Ferroviários britânicos iniciam maior greve em 30 anos

Os trabalhadores ferroviários britânicos iniciaram, nesta terça-feira, uma greve histórica de três dias, considerada a mais longa em 30 anos, para defender empregos e salários diante da inflação galopante. Seu impacto, no entanto, pode ser ofuscado pela nova capacidade de muitas pessoas de trabalharem em casa.

Brexit: UE abre processo contra o Reino Unido por violações de termos do acordo

Holofotes: Em crise interna, Boris Johnson busca liderar antagonismo à Rússia no impasse com a Ucrânia

Jubileu de Platina: Rainha Elizabeth II se torna a segunda monarca com o reinado mais longo da História

Família real: Entre modernidade e tradição, o futuro rei William completa 40 anos

Na manhã desta terça-feira, metade das linhas ferroviárias do país estava fechada; nas outras apenas um trem em cada cinco circulava. Somente 20% dos trens no país todo estava circulando, com a Escócia e o País de Gales entre as regiões mais afetadas, segundo a agência Bloomberg.

Em vez da multidão habitual da hora do rush, apenas alguns passageiros perambulavam pelo saguão principal da grande estação de King's Cross, em Londres, procurando nos quadros de avisos os poucos trens disponíveis. Apesar dos transtornos, a maioria simpatizava com a greve dos ferroviários.

— Tenho que viajar pelo país por causa do meu trabalho. Então hoje tenho que ir para Leeds. Não há tantos trens como de costume, mas consegui chegar lá — disse à AFP Jim Stevens, fotógrafo comercial, de 40 anos.

Surpreso com a tranquilidade da estação, Stevens acredita que as pessoas seguiram os conselhos da Transport for London (TfL), a operadora de transportes públicos de Londres, e trabalharam de casa, ou se locomoveram de bicicleta, carro e ônibus, embora estes últimos estivessem tão lotados que muitos não admitiram mais passageiros em algumas paradas.

Partygate: Boris escapa de nova multa enquanto polícia conclui investigação com 126 cobranças

'Tragam suas bebidas': E-mail revela que Boris Johnson deu festa enquanto Reino Unido estava em quarentena

Desculpas: Boris Johnson pede desculpas às equipes de segurança e limpeza pelo 'partygate'

Tamasine Hebaut, também de 40 anos e secretária, saiu de casa uma hora mais cedo do que o habitual. Chegou à estação de King's Cross e de lá decidiria como chegar ao bairro londrino de Battersea, na margem sul do Tâmisa.

— Talvez eu vá a pé. Tenho que ir, porque trabalho na área de saúde — explicou.

Após o fracasso das negociações de última hora com 13 empresas na segunda-feira, trabalhadores e empregadores permaneceram firmes em suas posições hoje. O ministro dos Transportes, Grant Shapps, denunciou a greve como "desnecessária", afirmando à emissora Sky que o movimento "está nos levando de volta aos dias nefastos de greves sindicais", uma referência aos anos 1970 e 1980.

I— Não é aceitável que atrapalhem negócios que estão começando a se recuperar. Estão prejudicando as pessoas que afirmam querer proteger — disse ele.

E mais: Veja cronologia da crise política enfrentada por Boris Johnson

O Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários, Marítimos e de Transporte (RMT, na sigla em inglês) alertou, no início de junho que mais de 50 mil trabalhadores ferroviários — 40 mil em todo o país e 10 mil em Londres — entrariam em greve "na maior disputa setorial desde 1989", época das principais privatizações das ferrovias britânicas, exigindo aumentos salariais em linha com a inflação crescente.

'Desordem criada pelo governo'

Além dos salários, a RMT denuncia a deterioração das condições de trabalho e as “milhares de demissões” previstas pela infinidade de empresas privadas que agora compõem o setor ferroviário britânico.

— O trabalhador britânico precisa de um aumento salarial — disse Mick Lynch, secretário-geral do RMT, à Sky News. — Eles precisam de segurança no emprego, condições decentes e um acordo em geral. Se conseguirmos isso, não teremos a ruptura na economia britânica que temos agora.

O governo enfrentou críticas de parlamentares da oposição por se recusar a se envolver nas negociações para resolver a disputa.

O primeiro-ministro Boris Johnson defende que os sindicatos estão dando um tiro no pé no momento em que o setor ferroviário, que recebeu 16 bilhões de libras (quase US$ 20 bilhões) em ajuda durante a pandemia, começa a se recuperar.

— Ao seguir em frente com essas greves ferroviárias, eles estão afastando os passageiros que, em última análise, apoiam os empregos dos trabalhadores ferroviários, ao mesmo tempo em que impactam empresas e comunidades em todo o país — disse.

O ministro Shapps, que não está oficialmente envolvido na negociação porque o governo não administra as ferrovias, assegurou, no entanto, que há uma oferta salarial "sobre a mesa", considerada insuficiente pela RMT, e que "os cortes [de empregos] são em grande parte voluntários". O ministro afirmou ainda que no futuro vai estudar como "proteger" os usuários dos transportes públicos, impondo um "serviço mínimo" ou substituindo os grevistas por trabalhadores temporários.

Lynch rebateu e disse que "essa bagunça foi criada pela política do governo".

Esta terça-feira será o maior dia de paralisação, já que os trabalhadores do metrô de Londres também entraram em greve, mas a paralisação continuará na quinta e no sábado. as interrupções serão sentidas todos os dias até domingo, alertou a operadora de transportes públicos de Londres.

Para os britânicos, isso aumentará o caos das últimas semanas nos aeroportos, que contam com longas filas e centenas de cancelamentos de voos, já que o setor aéreo não consegue contratar funcionários suficientes em meio à crescente demanda após o fim dos bloqueios.

A greve também ameaça atrapalhar grandes eventos esportivos e culturais, incluindo o festival de música Glastonbury, no sudoeste da Inglaterra, um show dos Rolling Stones em Londres, no sábado, e as provas finais de alguns alunos do ensino médio.

Mas em um contexto de inflação histórica, de 11% prevista para outubro, a greve ameaça se espalhar para outros setores, como educação, saúde e correios. Advogados criminais já votaram a favor de uma greve a partir da próxima semana.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos