FH, Lula e Dilma participam de encontro virtual no Dia do Trabalho

Dimitrius Dantas

SÃO PAULO - Com a presença virtual dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, as principais centrais sindicais do Brasil realizaram nesta sexta-feira, de forma virtual, a comemoração do Dia do Trabalho. O evento, que durou pouco mais de seis horas, reuniu os principais nomes da oposição ao presidente Jair Bolsonaro, mas os políticos não deram sinal da formação de uma frente ampla.

Essa foi a primeira vez desde 1989 que Fernando Henrique e Lula participaram do mesmo ato político. Naquele ano, o PSDB apoiou o então líder sindical no segundo turno das eleições presidenciais contra Fernando Collor.

Em seus discursos, gravados previamente, os políticos criticaram as políticas do atual presidente, mas pouco citaram diretamente Jair Bolsonaro, preferindo celebrar as lutas dos trabalhadores.

Em sua mensagem gravada, o ex-presidente Fernando Henrique destacou a proposta de se realizar uma única celebração, apesar das divisões políticas.

-- Não é hora de nós nos desunirmos, é hora de nós nos juntarmos, porque temos que construir o futuro e o futuro tem que ser construído a partir das condições do presente. São negativas, eu sei, mas são as que nós temos. E nós precisamos de, antes de mais nada, capacidade de olhar para frente, acreditar no futuro e juntar as pessoas para que possam marchar juntas -- afirmou o ex-presidente.

Na sua mensagem, o ex-presidente Lula prestou solidariedade às vítimas do coronavírus. Segundo ele, a crise expôs as fraquezas do capitalismo.

-- Mas as grandes tragédias também são reveladoras do caráter das pessoas e das coisas. Não me refiro apenas ao deboche do Presidente da República com a memória de mais de 5 mil brasileiros mortos pela Covid. A pandemia deixou o capitalismo nu. Foram necessários 300 mil cadáveres para a humanidade ver uma realidade que nós trabalhadores conhecemos desde o dia em que nascemos -- disse o ex-presidente.

Nesta semana, O GLOBO revelou que, após a manifestação do ex-presidente Fernando Henrique, em suas redes sociais, a favor da renúncia de Jair Bolsonaro, lideranças da esquerda tentam articular a construção de uma frente ampla pelo afastamento do atual presidente. A ideia seria atrair partidos como o PSDB, o DEM, o Novo e o Cidadania.

No final de março, um manifesto pela renúncia do presidente contou com as assinaturas de Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL), Flávio Dino (PCdoB) e Alessandro Molon (PSB), mas não conseguiu atrair nomes do centro. Mesmo após a crise causada pela saída do ex-ministro Sergio Moro do governo, os partidos ainda são reticentes em aderir a um movimento que peça a saída de Bolsonaro.

A comemoração do Dia do Trabalho também contou com a presença de alguns músicos e artistas, como Osmar Prado, Paulo Betti, Zélia Duncan, Leci Brandão e do ex-integrante do Pink Floyd, Roger Waters.

A ex-presidente Dilma Rousseff fez o discurso mais duro contra o presidente Jair Bolsonaro, criticando a falta de medidas econômicas contra as vítimas da doença.

-- Irresponsavelmente, Jair Bolsonaro desdenha da doença, zomba dos mortos e avilta a cadeira de Presidente da República. No Palácio do Planalto, hoje, está um líder político que não se envergonha de promover a desordem e a destruição da ordem democrática, apoiando protesto contra as instituições da República. Essa epidemia do Covid-19 ganha contornos ainda mais graves no Brasil -- afirmou a ex-presidente.

Ex-ministro e governador, Ciro Gomes (PDT) alertou que a situação econômica do país já era ruim antes da crise.

-- Todo esse conjunto de conquistas históricas tem sido desmontado aproveitando o desespero em que se encontra, no caso brasileiro, mais da metade da população. É importante lembrar que o Brasil contava com mais de 13 milhões de desempregados antes da crise do coronavírus e 38 milhões estavam obrigadas a viver a dura realidade da informalidade sem nenhuma proteção -- disse Ciro.

A ex-ministra e senadora Marina Silva (Rede) afirmou que esse é o Primeiro de Maio mais difícil do século.

-- Em função dos problemas que já estávamos sofrendo com o desemprego, as injustiças sociais e agora com todas essas questões sendo agravadas de uma forma assustadora pela pandemia. É por isso que é fundamental que a gente esteja unido em torno daquilo que é essencial: a defesa da vida, a proteção dos direitos e a defesa da nossa democracia -- disse Marina.