Filósofo explica por que Europa unida é uma solução, mas também um problema

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Faz de conta que Marine Le Pen foi eleita no último dia 24. A França e a União Europeia provavelmente estariam hoje de ponta-cabeça em meio a uma de suas promessas, de reformar o bloco por dentro —seja lá o que isso signifique.

A ultradireitista, antieuropeísta de longa data, buscou atenuar sua imagem radical nesta última campanha e adaptou a que talvez fosse sua bandeira mais radical em outras eleições: tirar o país da UE. A concretização desse plano teria sido infinitamente mais grave do que se deu no Reino Unido pós-brexit, em 2016.

Sem a França, o bloco teria um buraco territorial entre Alemanha e Espanha, com todos os problemas logísticos que essa loucura criaria. E estaria também destruída uma cumplicidade política que Paris e Berlim construíram desde 1957, quando o Tratado de Roma criou o Mercado Comum Europeu, instituição bem mais modesta que a atual União Europeia.

De certo modo, a Europa unida é uma solução, mas também um problema, de acordo com a conclusão de quatro conferências feitas em março do ano passado, em Paris, no Collège de France —instituição que ensina de tudo em altíssimo nível.

O conferencista foi o filósofo e cientista político holandês Luuk van Middelaar, ex-assessor em Bruxelas do Conselho Europeu (que reúne governantes dos 27 países do bloco) e hoje, aos 48 anos, um dos nomes em ascensão entre intelectuais do continente.

As palestras, reunidas sob o título "Da Crise Ucraniana à Pandemia: A Europa, um Thriller Geopolítico", foram ao ar pela France Culture, emissora pública de rádio popular entre a elite cultural. Os podcasts, em francês, estão disponíveis na internet.

O filósofo não traz a herança dos construtores da Europa dos anos 1950, que acreditavam estar montando um espaço de paz —algo precioso num século com duas guerras mundiais— em razão da estreita interdependência comercial de suas economias. Middelaar acredita que o propósito da Europa seja hoje a divisão.

Um primeiro exemplo. Ela se dividiu em 2015, quando a Turquia ameaçou escoar pela Grécia (membro da UE) uma multidão inimaginável de refugiados sírios. Ao lado de uma sutil xenofobia da classe média, os governos disputavam para receberem cotas menores de imigrantes.

O continente igualmente se dividiu em 2014, quando da primeira guerra na Ucrânia: França e Alemanha acreditavam que suprir aquele país com armas mais sofisticadas significaria aumentar de forma criminosa o número de mortos provocado pela geopolítica russa. Novos arsenais eram defendidos por chancelarias europeias, como a britânica, mais próximas dos Estados Unidos.

E nova divisão veio com a Covid-19. No início de 2020, nenhum país-membro compartilhou com a Itália seus estoques de máscaras ou respiradores. O governo de Roma foi o primeiro a lançar um apelo a seus parceiros europeus. O número de mortos em Bérgamo só não foi maior porque um produtor externo, a China, partiu para maciças exportações aos italianos de máscaras, remédios e equipamentos.

A pandemia, diz o filósofo holandês, levou a Europa a abandonar um de seus mais sólidos axiomas, aquele que considerava a fronteira um fator secundário e desprezível. Os europeus seriam "alérgicos" às fronteiras. Afinal, a integração partia do pressuposto de que o bloco dispunha de um território contínuo, para, segundo o bordão, a ampla e livre circulação de mercadorias, ideias e pessoas.

Vejamos outras veias europeias que o filósofo holandês espetou. "Sem consistência geopolítica, a Europa não passará de um brinquedo nas mãos das potências." Estas últimas não são apenas os EUA e a China, mas também países menores que conseguiram colocar os europeus em xeque. Aconteceu com a aparentemente fraca Turquia, que bate às portas de Bruxelas sem que a deixem entrar para ocupar uma cadeira de país-membro.

O presidente turco, o autoritário e populista Recep Tayyip Erdogan, conseguiu encostar a UE na parede durante a crise dos refugiados de 2014-2015. Exigiu e obteve ajuda material para respeitar as fronteiras gregas que, se ruíssem, levariam de modo descontrolado os refugiados até a fronteira da Áustria. Erdogan demonstrou mais força que o Marrocos (ao negociar com a Espanha o fechamento do corredor para refugiados) ou que a Líbia —ou o que sobrou dela— com relação à Itália.

Luuk van Middelaar é cuidadoso ao abordar a China como fornecedora, bem mais do que cliente, de produtos europeus. Ela tem como plano estratégico se colocar à frente de toda tecnologia, sobretudo a bélica e a espacial. Seus planos são facilmente definidos em razão de um regime bastante centralizado e da inexistência de canais de expressão democrática pelos quais a população discutiria seus eixos de prioridade.

A China, diz o filósofo, com a pandemia deu um salto qualitativo em seus planos de grandeza. Dois exemplos disso que passaram despercebidos: a primeira carga de máscaras que enviou à Itália aterrissou em Roma, centro político, não em Milão, cidade ao redor da qual proliferava o coronavírus. E o regime de Pequim —enquanto o americano Donald Trump qualificava o Sars-CoV-2 de "vírus chinês"— atrelou-se à Alemanha e sugeriu por mensagens eletrônicas que o governo da então primeira-ministra Angela Merkel elogiassem seu desempenho. Foi o que ela fez discretamente, para ajudar uma queda de novas contaminações e do número de mortos.

Guardadas todas as proporções, a Alemanha virou por algumas horas o cachorrinho obediente ao lado da poltrona do dirigente chinês Xi Jinping. Não foi bem essa a comparação feita por Middelaar. Mas ele chegou bem pertinho dela.

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DA CRISE UCRANIANA À PANDEMIA: A EUROPA, UM THRILLER GEOPOLÍTICO

Onde: Na France Culture (franceculture.fr), em francês

Elenco: Luuk Van Middelaar

Duração: Quatro episódios, de 58 min cada um

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