Filha de José Saramago conta que aprendeu com o pai a não falar do que não sabe

A bióloga e escritora Violante Saramago nunca esqueceu o que seu pai lhe disse em 1973, quando ela, presa pela ditadura portuguesa, recusou que ele pagasse sua fiança: “Tens que aguentar e tens que buscar forças nem que seja no dedão do pé”.

—Me pareceu um sítio completamente abstruso para buscar forças, mas as palavras me ficaram — diz.

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Filha única do escritor José Saramago e da artista plástica Ilda Reis, Violante é autora do livro “De memória nos fazemos”, que será lançado no Brasil pela editora Rua do Sabão, no qual compartilha as lembranças que guarda do pai, que, assim como ela, também viveu metido em política.

Em entrevista ao GLOBO, Violante conta como Saramago lhe ensinou a não escrever sobre o que não sabe.

Como a trajetória pessoal impactou sua literatura?

Meu pai conhecia os ofícios que retratava nos livros. Falou sobre os trabalhadores rurais em “Levantado do chão” porque seus avós conheceram a exploração nos latifúndios no Alentejo. “História do cerco a Lisboa” é sobre um revisor porque ele exerceu esse ofício. A essas experiências e às leituras, somaram-se suas preocupações com o mundo, sua ética.

Saramago demorou a conquistar espaço na cena literária. Sua origem humilde atrapalhou?

Meu pai nasceu numa casa de chão de terra batida. Não completou sua educação no liceu e na universidade, como a maioria dos escritores de sua geração, mas na escola técnica. Os escritores de Lisboa não podiam aceitar um serralheiro mecânico. Graças à escritora Isabel da Nóbrega, com quem se relacionou depois de se separar da minha mãe, ele passou a ser tolerado nesse meio. Não aceito, mas tolerado. Mas o serralheiro mecânico chegou a Estocolmo e eles, não. Meu pai conquistou seu lugar a pulso.

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Havia educação política na casa dos Saramago?

Não. Havia transmissão de valores. Às vezes, ouvíamos a rádio que os exilados políticos haviam criado em Argel. Meu pai era do Partido Comunista Português. Eu era maoísta. Repetíamos, dentro de casa, as divergências entre União Soviética e China. Isso levava a grandes discussões, mas só uma vez a gente chateou-se a sério.

O que você aprendeu com seu pai e gostaria de compartilhar com os leitores dele?

Se calhar, a história de Goa. Quando Portugal perdeu as colônias na Índia, em 1961, a professora nos pediu que escrevêssemos uma redação sobre Goa. Escrevi uma cheia de efeitos especiais. Steven Spielberg deve ter se inspirado nela para fazer seus filmes! Mostrei-a para o meu pai. “Papai, tenho aqui uma redação sobre Goa”. Ele me olhou por cima dos óculos e perguntou: “O que que tu sabes de Goa?”. Eu disso: “Nada”. Engoli em seco. Serviu-me de aprendizagem. Escrever não é só juntar palavras. Elas têm que refletir o que a gente pensa. Escrever nos obriga a formar um pensamento. Isso é muito útil nesses dias de fake news. Devemos pensar antes de vomitar ódio e inveja nas redes sociais.

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Qual o seu romance favorito de Saramago?

“Ensaio sobre a cegueira”, “Ensaio sobre a lucidez” e “O ano de 1993”. “Ensaio sobre a cegueira” termina com esperança, os cegos começam a ver a luz. “Ensaio sobre a lucidez “é o contrário. Termina com a mulher do médico assassinada e os cães a uivar. Menos falado, “O ano de 1993” imagina como a tecnologia pode ser usada para destruir uma população. Esses três livros são leitura obrigatória para quem quer conhecer o pensamento e as preocupações de José Saramago.