Pós-Covid, goleiro vira herói da seleção handebol e projeta grupo difícil em Tóquio

Fernando Del Carlo
Brazil's goalkeeper Leonardo Tercariol reacts after making a save during the IHF Men's World Championship 2019 Group A handball match between Serbia and Brazil at the Mercedes-Benz Arena in Berlin on January 14, 2019. (Photo by Odd ANDERSEN / AFP)        (Photo credit should read ODD ANDERSEN/AFP via Getty Images)
Ferrugem durante o Mundial de Handebol de 2019 (ODD ANDERSEN/AFP via Getty Images)

A poucos meses da Olimpíada de Tóquio, em julho, um personagem do handebol nacional – cuja competição inicia dia 24 - já tem espaço garantido na história da modalidade. Sua vitalidade chama a atenção dentro e fora das quadras. Seu nome é Leonardo Vial Terçariol, de 33 anos, mais conhecido na seleção por Ferrugem, apelido que o goleiro recebeu do técnico cubano Daniel Suarez pela semelhança com o ator de sardas rosto e ruivo dos anos 80.

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O atleta nasceu em São Bernardo do Campo, tradicional polo da indústria automotiva no ABC paulista. Sua trajetória se confunde com uma série de provações. Estas vão desde contusão grave no joelho, passando pela oposição do pai para seguir na profissão. E a maior: ter superado a Covid-19. Por estes motivos e desempenhos fantásticos quebrou paradigmas e passou a ser chamado por entusiastas nas redes sociais de herói, algo que descarta. Mas classificou o Brasil para a Olimpíada japonesa em jogo emocionante contra o Chile no pré-olímpico de Podgorica (Montenegro).

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Após ser atestado no início do ano com novo coronavírus, teve de ficar de fora do Campeonato Mundial do Egito. Ganhou a bênção divina (o atleta é católico fervoroso e orou muito). Apenas sintomas leves que o deixaram de molho e obrigado ver seus companheirostorcendo pela televisão. Mas veio a recuperação da saúde e redenção em março numa competição que precisou ainda de combinações depois da partida final em que foi o protagonista para garantir o passaporte do Brasil para os Jogos. A seleção derrotou o Chile, de virada, por 26 a 24. E contou ainda com a ajuda do resultado da Noruega batendo a Coréia. Terçariol entrou no segundo tempo substituindo o outro goleiro César Bombom. Ao todo: 15 defesas no emocionante embate e vaga assegurada contra os rivais.

O gigante de 1,94m e 97 kg iniciou a carreira na equipe da Metodista em São Bernardo. E após passagens por vários times europeus, defende atualmente o Balonmano Benidorm (cidade turística à beira-mar na costa leste da Espanha). Questionado sobre a hipótese de o evento olímpico ser cancelado, Ferrugem nem pensa na possibilidade: “seria um baque muito duro no emocional. Afinal são cinco anos de preparação. No entanto, quando existe uma coisa (pandemia) que não está ao nosso alcance é fazer o melhor no handebol. Manter a preparação. E não esquecer de olhar a outra parte, seguindo protocolos para que o vírus não se propague mais”, afirma.

Fã do técnico brasileiro Bernardinho do vôlei e do multimedalhista olímpico, do nadador norte-americano Michael Phelps, e dos ex-goleiros campeões do handebol Andrej Lavrov (russo) e David Barrufet (francês), Ferrugem confia que no Japão o conjunto vai melhorar o desempenho do grupo de 2016 na Olimpíada do Rio de Janeiro. Evento este que a seleção chegou às quartas-de-final e terminou a competição no sétimo lugar.

Segundo ele, a experiência na bagagem contará muito para os duros confrontos na terra do sol nascente. “Nosso objetivo é sempre superar a classificação em disputas anteriores. Acredito que somos um time mais maduro do que no Rio.” Para ele, é oportunidade de produzir algo especial. Mesmo que a torcida nacional não esteja presente já que público estrangeiro foi vetado pelo comitê olímpico devido à Covid-19. Terçariol já esteve no Japão este ano em evento-teste na parceria entre brasileiros e governo japonês. Também julga importante estar vacinado e protegido contra o novo coronavírus. Mesmo motivado, o conjunto masculino brasileiro terá pedreira pela frente. Pois após o sorteio, o time caiu no Grupo A com Argentina e as poderosas Espanha, Alemanha, França e Noruega. Se tivesse caído na chave B, a vida do Brasil seria menos sofrida ao ter de encarar Bahrein, Egito, Portugal, Suécia e Japão. Mas neste grupo está a campeã olímpica e mundial , a Dinamarca. O atleta respondeu a entrevista através do aplicativo WhatsApp, respeitando o fuso-horário espanhol e o tempo disponível dele que vive com a namorada na Europa e o inseparável amigo Ghost, nome do cão da raça Golden Retriever em menção à série Game of Thrones.

