Dedos da supremacia branca assombram o Brasil em dia trágico

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Filipe Martins faz gesto associado a supremacistas brancos em sessão no Senado. Ele nega a intenção. Foto: TV Senado/Reprodução
Filipe Martins faz gesto associado a supremacistas brancos em sessão no Senado. Ele nega a intenção. Foto: TV Senado/Reprodução

Com a pandemia fora de controle, número de infecções em alta e suspeita de manipulação de dados para baixo, o Brasil ultrapassou a marca macabra de 300 mil mortes por coronavírus no dia em que os veículos de jornalismo se converteram em plataformas de checagem para desnudar o novo figurino apresentado na TV por um presidente que, pela primeira vez, ouviu de um líder do Congresso, o único com poderes para abrir um processo de impeachment, que paciência tem limite e medidas amargas estão no horizonte.

Jair Bolsonaro se desintegra em ritmo exponencial, como o vírus que jurou que mataria menos que uma gripe comum, e na sua mesa começa a chegar a fatura ajustada de quem não quer posar com ele para a foto com tantos corpos no colo.

A crise institucional (outra, aliás), se avizinha, mas o assunto ao fim de um dia de tantas baixas foi a discussão sobre se tinha ou não caráter supremacista o gesto feito na frente das câmeras pelo assessor internacional da Presidência, Filipe Martins, enquanto o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), comandava a sessão em que os colegas pediam a saída do chanceler, Ernesto Araújo, um dos nós górdios que impedem a solução para a crise envolvendo vacinas, insumos, fabricantes e lideranças políticas estrangeiras, destratadas pelo ministro e sua turma antes de o Brasil se tornar pária internacional e precisar se ajoelhar para todos eles.

Por ordem de Pacheco, o assessor bolsonarista será investigado pelo gesto que tem jeito, cor e formato de brincadeirinha supremacista —o mesmo gesto usado pelo supremacista acusado de matar 51 pessoas em 2019 em mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia, em seu julgamento.

Era tudo o que o país precisava.

Não bastassem as mortes.

Não bastassem a situação-limite nos hospitais.

Não bastasse o colapso dos serviços funerários.

Não bastassem a perseguição e o assédio judicial por quem decidiu dar nome aos bois e ao genocídio em curso.

Não bastasse a crise econômica prorrogada por quem deixou de endossar as medidas sanitárias necessárias para conter a propagação do vírus.

Não bastasse tudo isso, as linhas de produção da tragédia precisam agora parar as máquinas do turno para discutir, novamente, se existe um preposto neonazista infiltrado naquelas engrenagens.

Martins nega a acusação e promete processar, um a um, os acusadores. Autodeclarado cristão e judeu, ele jura que seria um contrassenso ser acusado de supremacismo.

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Se queria ou não enviar uma piscadela aos supremacistas que o assistiam, não se sabe nem se pode cravar. Mas que fez o gesto, fez.

Seria forçar demais a barra imaginar que ele pensava nos admiradores do chefe e do ideólogo Steve Bannon, espécie de guru da turma, inclusive dele? Não seria mais razoável concluir que se tratava apenas um tique nervoso de quem costuma arrumar o terno como se segurasse com nojo uma xícara de café, os dedos do meio, o anelar e o mindinho levantados para o alto e o polegar e o indicador formando um círculo. Podia ser só um Ok, tá ok?

No amontoado de corpos e notícias devastadoras, o episódio entra na lista das pequenas grandes coincidências relacionadas a um governo que outro dia mesmo precisou demitir um secretário da Cultura porque, veja só, não sabia que pegava mal emular o discurso do chefe de propaganda nazista em pronunciamento em rede nacional. E que foi substituído por uma atriz que diz que tortura sempre existiu, qual o problema? Daqui a pouco os detratores vão associar também slogan da campanha com os versos da canção nacionalista Das Lied der Deutchchen, que dizia só…“Alemanha acima de tudo”.

É que, por causa dessa polarização que está aí, não se pode mais ser nacionalista hoje em dia nem perseguir ou defender a eliminação de quem não se enquadra com uma ideia de pureza e superioridade moral que meio mundo já aparece acusando de supremacismo, neofascismo e outros mimimis.

Também não pode mais exacerbar o nacionalismo, demonstrar desdém pelos direitos humanos, defender a supremacia militar, misturar governo com religião, desprezar artistas e flertar com fraudes eleitorais que todo mundo já vem com lupa os pontos de contato com as experiências alemãs e italianas no entreguerras. Só porque já tem estudo e mapeamento das células neonazistas que se espalham e dão tração a aberrações políticas pelo território nacional?

Até onde vai o politicamente correto?

Sobre Martins, esqueça o que os esquerdistas dizem sobre ele. Vale mais ouvir os insuspeitos, colegas e ex-colegas —alguns o chamam de Robespirralho.

Um dos que bateu de frente com o olavista foi o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que chegou a pedir a cabeça do desafeto ao presidente, foi demitido da Secretaria de Governo e saiu se queixando da quantidade de bobagens produzidas pelos assessores-mirins. Sobre Martins, ele já declarou não ter “a mínima condição de ser um assessor de nível presidencial em assuntos internacionais”.

Outro ex-ministro, o general Maynard Santa Cruz, deixou a Secretaria de Assuntos Estratégicos dizendo que Jair Bolsonaro se cercou de “um grupo de garotos que têm entre 25 e 32 anos que fazem uma espécie de cordão magnético em torno (do presidente) e filtram o acesso”. Martins, segundo ele, “não deveria dirigir a política de Relações Exteriores do Brasil”.

Outro ex-bolsonarista de carteirinha, o hoje deputado opositor Alexandre Frota (PSDB-SP), já declarou que Martins foi quem promoveu o encontro entre Steve Bannon, o ex-assessor de Donald Trump preso por embolsar o dinheiro de uma campanha para construção do muro na fronteira dos EUA com o México, e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o filho 03 do presidente. “É uma espécie de Louro José do Bolsonaro. Ele fica no ombro do Bolsonaro recebendo os comandos do Olavo de Carvalho lá na Virgínia”, acusou. (Carvalho, para quem não se lembra, é aquele filósofo e guru da família Bolsonaro que acusava as universidades brasileiras de ministrarem cursos de masturbação e já declarou que pode derrubar “essa merda de governo” quando quiser.)

Se perguntados, a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) e o vice-presidente Hamilton Mourão também não economizam em encômios ao falar sobre o menino dos dedinhos levantados.

Com tanta seriedade, sensibilidade do momento, capacidade intelectual e maturidade, há quem estranhe que os responsáveis por conter a tragédia em curso estejam sendo cobrados e ameaçados de reprovação no maior desafio que o país enfrenta em um século.

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