Filas por prato de comida crescem no Rio de Janeiro

Eugenia LOGIURATTO
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Homem dorme em rua do Rio de Janeiro, dezembro de 2020

Um grito vem da multidão quando a fila começa a andar: "Comidaaa, comidaaa!". São centenas de pessoas desesperadas por um almoço decente no centro do Rio de Janeiro, uma cena cada vez mais frequente desde o início da pandemia.

Gestantes, idosos, mendigos de várias idades se reúnem sob o forte sol do meio-dia para conseguir receber uma refeição distribuída pelo governo do Rio. O cardápio? Ensopado de carne e pirão.

As pessoas se amontoam atrás de uma cerca de segurança próximo a uma avenida, sem máscaras ou protocolos de distanciamento social para evitar a transmissão do novo coronavírus que assola mais uma vez o Brasil, sendo o Rio um dos estados mais afetados.

Sob o tenso olhar da polícia, os que esperam ficam impacientes enquanto a comida é descarregada de um caminhão.

Karen Cristina, de 31 anos, mãe de três filhos e com outros dois na barriga, finalmente consegue duas porções, água e frutas.

"Estou desempregada desde 2015. Vendo doces, sou ambulante e catadora", conta à AFP esta mulher negra e pequena, que dorme nas proximidades do aeroporto Santos Dumont, na capital.

No ano passado, recebeu R$ 600 por mês distribuídos pelo governo Jair Bolsonaro desde abril, depois reduzido para R$ 300 em setembro e posteriormente suspenso em dezembro.

Atualmente conta principalmente com o programa "RJ Alimenta", que desde agosto já distribuiu mais de 1,2 milhão de refeições em diferentes pontos da cidade, e nos últimos dois meses viu suas filas crescerem.

"Antes a gente tinha um perfil de pessoas que moravam nas ruas, agora esse perfil se mistura aos novos desempregados, que encontram no programa muitas vezes a única refeição do dia", explica Bruno Dauaire, secretário de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Rio, responsável pelo programa junto à Fundação Leão XIII, vinculada ao estado.

O Executivo anunciou que distribuirá o auxílio emergencial novamente a partir de abril, com valores de R$ 150 a R$ 375 a um número menor de beneficiários.

"Eu não sou morador de rua, moro numa casa [numa comunidade], pagando aluguel, mas estou 5 meses atrasado", afirma Cica de Deus, um simpático senhor de 69 anos que percorre a cidade em busca de latas, papelão e papel para vender em centros de reciclagem.

Improvisando uma máscara com um lenço fino, ele se dirige à câmera na esperança de mandar sua mensagem diretamente para o Bolsonaro: "Eu até queria perguntar pro presidente Bolsonaro se ele vive com 150 reais. Não dá para viver!".

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