‘Ficou o tempo todo olhando para o corpo’, diz testemunha sobre engenheiro que matou juíza no Rio

Felipe Grinberg Rafael Nascimento de Souza e Vera Araújo
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Foto: Divulgação

A Justiça do Rio determinou o bloqueio de R$ 640 mil encontrados em contas bancárias do engenheiro Paulo José Arronenzi, de 52 anos, que matou a facadas sua ex-mulher, a juíza Viviane Vieira do Amaral, de 45, na véspera do Natal. O objetivo da decisão, tomada pelo juiz João Guilherme Chaves Rosas Filho no sábado, durante o plantão judiciário, é impedir que o dinheiro possa ser enviado para o exterior: o autor do feminicídio tem cidadania italiana e, mesmo preso, teria condições de fazer transferências por meio de terceiros.

O valor passa a ficar disponível para o sustento das três filhas do casal, que estão com a avó materna. As meninas, com idade entre 7 e 9 anos, presenciaram o crime, ocorrido na Barra. Os processos de bloqueio das contas e de concessão da guarda definitiva das crianças para a mãe de Viviane estão sendo acompanhados pelo advogado Alexandre Flexa, contratado pela Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro para dar assistência à família.

Ontem pela manhã, o EXTRA localizou duas testemunhas do feminicídio, que lembraram os momentos que o antecederam e os subsequentes. Uma delas contou que viu Paulo José com uma mochila nas costas minutos antes de Viviane chegar de carro com as três filhas para encontrá-lo.

— Ela e as crianças desceram. Os dois (Viviane e Paulo José) falaram algo e, em seguida, ele começou a atacá-la a facadas. Corri, mas, quando cheguei perto, já era tarde demais — lembrou a testemunha, que completou: — Falei para ele não sair dali até a chegada da polícia. Em nenhum momento esboçou reação. Durante os minutos que sucederam a morte da mulher, ele não falou muita coisa, só disse que não iria fugir. Ficou o tempo todo olhando para o corpo. Em seguida, clientes que haviam acabado de sair de um restaurante próximo correram até uma base da Guarda Municipal e chamaram agentes, que o algemaram.

Uma outra testemunha contou ao EXTRA que estava deixando um centro comercial da área quando ocorreu o crime. Ela e um amigo tentaram acalmar as crianças.

— Oferecemos picolés e água para tirá-las dali. Nós as levamos para dentro de uma loja. Elas só beberam água. Durante todo o tempo perguntavam se a mãe estava bem. Tenho uma filha de 3 anos, foi uma situação difícil demais para mim. Espero que o assassino fique muitos anos na cadeia — disse a testemunha.

Ela afirmou ainda que viu o assassino segurando um objeto pontiagudo, que, até a manhã de ontem, não havia sido encontrado por investigadores. Na mochila de Paulo José, policiais acharam três facas, mas a perícia concluiu que nenhuma delas foi usada no crime.

A Delegacia de Homicídios da Capital já ouviu depoimentos de cinco pessoas sobre o crime: uma jornalista, um motorista de aplicativo, dois guardas municipais e um policial militar. Segundo o delegado Moysés Santana Gomes, titular da especializada, mais testemunhas serão ouvidas esta semana.

Mensagem para as amigas

Viviane foi morta enquanto entregava as filhas para passar a noite de Natal com o pai. Chegou a comprar presentes para as crianças lhe entregarem. Havia, um mês atrás, dispensado uma escolta cedida pelo Tribunal de Justiça do Rio para protegê-la do ex-marido, que a ameaçou de morte em setembro, após empurrá-la. Ela passou os últimos dias de vida despreocupada: três horas antes de ser assassinada com 16 facadas, enviou uma mensagem de WhatsApp com votos de paz e felicidade para um grupo de juízas, informou ontem o “Fantástico”, da Rede Globo.

Paulo José, que está preso em Bangu 8, deve ser submetido hoje a um exame psiquiátrico. Seu advogado, Igor de Carvalho, disse à Justiça que o engenheiro precisa tomar remédios de uso controlado na cadeia, e foi determinada a avaliação de um perito para atestar se há mesmo a necessidade de o autor do feminicídio fazer uso da medicação.