Filho de Sérgio Cabral ganhou R$ 3,4 milhões de Adilsinho por festa no Copacabana Palace, afirma PF

Preso preventivamente por gerenciar uma organização criminosa especializada no comércio ilegal de cigarros, José Eduardo Neves Cabral recebeu o montante de R$ 3.403.827,79 para organizar a festa de 50 anos de Adilson Coutinho Oliveira Filho, o Adilsinho, apontado como chefe da quadrilha, no Copacabana Palace. De acordo com as investigações da Polícia Federal, a relação entre os dois começou justamente em maio de 2021, quando a empresa ZC Entretenimento, do filho do ex-governador Sérgio Cabral, foi contratada para promover o evento.

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Segundo a representação por medida cautelar de prisão preventiva, busca e apreensão e sequestro de bens da PF, ao qual O GLOBO teve acesso com exclusividade, José Cabral “recebeu valores oriundos dos crimes perpetrados” e efetuou gastos nesse montante para a celebração da festividade. A noite, marcada por episódios de ostentação e excentricidade, reuniu cerca de 500 convidados durante a pandemia do coronavírus.

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Na ocasião, os convidados receberam um convite em forma de vídeo com a trilha sonora do filme “O Poderoso Chefão” assistiram apresentações de cantores como Gusttavo Lima, Ludmilla, Alexandre Pires e Mumuzinho. O evento rendeu uma multa no valor de R$ 15.466,81 e interdição por dez dias ao hotel após a Vigilância Sanitária avaliar como "gravíssimas" as infrações das medidas de combate ao Covid-19.

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Aberta em abril de 2019, a ZC Entretenimento é uma microempresa com capital social de R$ 1 mil e sua atividade principal, conforme a Receita Federal, é de serviços de organização de feiras, congressos, exposições e festas. De acordo com a PF, o filho do ex-governador Sérgio Cabral teria então ingressado na quadrilha a partir da Operação Fumus, quando passou a transmitir ordens de Adilsinho, que era considerado foragido.

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O inquérito mostra ainda que, com o ressurgimento da quadrilha, José Cabral assumiu a posição de gerente do bando e efetuou frequentemente pagamentos do valor devido a integrantes do núcleo de seguranças. Os investigadores perceberam que além dele, pelo menos outros sete envolvidos no esquema, “de forma a confirmar a estrutura criminosa complexa e ramificada em escalões, cada qual com tarefas específicas”.

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Em uma das conversas interceptadas, José Cabral e Paulo Danilo de Oliveira Matos, conhecido como Baiano, entre 20 de junho e 16 de julho, tratam de pagamentos a funcionários e membros da malta e de “eventual acionamento para cumprimento de missão (recolhe e transporte de dinheiro e segurança pessoal)”. Baiano destaca que uma empresa de vigilância efetuou parte dos pagamentos aos funcionário e integrantes do grupo.

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Na Operação Smoke Free, deflagrada pela Polícia Federal e Ministério Público Federal na última quarta-feira, 300 policiais foram às ruas cumprir 27 mandados de prisão preventiva e 50 de busca e apreensão. Até o momento, 14 pessoas foram presas. Nesta manhã, a juíza Rosália Monteiro Figueira, da 3ª Vara Federal Criminal do Rio, determinou que José Cabral seja encaminhado ao Batalhão Especial Prisional (BEP), onde também está o ex-governador Sérgio Cabral.

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Segundo o inquérito, o grupo criminoso reiteradamente, entre 2019 a 2022, com falsificação ou não emissão de notas fiscais, depositava, transportava e comercializava cigarros oriundos de crime em territórios dominados por outras organizações criminosas, como o tráfico e a milícia. Em consequência, efetuava a lavagem dos recursos obtidos ilicitamente e remetia altas cifras ao exterior de forma irregular, entre outros ilícitos cometidos.

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A organização criminosa contaria com uma célula de serviço paralelo de segurança, coordenado pelo agente federal Allan Cardoso Inácio de Assis e integrado por policiais militares e bombeiros, que também atuavam para atender aos interesses espúrios da quadrilha. O grupo econômico que suporta a organização criminosa investigada é devedor contumaz da União e possui débito tributário de aproximadamente R$ 2 bilhões, de acordo com a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional.

Os investigados podem responder pela prática de crimes de sonegação fiscal, duplicata simulada, receptação qualificada, corrupção ativa e passiva, lavagem de capital e evasão de divisas. Se condenados, podem sofrer penas privativas de liberdade que, se somadas, alcançam o patamar de 66 anos de reclusão.

A Agência de Investigações de Segurança Interna (Homeland Security Investigations – HSI) - da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília -, compartilhou informações e colaborou com a Polícia Federal na operação, como parte da cooperação policial internacional de longa data entre autoridades norte-americanas e brasileiras.