Filho de presidente na Copa: histórias dos Weah, da Libéria e dos EUA se misturam

Se o atacante Timothy "Tim" Weah entrar em campo nesta segunda-feira, contra a País de Gales, às 16h, pela estreia na Copa do Mundo do Catar, as histórias dos Estados Unidos e da Libéria, um país de 5 milhões de habitantes no oeste africano, voltarão a se encontrar, um choque geopolítico que já perpassa três séculos. Tudo sob os olhos de uma lenda do futebol africano que virou político: nascido em Nova York, Tim é filho de George Weah, dono de uma Bola de Ouro e atual presidente da Libéria.

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Weah, um centroavante rápido e de finalização explosiva — características raras na época —, marcou o fim dos anos 80 e 90, em especial com as camisas de Milan, PSG e Monaco. Pelos três clubes somados, foram 435 jogos e 180 gols marcados. Revolucionou a posição, ganhou dois Campeonatos Italianos e um Francês, mas o auge individual da carreira seria em 1995, com a conquista da Bola de Ouro e do prêmio de melhor do mundo da Fifa, um feito que nunca foi alcançado por qualquer outro jogador africano até hoje.

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Nascido na capital da Libéria, Monróvia, Weah nunca disputou uma Copa do Mundo. Mas se tornou ícone local e investiu na política ao fim da carreira. Depois de um mandato como senador, foi eleito presidente da república em 2017 e desde então vem tentando administrar um país que vive sob as sombras de golpes, guerras civis e desigualdade social. Uma história que começou na colonização promovida pelos americanos, no século XIX.

A colonização e fundação da Libéria são frutos de uma iniciativa racista surgida num período escravagista da história norte-americana, em 1822. Na época, uma sociedade fundada pela aristocracia, a American Colonization Society, buscava um lugar para escravos libertados e pessoas negras livres na sociedade norte-americana. A "solução" foi enviá-los à África, em fatias de terra adquiridas especialmente para isso.

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— A ideia da colonização é furada desde o começo, uma grande ficção política. Ela dura até o governo Abraham Lincoln (1861-1865). O próprio ainda falava disso, até o início da Guerra Civil (1861), que não havia possibilidade de convivência entre negros e brancos nos Estados Unidos, que o ideal seria eles voltarem para a África. Pessoas ligadas a ele buscaram espaços no Haiti, em Honduras, na Amazônia. Seriam projetos de colonização. Mas a Libéria era o mais importante deles, tanto que a capital é Monróvia, por causa do ex-presidente (dos EUA) James Monroe — explica Vitor Izecksohn, doutor em história e professor titular do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A ideia não daria certo. Conflitos étnicos e culturais (havia povos nativos morando nas terras que fariam parte do país) e a formação de elites econômicas fragmentaram fortemente a nação, que mesmo tendo sido a primeira do continente a declarar independência, em 1847 (reconhecida pelos americanos apenas em 1862), seguiu dividido ao longo dos séculos. Dos anos 90 aos 2000, a Libéria enfrentou duas guerras civis, posteriores a um golpe de estado em 1980. É nesse contexto que Weah, ídolo nacional, surge para governar, no que foi a primeira transição de governo democrática em décadas no país.

— A colonização só acabou com a Proclamação de Emancipação (que abriu caminho para a abolição definitiva da escravidão nos Estados Unidos) em 1º de janeiro 1863, quando o Lincoln põe um fim nisso. Já fica claro que tem que se pensar no lugar do negro dentro dos Estados Unidos, e não fora. Que é, na verdade, o desiderato em que eles estão envolvidos até hoje — analisa Izecksohn.

Pai presente na possível estreia do filho

A idolatria não impede Weah de sofrer críticas — seu governo está longe de ser uma unanimidade. No sábado, o presidente chegou ao Catar para acompanhar a Copa, uma viagem que virou combustível para a oposição local, que acusa o presidente de ser ausente, além de levantar suspeitas de corrupção entre os membros da administração.

No Catar por alguns poucos dias, ele acompanhará Tim pelo menos na estreia contra Gales, nesta segunda. O filho não é titular garantido, mas é uma peça importante na equipe do técnico Gregg Behalter, que lidera o projeto de rejuvenescimento da seleção: são 25 jogos e 3 gols marcados.

Tim tem relação bem próxima com o pai — trocam visitas na Libéria e nos Estados Unidos. Nascido em Nova York, quando George estabilizou a vida e a família por lá, engrenou nas categorias de base do futebol do país e foi chamado pelo PSG, onde se profissionalizou. Desde então, foi emprestado ao Celtic (Escócia) e hoje, aos 22 anos, atua pelo Lille, clube pelo qual já foi até campeão francês. Diferente do pai, atua pela ponta, com a velocidade como ponto mais forte.

Em uma série de entrevistas à imprensa norte-americana após a convocação, o jogador falou sobre a própria carreira e reconheceu a história de George, da pobreza ao estrelato do futebol. Por questões familiares e de residência, ele poderia atuar por Libéria, Jamaica e França — uma variedade de opções que ocorre nos casos de vários jogadores desse mundial — mas optou pelos Estados Unidos, onde nasceu, cresceu e viveu. Um direito legítimo que foi tragicamente negado aos antepassados do pai, séculos atrás.

— Não pensei em nada (quando me chamaram). Claro que minhas raízes sempre serão minhas raízes, mas eu cresci nos Estados Unidos. Vivo aqui a vida toda. Meus amigos e família estão aqui. Comecei a jogar na seleção com 12 anos, então nunca precisei escolher um lado. Não foi preciso nem tomar uma decisão — disse à Fox Sports.