'Ficamos com muito medo, foi desesperador', conta marinheiro de navio que bateu na Ponte Rio-Niterói

Marinheiro de máquinas, em uma embarcação sem motor, Carlos Alberto Almeida, de 52 anos, vinha desempenhando, ao lado de outro tripulante, mera função de vigia a bordo do graneleiro São Luiz. Parecia mais um dia de trabalho normal até que, por volta das 17h da última segunda-feira, foi notada movimentação diferente na proa. O vento que soprava a mais de 57 quilômetros por hora preocupou a dupla que toma conta do navio parado na Baía de Guanabara desde 2018. Quando a amarra da âncora se rompeu, Carlos telefonou imediatamente para o advogado da empresa que administra a embarcação, que teria entrado em contato em seguida com a Capitania dos Portos, mas não houve resposta. Procurada pelo EXTRA, a Marinha não se manifestou.

A saída foi, então, acionar a âncora de emergência, já que o motor do São Luiz não opera há anos. Foram 30 minutos de desespero até que a imensa embarcação passou a flutuar, à deriva, rumo aos pilares da Ponte Rio-Niterói.

— Quando a gente viu que o navio ia bater já não tinha mais o que fazer. Ficamos com muito medo. Medo de morrer. Não conseguimos chamar os rebocadores e também não conseguimos ativar a âncora de emergência. Ela estava travada. Imagina se o navio derruba a ponte e um carro daqueles cai na água? Foi desesperador — contou o marinheiro, indignado com a indiferença das autoridades. — Os rebocadores viram a gente aqui e a Marinha também. Não perguntaram em nenhum momento se a gente estava bem. Só se preocuparam com o navio. E se acontecesse algo de grave com a gente? Fiquei chateado porque só falam da situação do barco, mas não falam do ser humano dentro dele.

O navio, construído em 1994, não opera desde o início de 2016, quando chegou ao Rio e foi ancorado na Baía de Guanabara. Permanecia, até então, preso pela âncora de 7,5 toneladas, que mantinha a embarcação de 244 metros de extensão por 30 de largura fundeada. Carlos Almeida ressalta que, mesmo que os motores funcionassem, seriam necessários pelo menos quatro funcionários para acioná-los e levaria cerca de uma hora para fazer a embarcação se movimentar.

— Estamos contratados como auxiliares de serviços gerais, mas o trabalho da gente é só de vigia. O navio não tem nem energia porque não tem gerador. O rapaz da empresa traz comida uma vez por mês — disse o funcionário, que diz ter formação de marinheiro de máquinas.

O emprego precário no graneleiro foi alvo de uma operação do Ministério Público do Trabalho contra a empresa que administra a embarcação, em novembro de 2021. A inspeção constatou, na época, que dois funcionários atuavam em condições análogas à escravidão, sendo Carlos Almeida um deles. No processo, a empresa firmou um acordo para pagar R$ 162 mil de indenização, metade para cada empregado. De acordo com relatório dos fiscais, eles nunca receberam décimo terceiro e férias e não tinham a carteira assinada. Paulo Veloso, advogado da empresa, nega que houve atividade análoga à escravidão.

O São Luiz tem quatro tripulantes que se revezam no serviço: cada dupla trabalha 15 dias e folga nos outros 15. Sua função é impedir a ação de invasores, que buscam furtar materiais metálicos.

Para o capitão de longo curso da Marinha Mercante Cesar Vallaperde, acidentes com embarcações degradadas costumam ocorrer por falha humana ou falta de manutenção.

— O fato de o navio estar vazio o torna mais leve. A parte vélica, ou seja, a parte que fica acima do nível da água, acaba se tornando uma espécie de vela. Com a força do vento, a amarra da âncora, muito enferrujada devido à falta de manutenção, se rompeu, e o navio foi arrastado — explicou.

Segundo Vallaperde, em caso de ventos fortes, como ocorreu, a Capitania dos Portos emite um alerta para as embarcações cadastradas.

— Se o navio estiver descomissionado, ou seja, sem tripulação operacional a bordo, pode ser classificado como uma balsa (e não recebe o alerta). Só que uma embarcação que não tem mais máquinas para operar precisa ser sinalizada à Capitania dos Portos e iluminada à noite, justamente para evitar acidentes. Sem isso, a embarcação se torna um navio fantasma.