Festival de música no Rio busca o talento e a voz que vêm das comunidades

O sonho de subir ao palco de uma grande casa de espetáculos está mais perto de se tornar realidade para os artistas das comunidades do Rio. O Imperator, no Méier, na Zona Norte, vai receber no começo de fevereiro os finalistas do festival de música que promete encurtar o caminho até o estrelado para cantores, compositores e grupos musicais das mais de 700 favelas cariocas, numa trajetória que começa a ser traçada amanhã, com a abertura das inscrições, que, assim com as etapas intermediárias de seleção, serão pela internet, no site www.talentodafavela.com.br. O objetivo, segundo os organizadores, é facilitar a participação desse público. O prêmio principal será a gravação da música vencedora num estúdio profissional. Mas haverá também troféus e premiação em dinheiro.

— A gente quer dar oportunidade para novos talentos, a partir dos 18 anos. Queremos dar voz aos moradores das comunidades e mostrar que nelas há muitos valores que enfrentam dificuldades de serem revelados, por não terem as mesmas chances de quem mora em áreas privilegiadas — defende Sandro Capadócia, idealizador do Talento da Favela, inspirado no sucesso da Taça das Favelas, uma iniciativa da Central Única das Favelas (Cufa), que há mais de dez anos ajuda a revelar talentos do futebol.

Os candidatos deverão gravar um vídeo de até cinco minutos de uma música, que deve ser autoral e inédita, postar no YouTube e enviar o link junto com o formulário de inscrição para o site do festival. As composições vão passar pelo crivo de uma banca de jurados presidida pelo maestro Jorge Cardoso, que tem mais de 40 anos de produção musical com artistas que vão de Alcione a Elymar Santos, passando por Emílio Santiago. Atualmente ele é arranjador do CD dos sambas-enredos das escolas de Samba do Grupo Especial do Rio. Também vão compor o júri a cantora Jhusara, que já foi preparadora vocal do The Voice Brasil, da TV Globo, e o presidente regional da Ordem dos Músicos do Brasil, Celso Santana.

— Esse festival é importante pela oportunidade de mostrar o cantor e compositor sem chance de chegar à grande mídia, muitas vezes por não conhecer os caminhos para mostrar o seu talento — diz o maestro.

RI Rio de Janeiro (RJ) 03/11/2022 Festival de Talentos das Favelas - O evento vai premiar composições autorais e inéditas de músicos das comunidades e a final será no Imperator, no Méier. Sandro Ca...
RI Rio de Janeiro (RJ) 03/11/2022 Festival de Talentos das Favelas - O evento vai premiar composições autorais e inéditas de músicos das comunidades e a final será no Imperator, no Méier. Sandro Ca...

 

A semifinal e a final no que é considerado o principal palco do subúrbio serão abertas ao público, com entrada grátis e num show que contará com a participação de grandes atrações a serem reveladas. Por enquanto, estão confirmadas as presenças de Chacal do Sax e da Velha Guarda Musical do Império Serrano.

No concurso, o primeiro colocado receberá R$ 500 e terá sua música gravada em estúdio; o segundo leva R$ 300 e troféu; o terceiro, um troféu.

A organização quer mobilizar associações de moradores e lideranças comunitárias para incentivar a participação dos artistas das favelas. O presidente da Associação de Moradores da Cachoeirinha, Renato Santos, já começou a divulgar a iniciativa entre moradores do Lins.

— É uma oportunidade única que ajuda a mostrar que as favelas produzem coisas boas e talentos nas mais diferentes áreas, da cultura ao esporte. Muitos artistas saíram das comunidades, mas ainda são minoria — diz, citando Xande de Pilares, que iniciou sua trajetória no Morro da Chacrinha, onde passou a infância, e Nego do Borel, cria da comunidade da Tijuca que carrega no sobrenome artístico.

Prontos para serem descobertos

A oportunidade de mostrar seu talento para fora da favela já mobiliza alguns artistas de comunidades, como Letícia Jesus, a Le Jesus, de 26 anos, moradora na Vila do João, no Complexo da Maré. O envolvimento da jovem com música vem da infância. Ela canta e compõe samba-enredo e já atua como intérprete em algumas escolas do Grupo de Acesso do Rio — Império da Tijuca e Leão de Nova Iguaçu — e agremiações do Espírito Santo, como Rosa de Ouro e Jucutuquara, além de ser a intérprete da novata Guardiões da Capadócia, do Grupo de Avaliação da Superliga do Rio.

— Temos grandes talentos nas comunidades, mas nos falta oportunidade. A esperança é que esse festival dê voz à favela e ajude a despertar novos valores — acredita ela, fã de Alcione e Beth Carvalho.

Thuanny Rosa, de 27 anos, é do funk e do rap. Seu sonho é cantar num grande palco.

— Vai ser maravilhosa a chance de estar no Imperator! Já sonho com esse dia — revela a jovem, que começou a cantar aos 8 anos.

Sérgio Ferreira tem 23 anos e, com o nome artístico de Og Noturno, há cerca de sete vem se destacando nas batalhas de rima do Jardim Bangu, onde mora.

— Vou fazer meu vídeo e tenho certeza de que quem for avaliar vai gostar. Quero muito ter oportunidade de mostrar meu talento — afirmou o rapaz, que começou como técnico de som, carregando equipamentos nas batalhas de rima, até assumir o microfone.

Candidatos podem gravar com celular

Idealizador do Talento da Favela, Sandro Capadócia explica que a gravação pode ser feita da maneira que o concorrente achar mais conveniente e com os equipamentos que tiver em mãos, inclusive telefone celular. O que será avaliado, segundo ele, é a qualidade da música e não, do vídeo. O maestro Jorge Cardoso explica a importância do prêmio principal: a gravação da música vencedora em estúdio.

— A gravação será em estúdio profissional, com tratamento profissional de produção, arranjos, músicos e etc. Representa a porta aberta para que o vencedor possa começar sua caminhada para apresentar seu trabalho e seu talento. Gravar em estúdio profissional deixa ele em igualdade de condições com outros artistas na disputa por um lugar ao sol — explica Jorge Cardoso.

O festival é produzido pela Capadócia Produções e Eventos, que busca parceiros para torná-lo anual e levá-lo a outros estados do Brasil.