Filho de motorista de aplicativo soube pela internet como pai morreu e disse que quer ser policial para combater violência

O filho do motorista de aplicativo Paulo Alberto Lara Fernandes, de 56 anos, que morreu na quarta-feira, após ser baleado na Rua Fernando Lobo, em Ricardo de Albuquerque, num dos acessos ao Complexo do Chapadão, na Zona Norte, tomou conhecimento da forma como o pai morreu pela internet. A mãe do menino de 11 anos contou que o garoto reconheceu a placa do carro em uma foto publicada numa página nas redes sociais e agora diz que em vez de cirurgião quer ser policial, quando crescer, para combater violênciza. A polícia investiga se a vítima foi morta ao entrar no local por engano. O corpo será sepultado neste sábado, às 11h, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul.

— Por mais que seja uma criança de 11 anos, ele já tem uma certa maturidade. E, quando soube do ocorrido, foi para a internet procurar (mais informações). Foi muito chocante. Ele viu fotos que postaram. Ontem que começou a cair a ficha e ele começou a entender melhor o que tinha acontecido e falava "não quero ser mais médico, agora eu quero ser policial" — contou Fernanda Gonçalves, de 40 anos, que tentou demover o filho da ideia, argumentado que o sonho do pai era vê-lo médico.

Ela disse ainda que o menino está muito abalado e pergunta se agora não vai mais ter mais o pai. Ela o consola respondendo que ele tem toda uma família ao seu lado. Fernanda e Paulo foram casados por 12 anos e estavam separados desde o final de 2020.

Porém, como eram sócios num estúdio de dança, se falavam quase que diariamente. Fernanda contou inclusive que chegou a trocar mensagens sobre o trabalho com o ex-marido, momentos antes de ele ter sido atingido, e estranhou quando ele parou de responder.

Fernanda disse ainda que Paulo era biólogo e trabalhava numa clínica de reprodução humana, mas decidiu trabalhar também como motorista de aplicativo, para aumentar a renda. Ela contou que a família era contra, por conta dos riscos, mas ele insistiu e seguiu adiante.

Paulo foi baleado no fim da tarde de quarta-feira, quando voltava de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, e passava por Ricardo de Albuquerque, a caminho de Realengo, na Zona Oeste. Ele foi socorrido por bombeiros que o levou para o Hospital Municipal Albert Schweitzer, mas não resistiu aos ferimentos.

Fernanda soube do ocorrido por um irmão da vítima, que disse apenas que algo muito grave tinha acontecido ao motorista de aplicativo. Ela acredita que, a notícia tenha sido dada dessa forma para preservá-la. O filho do casal acabou ficando sabendo antes da mãe a verdadeira causa da morte do pai.

—É muito difícil aceitar esse nível de violência em que a pessoa sai para trabalhar e não sabe se vai voltar para casa, só porque errou um caminho— lamentou Fernanda.

Ela disse que depois de um acontecimento como esse, a única coisa que vem à mente é o desejo de justiça. Porém, reconhece que sem a intervenção das autoridades, episódios de violência como esse não vão parar de se repetir e fez um apelo:

— Peço que as autoridades deem atenção (à segurança pública) para que a população tenha garantido o seu direito de ir e vir e não fique refém da violência.