Filha de Jefferson proibiu ministro de nomear sem seu aval, diz PF

FÁBIO FABRINI E REYNALDO TUROLLO JR.

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em relatório da Operação Registro Espúrio, a Polícia Federal sustenta que o ministro do Trabalho, Helton Yomura, foi alçado ao cargo para perpetuar o suposto esquema criminoso liderado por seus padrinhos políticos, o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, e a filha dele, deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ).

Os investigadores listam uma série de mensagens trocadas pelo ministro com Cristiane, nas quais é ela quem determina quem deve ser nomeado ou exonerado de cargos na pasta.

Numa delas, de 28 de maio deste ano, a congressista, segundo a PF, ordena a Yomura que "não nomeie ninguém sem passar antes pelo crivo dela".

Cristiane foi indicada pelo PTB para assumir a chefia do Trabalho, mas sua posse foi barrada pela Justiça depois de revelado que ela tinha condenações por desrespeito à legislação trabalhista. Com isso, ela própria e o pai trabalharam para que Yomura assumisse a função.

Os três são alvos da operação e negam envolvimento em ilícitos.

Na mesma data, a deputada afirmou que o ministro devia atender a uma demanda do deputado Benito Gama (PTB-BA).

Yomura explicou que estava deliberando sobre as questões e perguntou qual publicação no Diário Oficial da União desagradara Cristiane. Ela respondeu que queria a exoneração de uma servidora.

"Os elementos de informação até então coletados indicam uma atuação [de Yomura] voltada aos interesses da mesma organização criminosa investigada, pois o exercício das atribuições inerentes ao cargo ocupado, em determinadas ocasiões, é guiado por pessoa estranha à pasta por ele titularizada", diz documento da Registro Espúrio obtido pela reportagem.

A PF afirma que o ministro tinha ciência do esquema para manipular a tramitação de registros sindicais, atendendo a demandas de políticos ligados ao PTB e ao Solidariedade. Essas evidências surgiram em mensagens trocadas por ele com auxiliares, entre eles o ex-coordenador-geral de Registro Sindical Renato Araújo, preso preventivamente na primeira etapa da Registro Espúrio.

Parte das provas contra o ministro foram extraídas também do celular de Cristiane Brasil, apreendido na segunda fase da operação.

Em mensagens de 30 de maio, segundo a PF, a deputada parabeniza Yomura pela demissão de Maria Tereza Pacheco da Secretaria de Inspeção do Trabalho. Além disso, cobra do ministro "blindagem" a Araújo.

Cristiane Brasil também exigiu de Yomura a nomeação de Jéssica Mattos, outra presa na operação por suspeita de auxiliar Araújo na confecção de notas técnicas fraudulentas e de cobrar propina.

Numa mensagem de 28 de maio, a deputada perguntou a Yomura "quanto tempo mais" levaria para sair a nomeação de Jéssica e acrescentou que a demora "atrapalha muito".

Ele explicou que o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, responsável por aprovar a contratação de servidores comissionados de escalões mais altos, havia descumprido um acordo para nomeações e exonerações no ministério. Acrescentou que a contratação de Jéssica estaria dependendo de "uma consulta".

Em 31 de maio, um dia após a primeira fase da Registro Espúrio, Yomura chega a informar a Cristiane Brasil, segundo os investigadores, que sua decisão de exonerar os investigados na operação -anunciada à imprensa no início de junho- foi tomada com a concordância prévia de Jefferson.

Ele recebeu todas as peças do inquérito, mas, segundo a PF, só teria enviado uma parte à Corregedoria do Ministério do Trabalho, cuja missão é apurar faltas dos servidores.