Fernanda Paes Leme relembra isolamento social: 'Tive até um date virtual. A internet foi minha fuga da realidade.'

Em depoimento a Gilberto Júnior
Fernanda Paes Leme

Obviamente, eu já havia escutado sobre o novo coronavírus, mas parecia algo tão distante — uma coisa realmente da China. No dia 11 de março, no entanto, descobri que eu poderia ter entrado em contato com a Covid-19 num casamento na Bahia. Nessa semana, vários casos da doença foram noticiados e o inimigo não estava mais no outro lado do mundo. Por saber da gravidade da situação, me recolhi antes de fazer o teste. Dispensei minha funcionária, a Márcia, e fiquei sozinha em casa. Não fui à academia e deixei de ir ao salão pintar os cabelos brancos. Minha quarentena voluntária começou de forma suave; mostrava na internet meus pijamas... Dois dias depois da minha decisão, fiz o exame, ainda sem apresentar sintomas característicos. Eles não tardaram e surgiram na manhã seguinte. Tive febre leve e dor forte no corpo. O resultado também não demorou: eu estava infectada com o coronavírus.

Num primeiro momento, neguei! Para mim, eu estava bem. Mas, amigos, não é só uma “gripezinha”. Sete dias após o diagnóstico, levantei disposta e cheguei a fazer aula de dança virtual. O que pegava era apenas a tosse. No décimo dia, no entanto, veio a reviravolta. Uma intensa dor nos músculos da barriga. Tive medo. Achei que poderia morrer. Durante esse período, dividia meus temores com a Preta Gil, que havia sido contaminada no mesmo casamento. Nós tivemos conversas profundas e verdadeiras, que só entenderia quem estivesse passando pela situação.

O que me deixou mais tensa foi a possibilidade de ter prejudicado alguém. Tanto que entrei em contato com todas as pessoas com quem estive antes do dia 11 para alertá-las sobre o que estava acontecendo comigo. Por outro lado, lidei com tudo isso com muito otimismo. Minha saúde mental me ajudou no confinamento. Fui racional, calma e controlei somente o que estava ao meu alcance. A reação dos meus vizinhos também mexeu comigo. Moro em um condomínio na Barra da Tijuca e achei que todos iriam querer distância. Mas mandaram bolo de cenoura, abacaxi, melancia... Essa demonstração de carinho e solidariedade me fez chorar. Aliás, foi a primeira vez que chorei no isolamento. Mas não a única. Fiquei emocionada inúmeras vezes com os casos divulgados pela imprensa.

Duas mulheres foram essenciais nesse processo. A Lúcia (mãe do ator Bruno Gagliasso) tranquilizou minha mãe que estava longe e me abasteceu com comida saudável. E a arquiteta Fernanda Mancini, minha grande amiga, que fazia as compras no supermercado e deixava aqui na porta de casa. Recebi uma enxurrada de amor e tenho certeza que esses pensamentos positivos me fortaleceram. Fui bastante abraçada pelas redes sociais, que viraram meu barzinho, meu café, meus passeios... Tive até um date virtual! A internet foi minha fuga da realidade.

Quatorze dias depois dos primeiros sintomas, ganhei alta médica. Entretanto, sigo em quarentena, apesar de não transmitir o vírus. É perigoso pensar em lição quando passamos por algo tão grave. Não tenho a intenção de romantizar a história. Viver é não ter a certeza do que vem por aí. Mas espero que o mundo seja contagiado por empatia e compaixão. A gente não pode ser incapaz de enxergar outras realidades. Para mim, o sentimento é de alívio. Eu, minhas amigas e tantas pessoas estamos curadas (a voz embarga). Diante do espelho, percebo que mudei. Sou uma pessoa diferente. Não quero pensar em mim, pois temos tanta lição de casa, tanta coisa mais importante para fazer agora. Estou preocupada com quem não está numa posição privilegiada. Não consigo imaginar uma frase feita, de impacto.