Filho de brasileiros preso por invadir Capitólio perde amizade: 'Você foi racista desde o 1º dia'

Louise Queiroga
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Um homem filho de brasileiros que foi preso nos Estados Unidos por ter participado da invasão ao Capitólio no último dia 6 em apoio ao ex-presidente Donald Trump está recebendo mensagens irônicas em seu perfil do Facebook, assim como críticas pelo comportamento e pedidos para desfazer amizade.

No último sábado, um dia após ter saído o indiciamento contra Samuel Pinho Camargo pelo Departamento Federal de Investigação dos EUA (FBI, na sigla em inglês), o suspeito fez uma postagem na rede social e marcou um conhecido nos comentários, para atrair sua atenção àquele conteúdo. No entanto, a reação do usuário do Facebook, identificado como Andrew Cameron, não saiu conforme ele esperava.

O internauta, até então considerado um amigo por Samuel, deixou bem claro sua opinião sobre ele:

"Por favor, não me marque, pois você é um criminoso e traidor deste país", escreveu.

Samuel então respondeu apenas dizendo: "desculpe, amigo". Mas, ainda insatisfeito, o homem ressaltou: "nós não somos amigos".

A partir dessa declaração, o investigado pelo FBI pareceu demonstrar surpresa:

"Nós fomos (amigos) em um ponto, pelo menos eu pensei assim", comentou.

Andrew decidiu então esclarecer de uma vez por todas:

"Eu realmente não quero continuar respondendo, mas já que seu Facebook provavelmente será usado como evidência contra você no julgamento, lembre-se de que eles não estão fechando negócios para insurrecionistas. Só para constar, nós nunca fomos amigos, você foi racista desde o primeiro dia. Agora, de novo, pare de me marcar", completou.

Por fim, Samuel postou sua despedida ao antigo colega:

"Sim, éramos (amigos), pelo menos no Facebook éramos. Sou latino, então não sei como isso (ser racista) se aplica a mim. Certo cara, vou te deixar em paz. Boa sorte para você, vou orar por você", afirmou.

Nos comentários seguintes outros internautas se manifestaram dizendo que ele pode, sim, ser visto como uma pessoa racista, apesar da origem latina, por ser filhos de brasileiros. Apareceram ainda mensagens críticas a seu comportamento e alguns memes.

"Ser latino não significa que você não possa ser racista. O que mais tem na América Latina é gente racista, não vem com essa m* não", afirmou uma usuária do Facebook.

"Meu amigo é quem primeiro te denunciou! Ele é o patriota, não você", escreveu outra pessoa.

"Achou que estava no braZil, né? tomara que pegue 25 anos de cadeia, pra pensar na merda que fez", comentou um internauta.

De acordo com o agente especial do FBI Michael Attard, a denúncia contra Samuel Pinho Camargo foi feita por um ex-colega de classe e amigo do suspeito nas redes sociais. Ele avisou o FBI sobre as postagens feitas por Samuel no Instagram e no Facebook que mostravam o envolvimento dele no tumulto no Congresso norte-americano.

Em um documento à Justiça, o agente especial anexou capturas de tela do conteúdo divulgado por Samuel, em que se pode ver uma peça de metal de uma estrutura desconhecida do Capitólio dos EUA ao mencionar “peguei algumas recordações, fiz eu mesmo”.

Mais tarde ainda no dia 6, Samuel chegou a postar no Facebook que lamentava por er participado do tumulto no Congresso dos EUA. A publicação, contudo, já foi apagada de sua página.

"Para todos meus amigos, família e povo dos Estados Unidos da América, eu peço desculpas por minhas ações hoje no Capitólio em D.C (Distrito de Colúmbia). Eu estava envolvido nos eventos que aconteceram mais cedo hoje. Eu vou me ausentar de todas as redes sociais pelo futuro próximo e vou cooperar com todas as investigações que possam surgir por meu envolvimento. Sinto muito por todas as pessoas que decepcionei já que isso não reflete quem sou ou o que apoio", escreveu.

Um dia após a invasão, o FBI recebeu outra parte de um conteúdo postado por Samuel nos Stories. Tratava-se de um vídeo enviado por e-mail ao departamento de investigação, mostrando que ele estava nos atos de seguidores de Trump na capital norte-americana no momento da confusão.

Nas imagens, Samuel aparece "no nível mais baixo dos degraus do lado Oeste do Capitólio dos Estados Unidos, em meio a uma grande multidão", descreveu Attard, citando pessoas segurando faixas. Mais para o final da gravação, ele surge diante de uma das portas do Congresso enfrentando a polícia enquanto forçava sua entrada no edifício.

O agente especial do FBI explica que após analisar os indícios, pode concluir que Samuel "lutou ativamente para entrar no Congresso".

"Também no vídeo, você vê o que parece ser a mão esquerda de Camargo na porta enquanto ele está filmando com a mão direita", acrescentou Attard, dizendo que as publicações referidas foram excluídas posteriormente pelo autor. "A partir desta revisão, parece que muitos dos outros vídeos e fotos do comício foram removidos".

Durante a investigação, o agente especial telefonou para Samuel para questioná-lo sobre as acusações.

"Na entrevista, Camargo admitiu ter assistido aos protestos em Washington, D.C. em 6 de janeiro de 2021, e desde então voltou para o condado de Broward, Flórida", narrou Attard.

No entanto, depois da conversa, Samuel teria deixado de cooperar com o FBI. Segundo Attard, o suspeito chegou a questionar sua lealdade à constituição e avisou o agente especial que "não tinha nenhuma informação a fornecer".

Algumas horas depois, Samuel postou no Facebook que havia falado com o FBI e imaginava ter sido liberado — o que não procede.

No dia 8, Attard foi à Flórida investigar mais o filho de brasileiros, que tinha um relatório policial no estado datado de 3 de janeiro de 2020. Seu conteúdo, porém, não foi divulgado.

Seis dias depois, o ex-colega de classe que fez a primeira denúncia contra Samuel conversou com o agente do FBI, reconhecendo que a pessoa que aparece nos registros oficiais como sendo o investigado é o mesmo indivíduo retratado nas postagens em rede social invadindo o Capitólio.

Com base no confronto de Samuel com a polícia do Capitólio para abrir uma porta do edifício, o departamento de investigação concluiu que o suspeito violou o crime de "cometer ou tentar cometer qualquer ato para obstruir, impedir ou interferir com qualquer bombeiro ou policial legalmente envolvido no desempenho legal de suas funções oficiais" provocando "incidentes" durante "uma desordem civil" que, de alguma forma, "obstrui, atrasa ou afeta adversamente comércio ou a movimentação de qualquer artigo ou mercadoria no comércio ou a conduta ou desempenho de qualquer função protegida pelo governo federal", o que inclui "a Sessão Conjunta do Congresso" para "contagem de votos do Colégio Eleitoral".

O relatório de Michael Attard, designado para um esquadrão de contraterrorismo e encarregado de investigar atividades criminosas dentro e ao redor do Capitólio em Washington no dia 6, foi assinado pelo juiz Zia M. Faruqui na última sexta-feira, dia 15, e está disponível para consulta através do site do programa sobre extremismo da Universidade George Washinton.