Festas e viagens no carnaval podem agravar pandemia, que ainda sofre o efeito das aglomerações do período natalino

Johanns Eller, Raphaela Ramos, Rafael Garcia e Ana Beatriz Moda*
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O Brasil vive, em fevereiro, reflexos epidemiológicos das aglomerações no período de Natal e réveillon. Na avaliação de especialistas, o intervalo entre o contágio pelo novo coronavírus e o óbito, estimado em cerca de um mês e meio, ajuda a explicar paa última quinta-feira, 1.452 mortes foram notificadas no Brasil, o pior índice de 2021 e o terceiro maior desde o início da pandemia. Com a média móvel de óbitos acima de mil desde 21 de janeiro, as estatísticas das secretarias estaduais de saúde, compiladas pelo consórcio de veículos de imprensa formado por EXTRA, O Globo, G1, Folha de S. Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo, apontam para um padrão sólido acima de 1.200 vidas perdidas por dia. Para especialistas, se a “fatura” do Natal ainda não foi paga, eventuais descuidos durante o carnaval terão efeitos prolongados na epidemia brasileira.

— Temos hoje um repique relacionado aos eventos de fim de ano e suas aglomerações e podemos esperar que acontecerá de novo em função do carnaval. Não digo em relação às festas, mas ao feriado. Hotéis ocupados, pessoas viajando, um deslocamento grande — alerta a sanitarista da UFRJ Lígia Bahia.

Em dezembro, não foi a data do Natal em si que mais tirou as pessoas de casa, mas o período de compras de presentes e confraternizações de fim de ano, além das férias. No dia 25 do último mês do ano a mobilidade começou a cair e no dia 31, as pessoas se movimentaram menos, indicam dados de telefones celulares rastreados anonimamente pelo Google.

Para especialistas, na maioria dos estados, as aglomerações de dezembro têm relação direta com os atuais altos índices de mortes por Covid-19. O Rio de Janeiro sofreu essa alta antecipadamente, por ter tido grande circulação ainda em outubro, e hoje vê o número de óbitos cair um pouco.

— Na curva de óbitos e casos, o Brasil se manteve em alta o tempo todo, sem diferenças abruptas durante a pandemia, quase como se fosse um fenômeno natural. O vírus está à vontade o tempo inteiro, mesmo naquele momento em que houve uma redução — diz Bahia, que ressalta: — Nosso sistema (de saúde) não comportaria e nunca comportou a pandemia, com uma quantidade pequena de leitos. E a gente vem navegando nessa tempestade sem testes suficientes. Não temos um plano de (compra de) vacinas. As prefeituras estão politizando (a vacinação). Uma coisa é estar vacinando, outra coisa é garantir a cobertura vacinal, que é o que precisamos nesse momento e não está ocorrendo.

O epidemiologista da USP Paulo Lotufo diz que o carnaval poderá se somar a outros fatores que já exercem influência sobre o recrudescimento da pandemia, evidenciado pelo piso de mais de 50 mil casos diários e a média móvel acima de mil óbitos. E, nesse contexto, segundo ele, a pandemia deve avançar em março.

— Estamos pagando a conta do Natal, do réveillon e das férias. Após o contágio, demora 15 a 20 dias para (contabilizar) casos graves e quase um mês para a mortalidade. O carnaval vai entrar, reforçar (o cenário) e jogar (os reflexos nas estatísticas) para março — afirma Lotufo.

Somando os leitos de enfermaria e UTI, pelo menos 26,5 mil pessoas estão internadas com Covid-19 na rede pública no país. Embora o monitoramento dessas vagas seja importante para identificar eventuais deficiências na assistência médica intensiva e acompanhar o número de pacientes da Covid-19 hospitalizados, Lotufo alerta que oscilações positivas ou negativas na taxa de ocupação não significam, necessariamente, um reflexo epidemiológico da doença, porque o índice pode, por exemplo, cair mesmo quando houver um número maior de internações, caso a oferta de leitos seja ampliada.

Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de infectologia, Alberto Chebabo, com os grandes desfiles cancelados, as autoridades precisam estar atentas para outros tipos de aglomeração no carnaval:

— Como é um feriado grande, mesmo com prefeitos cancelando os eventos, as pessoas viajam e fazem aglomerações em cidades menores.

*Estagiária, sob a supervisão de Eduardo Graça