Em dia de paredão, Flordelis, Silveira e Cury têm futuro em jogo

Matheus Pichonelli
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Congressmen are seen  while a monitor broadcasts Deputy Daniel Silveira speaking during a session at the plenary chamber of deputies in Brasilia, Brazil, February 19, 2021. REUTERS/Adriano Machado
O deputado Daniel Silveira fala durante sessão que manteve sua prisão. Foto: Adriano Machado/Reuters

No dia em que o país se mobilizou para expulsar Karol Conká, vilã número 1 da nação, do BBB21, com recorde de votação e audiência, o Conselho de Ética da Câmara mandou para o paredão dois deputados provisoriamente afastados de seus cargos.

Daniel Silveira (PSL-RJ) está preso desde que gravou, na semana passada, um vídeo xingando e incitando a violência contra ministros do Supremo Tribunal Federal. Flordelis dos Santos de Souza (PSD-RJ), acusada de tramar o assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, está livre, mas acaba de perdeu a imunidade por ordem da Justiça. Agora pode ser presa preventivamente, como Silveira.

Longe dali, na Assembleia Legislativa de São Paulo, deputados querem acelerar o processo contra Fernando Cury (Cidadania), deputado que apalpou a colega Isa Penna (PSOL) em dezembro, durante uma sessão. O caso está no conselho de ética da Casa e está prestes a ser julgado pelo plenário.

Quem acompanha os casos com atenção já pode pegar a pipoca.

Diferentemente de uma atração de TV, porém, os casos dos deputados na mira invertem a relação com o público, composto aqui um meros espectadores até serem chamados para votação em ano eleitoral. Quem vai decidir o futuro deles são seus pares, que terão os passos vigiados a partir de agora.

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O público só acompanha as sessões —e daqui a alguns anos vai julgar os participantes responsáveis por dizer se, nas regras de convívio parlamentar, alguém pode chegar por trás de uma mulher e apalpar seus seios ou descrever o sonho de ver um magistrado surrado na rua por algum tresloucado.

Com exceção de Flordelis, que supostamente agiu para não deixar pegadas, os outros dois deputados agiram com desenvoltura diante das câmeras, como se não pudessem ser julgados por seus atos. Podem ter entrado naquele módulo dos participantes de reality show que, conforme adentram naquela realidade vigiada e paralela, deixam de se pautar pelos olhos e julgamentos alheios e começam a pensar (em voz alta) de modo espontâneo.

No caso de Silveira, pode custar caro o auto isolamento imposto por quem chegou ao jogo pensando ter costas largas (aqui, no sentido só alegórico) e ficou na mão. Jair Bolsonaro, a quem devotou a lealdade de quem é capaz de matar e morrer, não se manifestou a favor do fã e aliado até o momento. Sem razão para salvar o colega, a maioria dos seus colegas decidiu, por 364 votos a 130, manter a sua prisão.

O caso será agora analisado em profundidade pelo Conselho de Ética da Câmara, composta por 21 deputados —12 deles votaram contra o colega na sexta-feira 19.

Nos próximos capítulos os espectadores saberão que fim levou o caso do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que ainda não foi julgado pelo Conselho de Ética da Câmara após defender o uso de um novo AI-5, o mais duro instrumento de perseguição da ditadura, para coibir manifestações de opositores. Poucos acreditam em uma punição exemplar ao filho do presidente.

Silveira e Flordelis podem ser a exceção em uma regra conhecida do paredão, que desde 2002 só ofereceu a punição máxima a um colega em 7 de 170 representações.

Prensada em duas frentes, a deputada está por um fio. Pelo entendimento da Justiça, há evidências de que a acusada tem usado seu poder para intimidar e persuadir testemunhas. Ela só não foi presa até agora por causa da imunidade parlamentar —que acaba de perder.

Em uma mensagem interceptada pela polícia, a deputada diz ao filho que a morte do marido era a única alternativa em jogo. “Separar dele eu não posso porque senão ia escandalizar o nome de Deus.”

De bem com o Pai Eterno, que não escandalizou, a deputada não se constrangeu em celebrar seu aniversário de 60 anos dias atrás no Ministério da Cidade do Fogo, em São Gonçalo (RJ). Como em todo reality show, a ressaca da festa mandou a fatura.

Nem todos nas Casas parlamentares têm se dado mal nas votações, entretanto. Na terça-feira 23, o Superior Tribunal de Justiça anulou a quebra de sigilo bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), outro filho do presidente, suspeito de comandar um esquema de “rachadinha” em seus tempos de deputado no Rio. Por maioria, os ministros da 5ª Turma da Corte entenderam haver problemas de fundamentação na ordem judicial que radiografou o suposto desvio. As investigações tiveram início após o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) identificar movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão nas contas de seu ex-assessor e amigo da família Fabrício Queiroz.

A decisão pode dar a Flávio Bolsonaro o status de anjo: com as investigações paralisadas, seu suposto operador financeiro, confinado em um sítio do advogado da família, em Atibaia (SP), pode agora ganhar imunidade e sair da prisão domiciliar, decretada após a coleta mensagens apreendidas a partir das quebras de sigilo agora anuladas.

E uma delas, sabendo que era vigiado, ele previa que o Ministério Público tinha uma “pica” do tamanho de um cometa para enterrar no grupo. O cometa pode virar marola.