'Ficava sem comida e apanhando', diz mulher mantida em cárcere privado por 17 anos no RJ

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - "[A gente] ficava sem comida, sem água e apanhando... Meus filhos, também amarrados, apanhavam de fios e [ele] enforcava a gente também", relatou Edna, 40, sobre os maus-tratos sofridos durante os 17 anos em que foi mantida com os dois filhos em cárcere privado numa casa insalubre no bairro Guaratiba, na zona oeste do Rio de Janeiro.

Os três foram libertados na quinta-feira (28) pela Polícia Militar. O marido e pai das vítimas —um garoto de 19 e uma garota de 22— foi preso e levado à 43ª Delegacia de Polícia. A corporação não informou se ele, que não teve o nome divulgado, prestou depoimento e se tem advogado.

Em entrevista para a TV Globo neste sábado (30), a mulher confirmou os relatos de vizinhos de que o marido mantinha música alta durante a noite para abafar os gritos da família. "[Ele] já era agressivo, mas no decorrer dos anos foi piorando mais as agressões", afirma Edna, que está provisoriamente morando na casa de parentes em Senador Camará, também na zona oeste do Rio.

Ela e os filhos foram encontrados com quadro de desnutrição e desidratação grave e ficaram internados no Hospital Rocha Faria, em Campo Grande, até este sábado.

"Ele [meu filho] nunca tinha visto ninguém. Só via ela [minha filha] e ele [o agressor]", contou, sobre o filho mais novo.

A mulher disse que, há cerca de dois anos, tanto o Conselho Tutelar como agentes de saúde da família chegaram a visitar a residência, mas nenhuma medida foi tomada. "O pessoal do Conselho Tutelar esteve lá, só que foi uma vez só, mas não voltou. Agente de saúde foi e cadastrou a gente na Clínica da Família, falou que era para ele [o agressor] levar a gente lá, só que ele não levou", relatou na entrevista.

Em nota, o Ministério Público do Rio de Janeiro informou que investiga a atuação do Conselho Tutelar à época. A Promotoria afirma que, apesar de haver comprovação da ação inicial do órgão em março de 2020, "não houve nenhuma informação posterior enviada ao Ministério Público no sentido de que a violência não fora estancada".

À reportagem, a irmã da mulher, que pediu para não ter o nome divulgado, disse que nunca deixou de procurá-la.

"Nunca desisti de procurar minha irmã. Consegui um suposto telefone dele que não atendia, depois procurei no Facebook até um dia que achei o telefone certo dele. Ele não queria contar onde estavam morando. Acho que ela viu meu número e gravou, porque ela conseguiu passar para a vizinha."

Segundo a irmã, a vítima e o agressor são primos de primeiro grau por parte de mãe. Ele, mais velho, é da Bahia, enquanto ela é do Rio.

No começo da relação, quando o casal ainda morava no bairro Senador Camará, os familiares auxiliavam nas crises de ciúmes do marido, mas assim que nasceram os filhos o agressor decidiu sumir com a família, relata a irmã da vítima.

A Folha esteve no local nesta sexta-feira (29) e, ao ver o interior da casa pela única janela possível, identificou uma cama de ferro enferrujada, um colchão manchado e um pote de margarina com líquido amarelo ao pé. Lixos e sacolas estavam espalhados pelo chão sujo.

Vizinhos relataram que nos últimos 20 anos foram raras as vezes que viram a mulher e os dois filhos.

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