Yahoo Esportes - Quando e como foi que passou a praticar handebol?

Ferrugem – Como todo brasileiro, iniciei no futebol aos 11 anos. Mas quem me levou para o handebol foi meu primo. Tive de ficar na casa dele na infância por conta de uma cirurgia que minha irmã faria. Eu o acompanhava em treinos e nunca mais parei. Meu pai preferia que jogasse futebol. E até achava que desistiria. Mas hoje é meu maior incentivador.

Por que a preferência pela posição de goleiro?

Era o mais novo de cinco primos, e tínhamos um time de futsal de vila. Eu não podia escolher muito aonde ir. Os mais velhos me mandavam pro gol, então fiquei e segui (risos).

Qual é a jogada no handebol que sobressai a performance do goleiro?

Neutralizar com defesas um contra-ataque e o tiro de sete metros (pênalti), os momentos mais duros para quem fica no gol.

Qual é sua trajetória de carreira, títulos e equipes?

O primeiro título foi no campeonato paulista de 1999, atuando na categoria mirim pela Metodista. Já na seleção, passei pelas categorias de base fazendo minha estreia em 2010 contra a Argentina. Depois veio o Mundial de 2011 na Suécia. E então rodei pela Europa: passei no Follo HK da Noruega, BM Ciudad Encantada da Espanha JS Cherbourg da França e atualmente defendo o CB Benidorm. Foram vários títulos, mas na Europa a única medalha que ganhei foi de vice-campeão da temporada passada com a Copa do Rei.

Qual o momento mais lindo na carreira? E o pior?

Tem dois momentos que guardo com muito carinho: o primeiro foi a vitória contra a Croácia no mundial de 2019. E o segundo e mais recente, a conquista da vaga olímpica. Já o mais duro foi minha lesão de ligamento cruzado anterior em 2014. O Covid-19 foi também difícil, mas por ter me tirado de um campeonato mundial. Já a lesão no joelho me afastou seis meses dos treinos e partidas.

Você pode descrever sua experiência após a Covid-19?

Por sorte eu não tive sintomas graves, apenas dor de garganta e o nariz um pouco entupido. Mas tive de assistir ao Mundial de casa foi muito triste, tinha me preparado muito e me sentia bem. Mas enfim a saúde em primeiro lugar e me encontro bem.

Como foi a classificação para a Olimpíada? E ser chamado de herói?

Foi um momento dos mais felizes que tive no handebol até hoje, um jogo tão decisivo pro handebol brasileiro e poder ajudar os meus companheiros. Foi sensacional, alguns torcedores me enviaram mensagens usando a palavra herói, mas eu não gosto desta palavra. Acho que fui uma peça em uma grande máquina que é a seleção brasileira.

Você vive de handebol, é profissional? Tem contrato fixo, como funciona?

Sim, vivo do handebol, as ligas são profissionalizadas. Até mesmo para morar aqui na Espanha o atleta precisa de visto e contrato de trabalho.

Qual seu objetivo quando parar de jogar? Tem projeto de estudo? Pensa posteriormente em ingressar em outra profissão?

Já ministro treino para categorias de base aqui no Benidorm. Também sou treinador específico para goleiros. Meu objetivo é fazer curso para treinador de handebol.

Há algum livro ou filme que lhe serviram de inspiração?

Sim. Entre os livros estão o do técnico brasileiro campeão mundial e olímpico de vôlei, Bernardinho, que terá como desafio dirigir a seleção francesa nos Jogos de Paris em 2024. O título da obra é Transformando suor em ouro. Já filme, há o do Coach Carter, o Treino para a Vida com Samuel L. Jackson.