Filha de vítima de feminicídio quer ser delegada para proteger outras mulheres

Carolina Heringer
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Foto: Guito Moreto

O trauma é difícil de ser superado e o que aconteceu, impossível de ser esquecido. Mas X., de 17 anos, que perdeu a mãe há quatro, vítima de feminicídio, tenta transformar a dor em vontade de ajudar. A adolescente não tem dúvida quando lhe perguntam qual é o seu sonho: ser delegada, para auxiliar na proteção às vítimas de violência doméstica e aos seus filhos, que, como ela, ficam desamparados com a perda da mãe. Em 2019, 85 mulheres foram vítimas de feminicídio no Estado do Rio, um aumento de 19,7% em relação a 2018, que registrou um total de 71 casos.

O desejo da menina de se tornar delegada é justificado. Sua mãe foi morta pelo ex-companheiro, seu padrasto, em setembro de 2016, no Jardim Carioca, na Ilha do Governador, após ter deixado a 17ª DP. Na unidade, havia denunciado ameaças que recebeu poucas horas antes. O autor estava presente, mas foi liberado. No mesmo dia, ela foi assassinada a facadas dentro de casa.

— Quero poder ajudar mulheres a não passarem pelo que minha mãe passou. E vou tentar impedir que outros filhos sintam a minha dor — diz a adolescente.

X. e sua irmã, de 15 anos, não estavam em casa quando a mãe foi morta. Mas o fato de não terem presenciado o crime não fez com que o trauma fosse menor. A adolescente, que é acompanhada por uma psicóloga, precisa usar medicamentos controlados e desenvolveu depressão. Ela e a caçula foram acolhidas por uma tia materna.

O maior receio das irmãs é que o assassino, preso uma semana após o crime, seja solto e possa fazer algo contra a família. Ele se relacionou com a vítima por pouco mais de um ano. O pai de X. foi assassinado quando ela tinha 6 meses.

Em maio de 2018, o assassino foi condenado por júri popular a dez anos de prisão por homicídio simples, ou seja, sem a qualificação de feminicídio. O Ministério Público do Rio recorreu, alegando que a decisão foi “manifestamente contrária à prova dos autos”, uma vez que as investigações demonstraram que o crime havia sido cometido em situação de violência doméstica e familiar. Em fevereiro de 2019, os desembargadores da 3ª Câmara Criminal concordaram e determinaram um novo julgamento, marcado para o próximo mês.

‘As duas ainda têm muito medo dele’

A tia de X. nunca teve dúvida do desafio que seria assumir os cuidados das sobrinhas. Mesmo sem condições financeiras, resolveu acolhê-las. No ano passado, porém, a mais nova passou a morar com uma avó de consideração.

— Foi muito difícil. As sequelas que elas têm são para o resto da vida. Procuro ajudá-las com espiritualidade, além de acompanhamento psicológico. As duas ainda têm muito medo dele (ex-companheiro da mãe) — afirma a tia.

X. tinha 13 anos quando a mãe foi morta e enfrentou muitas dificuldades para lidar com o sentimento da perda e do fim daquele núcleo familiar. Ela, a irmã e a mãe eram extremamente unidas. E os traumas que as meninas carregam não são apenas pelo crime, mas por terem presenciado diversos episódios de violência envolvendo o padrasto e a mãe.

Muitas buscas e, enfim, apoio

X. lembra que, muitas vezes, era agredida ao tentar defender a mãe. Como se não bastasse, ela e a irmã eram ameaçadas de morte pelo padastro.

— Demorou muito para eu conseguir enfrentar o que passei. Eu descontava em tudo, vivia em crise. Só consegui com o apoio da minha família e de psicólogos. Minha irmã não aceita tratamento, nunca quis. Diz que está bem, mas não é verdade. Ela dorme mal, tem pesadelos — explica.

Os desafios enfrentados pela tia, logo que passou a cuidar das meninas, incluíram buscas por tratamento para ambas. Na Clínica da Família do bairro onde moravam, elas entraram na fila de atendimento, mas nunca foram chamadas. X. chegou a ser levada ao Instituto Philippe Pinel, em Botafogo, mas não gostou.

Há dois anos, as meninas contam com o auxílio da advogada Marilha Boldt, que se dedica às causas de mulheres que sofrem violência doméstica. Ela afirma que faltam políticas públicas para as famílias que enfrentam o problema.

— Percebo que a rede de tratamento pensa na vítima e esquece o entorno. Os filhos que presenciam a violência doméstica são cheios de transtornos. As consequências são imensas — diz a advogada, que integra o Núcleo Interamericano de Direitos Humanos da UFRJ.

No Rio, o Núcleo Especial de Defesa dos Direitos da Mulher (Nuden) da Defensoria Pública faz atendimento a vítimas e parentes. A psicóloga Pâmella Rossy, que o integra, lamenta que não exista uma rede de saúde específica para filhos de vítimas de feminicídio:

— Para quem acabou de sofrer esse grande trauma, há a necessidade de que o apoio comece imediatamente.