Fiesp decide destituir Josué Gomes da presidência, mas votação será questionada

A oposição ao presidente da Fiesp, Josué Gomes da Silva, dobrou a aposta no conflito com o empresário e, na assembleia feita nesta segunda-feira na sede da entidade, conseguiu a maioria dos votos para destituí-lo do cargo. Foram 47 votos para retirá-lo do cargo, duas abstenções e um voto a favor para sua permanência. O grupo ligado a Gomes, porém, vê a votação como ilegal. Agora, deve se iniciar uma disputa jurídica.

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A votação ocorreu no mesmo dia em que Gomes buscou demonstrar força ao trazer à sede da Fiesp para um almoço com os sindicatos o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB).

A assembleia durou cerca de quatro horas e meia. Primeiramente, os sindicatos reprovaram, por 62 a 24, os argumentos dados por Gomes aos questionamentos sobre sua atuação no cargo, a maioria de cunho político. Assim que essa votação terminou, Gomes deixou o local, segundo pessoas presentes no encontro. Na sequência, sem a presença do dirigente, os sindicatos patronais remanescentes abriram uma segunda assembleia, com quórum menor, e aprovaram a destituição do presidente por 47 votos a favor, 1 voto contra e 2 abstenções. A razão teria sido "grave violação do estatuto" e "conduta incompátível com a ética".

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O encontro foi marcado por gritos de ordem e um clima quente, de acordo com pessoas familiarizadas com o assunto. Na interpretação do ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior, que defende Josué Gomes no caso, a votação que decidiu pela queda do presidente foi ilegal.

Para membros do grupo oposicionista ouvidos pelo GLOBO com a condição de anonimato, no entanto, a destituição é legítima e, pelo estatuto da Fiesp, agora deverá assumir o comando da federação interinamente o mais velho entre os 24 vice-presidentes da entidade: Elias Miguel Haddad, de 95 anos, opositor de Gomes e dirigente do setor têxtil. A tendência é de que, caso seja confirmada a destituição de Gomes, assuma o restante do mandato de quatro anos seu primeiro vice-presidente, Rafael Cervone, presidente do Ciesp e próximo a Skaf.

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Há quase dois meses, o presidente da maior entidade empresarial do país enfrenta acirrada oposição de um grupo de dirigentes fomentada pelo seu antecessor no cargo e até então padrinho, o bolsonarista Paulo Skaf.

Aproveitando-se da histórica máxima de que empresários brasileiros não costumam comprar briga com o governo federal por receio de prejudicarem os negócios, Josué anunciou ainda a presença do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT) na próxima reunião da diretoria da Fiesp, no dia 30 de janeiro, e do ministro do Trabalho, Luiz Marinho (PT), para o seguinte encontro da cúpula da entidade, em 6 de fevereiro.

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Gomes chegou a ser convidado por Lula para assumir o Mdic, mas recusou. Quando anunciou o nome de Alckmin para o cargo, em dezembro, Lula chamou a disputa na Fiesp de "tentativa de golpe”.

Segundo interlocutores do movimento de oposição a Gomes, a demontração de força foi vista também como um ato de desespero e não foi suficiente para levar o grupo à desistir da ofensiva.

Na assembleia, o grupo oposicionista buscou dar um verniz ético à movimentação contrária a Gomes questionando, por exemplo, a nomeação do ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho para o conselho de micro, pequena e média empresa ao mesmo tempo em que sua consultoria Macrotempo prestava serviços à entidade. Dirigentes sindicais afirmaram a Gomes que viam um conflito ético na contratação da empresa.

O pano de fundo da disputa, no entanto, tem menos a ver com corrupção e mais com disputa política. De estilo reservado, Gomes colecionou inimizades ao longo de um ano na Fiesp por deixar de atender a pleitos de entidades patronais de menor porte, que tinham excelente relação com Skaf.

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Após 17 anos à frente da Fiesp, Skaf escolheu Gomes como sucessor em 2021 e trabalhou para que ele e seu vice, Rafael Cervone, fossem candidatos em uma chapa única na Fiesp. De fato, ambos só enfrentaram oposição no voto na disputa pelo Ciesp, em que Cervone se elegeu presidente e Gomes, vice.

A relação de Gomes com Skaf, no entanto, azedou poucos meses depois. Segundo dirigentes de entidades patronais, foi decisivo para o afastamento de ambos a postura de Gomes como articulador do manifesto empresarial pró-democracia que foi visto pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL) como uma afronta pessoal.

Questionada sobre o assunto a assessoria da Fiesp afirmou que não acompanhou o tema.