Festival de Brasília, o mais longevo evento de cinema no país, volta a ser palco de debates

O Festival de Brasília, mais longeva mostra do gênero do país, chega à 55ª edição com o objetivo de recuperar seu espaço de reflexão. Este papel lhe foi parcialmente impossível nos últimos dois anos, quando aconteceu apenas on-line devido à pandemia. A edição que começa hoje com a projeção de “Mato seco em chamas”, de Adirley Queirós e Joana Pimenta, um dos seis títulos que disputam os troféus Candango, retoma o formato presencial no Cine Brasília e, com ele, o compromisso de trazer o público de volta para o debate político e cinematográfico.

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— O festival é financiado pelo Estado, mas existe sem amarras. Queremos que ele volta a ser palco de grandes debates. Foi dessa forma que o projeto foi concebido e tem atravessado tantos anos — disse Bartolomeu Rodrigues, secretário de Cultura e Economia Criativa, durante o lançamento da programação.

A seleção de filmes promete fornecer assunto para alimentar discussões acaloradas até o encerramento das atividades, dia 20. São mais de 40 títulos espalhados por Mostra Competitiva, Mostra Brasília e eventos paralelos — o documentarista Jorge Bodansky é homenageado com uma pequena retrospectiva. A competição principal contempla temas como opressão do Estado (“Mato seco em chamas”), cotas raciais (“Rumo”, de Bruno Victor e Marcus Azevedo), arbitrariedade policial nas favelas (“Mandado”, de João Paulo Reys e Brenda Melo Moraes), busca de identidade (“Canção ao longe”, de Clarissa Camponila), religião (“Espumas ao vento”, de Taciano Valério), e proteção dos povos originários (“A invenção do outro”, de Bruno Jorge).

— Cada filme fala de problemas graves, urgentes — diz a produtora Sara Rocha, neta de Glauber Rocha e da atriz Helena Ignez, que assumiu a direção artística do festival este ano. — A ideia é olhar para os traumas e as dores que vivemos nesses últimos tempos, trazendo novos elementos. A programação foi costurada de forma a promover, ao final, uma reconciliação emocional.

Sem ineditismo

Sara conseguiu colocar o festival de pé apesar do cronograma e de problemas com o orçamento — o edital confirmando a realização do evento, orçado em R$ 2,5 milhões, só foi publicado em 14 de setembro. O atraso empurrou o festival de seu mês tradicional, setembro, para novembro, e a restrição de tempo fez com que a comissão de seleção passasse por “dias intensos”, diante da perspectiva de avaliar os 1.018 títulos inscritos. O critério do ineditismo acabou abandonado: “Mato seco em chamas” e “Canção ao longe” foram exibidos e premiados no Festival do Rio, em outubro.

— Pelo menos a prerrogativa dos filmes 100% inéditos no Distrito Federal foi mantida — consola-se Sara.