se perguntar por quê. No relacionamento não monogâmico, não existe modelo. E isso é o legal: você descobrir o seu próprio modelo. Então, eu não entrego quais são as minhas regras, para que eu também não vire um modelo para alguém. O que serve pra mim não serve pro outro.

Qual é a medida certa para não se magoarem?

O termômetro sou eu mesma. Se eu ficaria chateada, eu não faço com ele. Jamais quero magoá-lo. Jamais quero perdê-lo. Jamais quero destruir a minha relação. Então tudo o que eu faço é em prol disso, esse é o limite.

Você tem medo de que ele se apaixone por outra pessoa?

Esse medo também existe numa relação monogâmica. Às vezes, a gente se apaixona sem nunca ter beijado na boca da pessoa... A tal paixão platônica. Então, esse risco se corre o tempo todo. Assim como o risco do fim, o risco da morte. Só que você cria uma relação tão sólida, que esse temor não se faz presente.

Vocês discutem a relação sempre?

O tempo todo eu troco com ele. A gente conversa o que pode e o que não pode, o que é antiético. Criamos os nossos conceitos a dois. Não é o meu nem o dele, é o nosso. Para outra pessoa, até a não monogâmica, pode parecer estranho. Ela tem outras regras, outras buscas.

“Todo mundo trai ou pensa em trair”. Essa é uma verdade absoluta?

Acho que há pessoas muito comprometidas com seus pactos, inclusive homens. Eu mesma, fui casada durante anos e muito fiel. Mas a gente sabe que esse é um conceito falido. Você vai viver o resto da vida tendo desejo por uma pessoa só? É mentira, na maioria dos casos. 

Se vocês tivessem filhos, seria diferente?

Como não tenho, fica difícil dizer. Mas conheço casais com filhos e relacionamento aberto, numa boa.

Perto dos 40, você deve sofrer cobranças pela maternidade, mais do que nunca. Já contou ter congelado óvulos, pensando em ser mãe no futuro. Essa ideia se faz mais forte agora?

Ainda não. Vivo me forçando a ter vontade... Amo criança, sou madrinha de três, tenho uma relação próxima com eles. Mas nunca quis ser mãe. Usava a frase: “Daqui a dois anos”. E esses dois anos até hoje não chegaram (risos). Congelei óvulos aos 35 para ter a possibilidade da dúvida. Na nossa sociedade, qual o valor que eu tenho não colocando alguém no mundo? Eu nunca vou conhecer esse amor que dizem ser único? As perguntas ficam ecoando na cabeça. Na pandemia, pensei muito nisso. Mas, por enquanto, gosto da minha vida assim.

Você teve receio dos julgamentos quando passou a expor o que pensa, nos vídeos do Instagram?

Não, nem um pouco. E eu me sinto muito orgulhosa de mim por causa disso. De estar sendo porta-voz de uma liberdade feminina e de uma “não-moralidade”. A gente está num tempo hipócrita, perverso, de censura com o corpo e com o comportamento femininos. Num momento de maturidade pessoal e profissional, sou uma mulher pensante na quarta onda feminista.

 

Na vida, você sofreu preconceito e teve sua inteligência subjugada por ser uma mulher bonita?

Talvez, por ser atriz, minha imagem sempre tenha sido conhecida antes da minha consciência. Mas venho de uma família de intelectuais. Minha mãe é psicanalista, meu pai é um cara politizado. Inteligência é uma característica importante no nosso núcleo. Faço análise desde os meus 10 anos. Eu e minhas irmãs, somos três. Se tem uma coisa que nós somos é inteligentes emocionalmente. Isso me possibilitou me reinventar muitas vezes. Mesmo analisada desde cedo, luto constantemente contra a síndrome de impostora, de não me achar boa o suficiente.

Ano que vem, você completa 30 anos de TV (ela estreou em “Despedida de solteiro”, em 1992). É muita experiência! Acha que alcançou o seu lugar ao sol?

Curioso é que um set de gravações é onde eu me sinto mais à vontade na vida... Sei que ainda tenho muito a realizar. Desejo, por exemplo, interpretar tanto uma vilã engraçada quanto uma louca deprimida (risos). Mas encontrei, sim, o meu lugar ao sol. Vivo do que eu mais amo fazer, pago as minhas contas com o meu ofício. Acalento sonho, mas enxergo os meus privilégios e só posso agradecer.

 

  

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