Filho de ouvidor da Venezuela comove nação pedindo fim da injustiça

Por Alexandra Ulmer
Ouvidor de Justiça da Venezuela, Tarek William Saab, conversa com a imprensa durante uma coletiva em Caracas, Venezuela 3, 2017. REUTERS/Marco Bello

Por Alexandra Ulmer

CARACAS (Reuters) - O filho do ouvidor de direitos humanos pró-governo da Venezuela surpreendeu a nação em meio aos grandes protestos contra o governo de esquerda pedindo a seu pai publicamente pelo "fim da injustiça".

A oposição acusa o ouvidor Tarek Saab, cujo título oficial é "defensor do povo", de fazer vista grossa aos abusos contra os direitos humanos e à guinada ditatorial do impopular presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Em muitas das amplas passeatas de rua vistas em Caracas nos últimos dias, os manifestantes tentaram convergir para seu escritório, mas as forças de segurança usaram gás lacrimogêneo e jatos de água para conter a multidão. Cerca de 29 pessoas morreram até agora nos distúrbios deste mês.

Os venezuelanos ficaram chocados ao ver o filho de Saab, um estudante de Direito, rompendo publicamente com seu poderoso pai e dizendo que ele mesmo foi vítima do que chamou de repressão do governo contra os manifestantes.

"Pai, neste momento você tem o poder de pôr fim à injustiça que afundou este país", disse Yibram Saab em um vídeo postado no YouTube no final da quarta-feira, no qual é visto sentado e lendo um pedaço de papel.

"Peço a você como filho, e em nome da Venezuela que você representa, que você reflita e faça o que tem que fazer. Eu entendo, sei que não é fácil, mas é certo, é a coisa certa a fazer", acrescentou.

O apoio de seu pai é essencial para permitir que os parlamentares abram um processo para retirar os magistrados do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que em março assumiu as funções da Assembleia Nacional de maioria opositora. A decisão foi revertida rapidamente em meio à revolta generalizada, mas também desencadeou protestos contínuos.

Não houve resposta imediata do ouvidor, um advogado e ex-governador do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

O escritório do ouvidor, que o descreve como um ativista de direitos humanos cujas atividades incluem defender ativistas políticos "desaparecidos" na Venezuela no último século, não respondeu a um pedido de comentário.

Em uma carta publicada mais tarde no Twitter, o filho de Maduro pediu a Yibram Saab que reconsidere sua posição, ecoando o discurso governista segundo o qual os manifestantes são terroristas tentando instigar um golpe de Estado em meio aos maiores protestos desde 2014.

"Seus três minutos de fama poderiam ter sido diferentes. Eu acho que você poderia ter pego o telefone e falado com seu pai, expressando-lhe o seu amor e preocupação e ouvi-lo", escreveu Nicolás Maduro Guerra.

Líderes da oposição encararam o vídeo como prova das divisões crescentes dentro do chavismo de Maduro, cuja Presidência vem sendo marcada por uma recessão acentuada e pela escassez de alimentos e remédios.

Os opositores da Maduro, além de exigirem eleição geral, estão pedindo a libertação de ativistas presos, ajuda humanitária para mitigar a escassez de alimentos e medicamentos, e autonomia para o Legislativo do país.

O presidente Estados Unidos, Donald Trump, um forte crítico de Maduro, disse na quinta-feira que a situação na Venezuela é "muito triste".

Venezuela anunciou na quarta-feira que irá sair da Organização dos Estados Americanos, e é esperado que Maduro apresente a carta de demissão da Venezuela do entidade na quinta-feira, dando início a um processo de remoção que pode levar dois anos.

Mas o movimento de Caracas pode ter sido preventivo. O chefe da OEA havia dito que a Venezuela poderia ser expulsa do grupo, e acusou o governo de Maduro de minar a democracia no país, atrasando eleições e recusando-se a respeitar o Congresso liderado pela oposição.

O secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA) disse que a Venezuela pode ser expulsa do grupo, acusando o governo de Maduro de erodir a democracia do país adiando eleições e se recusando a respeitar o

Congresso liderado pelos oposicionistas.

    (Reportagem adicional de Girish Gupta)

((Tradução Redação São Paulo, +5511 56447719))

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