Filme de brasileiros traz a vertigem da história recente da Armênia

IGOR GIELOW
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS0) - Uma dupla de diretores brasileiros lança, neste sábado (24), seu segundo filme que tem a Armênia como inusual objeto. "Cantos de um Livro Sagrado" enfoca a vertigem que marca esse país do Cáucaso, cuja milenar história é hoje mais conhecida pelas agruras recentes que a marcaram —do genocídio de 1915 à derrota militar em 2020 para o vizinho Azerbaijão, passando pelos efeitos da dissolução da União Soviética que integrava. O curta-metragem dos primos Cassiana Der Haroutiounian e Cesar Gananian, paulistanos integrantes da ativa comunidade armênia da cidade, terá sua pré-estreia online exatamente no dia em que é lembrado o genocídio. Há 106 anos, cerca de 1,5 milhão de armênios habitantes do Império Otomano morreram em uma campanha de perseguição, massacres e deportação forçada para o deserto sírio. A Turquia, herdeira do domínio dos sultões, nega até hoje que tenha havido tal intenção. A maioria do mundo prefere manter-se silente, mas cerca de 30 países o condenam, inclusive o Brasil. Neste sábado, também é esperado que Joe Biden seja o primeiro presidente americano a fazê-lo de forma aberta —às turras com Ancara, o Congresso dos EUA já recomendou isso em 2019. O filme da dupla é impregnado pela melancolia formativa dessa Armênia moderna, mas direcionado a segmentos mais recentes da história do país, girando em torno da revolta popular de 2018 que derrubou o governo pró-Moscou em Ierevan. Filmado em três viagens antes da pandemia, entre outubro de 2018 e abril de 2019, o curta de 26 minutos não tem um roteiro linear nem se pretende documental. Ele capta sensações em cinco trechos, os ditos cantos, que falam de forma fragmentária e lírica acerca do caráter circular do drama armênio. Passa pelo ano do grande terremoto no ocaso soviético, 1988, embora não o cite diretamente, e conta uma história horrível do tempo da "escuridão" —quando, depois da dissolução do império comunista em 1991, faltou de tudo no país. É uma perspectiva com lado e temperada de uma visão afetiva e familiar, que não trata das ações duvidosas armênias —tão questionáveis quanto as azeris na guerra de 1992-94, que deitou as raízes do conflito do ano passado. No canto mais otimista, a dita "revolução de veludo" de 2018, é evocada por meio de um discurso do homem que a liderou, Nikol Pashinyan. O fato de ele ter virado o premiê que perdeu a guerra e quase todo o encrave de Nagorno-Karabakh para o Azerbaijão, caindo em desgraça, não demoveu os diretores de mantê-lo no filme. "O discurso de Pashinyan se tornou um hino nacional na Armênia e foi o estopim para mais de 500 mil pessoas irem para as ruas", diz a dupla. "Buscamos criar uma reflexão sobre a complexidade de uma revolução, que carrega em si tanto a destruição quanto a criação." Roteirizado pelos primos, "Cantos" tira seu título de uma música do influente místico armênio George Gurdjieff (1866?-1949), mas sua abordagem de trabalho espiritual não se faz presente. Cassiana, que trabalhou como editora de fotografia na Folha de S.Paulo e edita o blog Entretempos no site do jornal, e Gananian trabalharam antes no documentário "Rapsódia Armênia" (2012), com Gary Gananian, que teve uma carreira bem-sucedida no roteiro de festivais. A dupla irá falar com o público, mediada pelo historiador e consultor do curta Heitor Loureiro, em uma sessão virtual após a exibição da pré-estreia do filme. O evento é gratuito e começa às 20h30 deste sábado. É preciso adquirir um ingresso aqui.