Filho de catador morto enterra pai no dia em que faz aniversário: ‘Não sei explicar a dor’

Jonathan Ribeiro enterra o pai, o catador Dierson Gomes da Silva, de 50 anos, na data em que completa 26 anos. Dierson, conhecido como Lorde por moradores da Cidade de Deus, foi morto durante uma operação da Polícia Militar na manhã de quinta-feira, ao ter um pedaço de madeira confundido com um fuzil. Segundo parentes, Dierson nunca teve envolvimento nenhum com o crime e era uma pessoa tranquila e brincalhona. O velório acontece neste sábado, no Cemitério do Pechincha, na Zona Oeste.

— Eu sinto dor, não sei explicar a dor que sinto. Tudo que um filho espera é passar o aniversário com os pais. E tiraram isso de mim, mataram meu pai por um pedaço de madeira — lamenta Jonathan.

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De acordo com a família dele, a madeira que ele levava seria uma parte de um pé de mesa. O catador costumava acoplar a peça em uma enxada, que funcionava como cabo, para serviços de capina. A alça servia para transportar a ferramenta nos ombros. Segundo a Polícia Militar, agentes confundiram o objeto com um fuzil. Familiares alegam que o catador foi surpreendidos por diversos tiros nas costas quando estava na varanda de casa.

Ao menos 40 pessoas compareceram ao Cemitério do Pechincha, na Zona Oeste do Rio, nesta manhã para se despedir de Dierson, que era querido por todos na comunidade. O velório do catador foi movido por muita comoção e de pedidos de justiça de parentes e amigos.

— Meu pai era uma pessoa muito tranquila, vivia brincando com todos. Eu não consigo mais dormir, porque ele não está mais por lá com a gente. Fizeram uma covardia dessas com um homem que nunca teve envolvimento nenhum. Ele ainda estava de costas… — conta o filho mais velho do catador, Jefferson Ribeiro, de 30 anos.

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Netos de Dierson, as duas crianças, de 5 e 7 anos, contam que gostavam de brincar com o avô. O mais novo não para de chorar desde que soube da morte do avô, revela Jefferson, pai dos dois meninos.

— Meu vô sempre brincava. A gente brincava de carrinho e moto com ele. Também ia à praia. Uma das brincadeiras favoritas era pique-pega — conta o mais velho.

O catador foi morto durante operação da PM, nesta quinta-feira, na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Na ocasião, Dierson estava saindo de casa, na localidade conhecida como Pantanal, levando uma madeira amarrada em uma alça, quando foi baleado por policiais militares do 18ºBPM (Jacarepaguá).

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Ao prestarem depoimento na DHC, os militares envolvidos no caso alegaram que a guarnição se sentiu ameaçada ao se deparar com um "suspeito" saindo de um barraco com algo similar a um fuzil com bandoleira. A Polícia Militar informou por meio de nota que "o comando da Corporação já instaurou um procedimento apuratório para averiguar as circunstâncias que vitimaram fatalmente um homem na comunidade".

Pai de dois filhos, Dierson era viúvo. Segundo sua família, ele passou a ter problemas de depressão após perder a mulher e a mãe. As duas morreram há algum tempo por problemas de saúde não especificados pelos parentes. O catador de recicláveis é descrito pela irmã como uma pessoa muito querida na comunidade. De acordo com moradores, ele era uma pessoa humilde e tinha costume de ajudar as pessoas por onde morava.

Segundo a família da vítima, um problema na declaração de óbito do catador, que teria sido expedida sem o carimbo do médico responsável pelo exame cadavérico, feito no Instituto Médico-Legal, atrasou a liberação do corpo para o sepultamento.

— O estado não fez o enterro dele, não ajudou em nada. Foi a família que correu atrás e conseguiu fazer. Eu quero justiça por ele — afirma Jefferson, que também completa: — Meu pai não tinha problemas de saúde, estava 100%. Nem Covid ele pegou, nunca pegou. E foi tirado da gente dessa forma, do nada. Antes de tudo, a gente planejava sair com meu irmão no aniversário, passar o dia com o meu pai, mas foi tudo desfeito.