Filme dinamarquês traz retrato intimista do horror do Estado Islâmico

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante, havia o Estado Islâmico. Dizimado como ente subnacional organizado na Síria e no Iraque, a mais recente encarnação do mal parece ter sido deixado numa gaveta pelo imaginário ocidental.

Claro, há sempre o "lobo solitário" a esfaquear alguém numa calçada europeia, mas isso foi relativamente naturalizado.

Foi assim com a Al Qaeda, a antecessora do EI no papel de Satã, cuja trajetória teve ainda mais impacto na história recente, como o 11 de Setembro prova.

Claro, ambos os grupos estão por aí tentando se reorganizar e, provavelmente, darão à luz alguma variante ainda mais mortífera e cruel. Mas o Ocidente já precisa contar com a arte para não esquecer o que o aterrorizou ao longo da década de 2010.

"O Sequestro de Daniel Rye", filme dinamarquês de 2019 que chega agora ao streaming no Brasil, é uma bastante interessante tentativa nesse sentido.

Muitos, pelo menos nos Estados Unidos, se lembram da decapitação do primeiro jornalista americano pelo EI, James Foley, em 2014. Mas pouco se leu acerca dos outros 18 reféns daquela que, com idas e vindas, dividiram cela com ele em Raqqa (Síria).

É sobre um deles, Daniel Rye, que versa a obra de Niels Arden Oplev e Anders W. Berthelsen. A crítica óbvia do politicamente correto, de saída, é de que se trata de mais um filme trazendo um branquelo inocente perdido entre perigosas pessoas mais escuras que ele.

Verdade, mas também é fato que as guerras sempre tiveram esse tipo de personagem, e o choque cultural costuma gerar boas narrativas, em especial quando o caráter estupefaciente dele é explicitado.

É pena que o cinema afegão, por exemplo, não tenha tido a chance de contar o caminho inverso. Com a volta do Taleban ao poder em breve, não deverá ter tão cedo.

Isso dito, "Daniel Rye" é bom cinema. Um pouco acadêmico em seu começo, mostrando como Rye, um ginasta estrelado, acabou com sua carreira numa queda errada em um evento tolo.

A cena do acidente é chave. Extremamente dolorosa, ela conta com a edição de som para deixar a plateia angustiada, e só. Isso se repetirá ao longo dos 13 meses em que Rye passou preso nas mãos do EI, com torturas brutais e morte impregnando o cotidiano.

A violência é comedida, do ponto de vista gráfico. Mas é intensa, assim como a ameaça presente nos olhos do notório Jihadi John, o britânico de origem árabe Mohammed Emwazi que virou carcereiro e carrasco dos ocidentais e russos nas mãos do EI.

Voltado a Rye, ele se dissolve na flacidez da vida do interior da Dinamarca, onde somos apresentado à sua família: pai, mãe e irmãs. A única personagem interessante é Anita, irmã mais velha e altamente crítica da boa vida do jovem.

Procurando a vida como fotógrafo em Copenhage, ele consegue um improvável primeiro emprego auxiliando um profissional mais experiente em missão à Somália. O bichinho da guerra, como dizem os jornalistas que por ela passaram, o pegou.

Decidido a fazer carreira, ele vende o carro para o pai para poder ir por conta própria à Síria de 2013, onde a guerra civil contra a ditadura de Bashar al-Assad corria solta havia dois anos e uma miríade de grupos começava a ser sobrepujada pelos militantes radicais liderados por Abu Bakr al-Baghdadi (1971-2019).

Como o filme traz e a crônica da época já mostrou, eram zelotes meio velhacos: dinheiro falava mais alto sempre, como o comércio de ocidentais sequestrados e a venda de patrimônio arqueológico (essa não presente na obra) exemplificavam.

Rye é exemplo de jornalista despreparado, tão inocente em suas ações que qualquer um acharia que ele de fato era um espião, como suspeitavam em princípio seus sequestradores. Numa cena de humor involuntário, ele faz uma acrobacia para provar que é ginasta, para deleite sádico dos fundamentalistas.

Ele foi capturado na sua primeira entrada na Síria, numa cena de arrepiar qualquer um que já tenha ficado à mercê de guias desconhecidos em regiões inóspitas do globo, algo a que todo jornalista está sujeito, a despeito de sua experiência.

Rye é vivido por Esben Smed, numa atuação irrepreensível de decaimento físico e mental. Foley, com quem divide boa parte do diálogo intramuros, é papel de Tobey Kebbel, bem menos impressionante.

O roteiro traz cenas em que a opressão dos reféns presos é contada nos pequenos gestos. A única cena com cara de Hollywood, uma tentativa de resgate americana com helicópteros e tal, é tão rápida que mal se percebe.

O texto alterna esse desenrolar com o desespero de sua família para levantar o dinheiro para soltar Rye. Mais do que os parentes, o que se sobressai é o segundo ponto forte do elenco, o negociador de sequestros Arthur (o codiretor Berthelsen).

As cenas na Europa ajudam a dar ritmo ao filme, mas só. O foco é o que acontece dentro das celas do EI, e todo o contexto geopolítico é meramente pincelado ao longo do filme.

Previsivelmente numa obra nórdica, esquece de contar o verdadeiro ponto de virada contra os terroristas, que foi a intervenção da Rússia em favor de Assad na guerra, em 2015.

Mais "Expresso da Meia-Noite" (Alan Parker, 1978) do que "Guerra ao Terror" (Kathryn Bigelow, 2008), o filme é eficaz ao trazer o retrato intimista de um horror que perdeu a graça para a grande mídia ocidental, ainda que habite a mesma galáxia, o mesmo planeta que ela.

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O SEQUESTRO DE DANIEL RYE

Quando: A partir de 9 de junho

Onde: iTunes, Google Play, Youtube Films, Net Now, Claro, Vivo Play, Sky Play

Autor: Puk Damsgård

Elenco: Esen Smed, Sofie Torp, Anders W. Berthelsen

Produção: Dinamarca, Noruega e Suécia

Direção: Niels Arden Oplev, Anders W. Berthelsen

Avaliação: Bom

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